{"id":4955,"date":"2025-07-10T16:19:24","date_gmt":"2025-07-10T20:19:24","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4955"},"modified":"2025-11-20T22:41:09","modified_gmt":"2025-11-21T02:41:09","slug":"das-telas-as-entranhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/das-telas-as-entranhas\/","title":{"rendered":"Das telas \u00e0s entranhas"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Para al\u00e9m dos cr\u00e9ditos finais, o cinema molda imagin\u00e1rios e refor\u00e7a identidades<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-eab643c9ffb23d03ceb39665c312f15f\"><strong>Texto: <a href=\"mailto:lorenaana944@gmail.com\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:lorenaana944@gmail.com\">Ana Lorena<\/a> | <a href=\"mailto:breno.kaoru@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:breno.kaoru@ufms.br\">Breno Kaoru<\/a><br>Fotos: <a href=\"mailto:breno.kaoru@ufms.br\">Breno Kaoru<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-default\" \/>\n\n\n\n<p>No conforto de nossas casas, ou ocupando poltronas enfileiradas em uma sala escura, a tela pode ser um espelho. Diante dos olhos, uma sequ\u00eancia de frames criada por outro algu\u00e9m, que n\u00e3o nos conhece, pode contar nossas pr\u00f3prias hist\u00f3rias. As personagens e sinopses muitas vezes proporcionam mais que um simples momento de lazer. Dos irm\u00e3os Lumi\u00e8re &#8211; pioneiros na exibi\u00e7\u00e3o de imagens em movimento &#8211; ao streaming, o cinema e o audiovisual abrem espa\u00e7o para reflex\u00f5es sobre o mundo e o nosso interior.<\/p>\n\n\n\n<p>O poeta russo Vladimir Maiak\u00f3vski, figura importante do movimento Futurista, j\u00e1 alertava no come\u00e7o do s\u00e9culo XX: \u201ca arte n\u00e3o \u00e9 um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forj\u00e1-lo\u201d, sinalizando a ideia de que as telas constroem estere\u00f3tipos e a sociedade os refor\u00e7am e n\u00e3o o oposto. Entretanto, tentar entender se \u00e9 o audiovisual que influencia a sociedade ou a sociedade que influencia o audiovisual, \u00e9 como tentar descobrir se o ovo ou a galinha veio primeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre produ\u00e7\u00e3o e sociedade funciona como ciclo e um ponto a ser destacado \u00e9 a ideia de representatividade. Ela diz respeito \u00e0 presen\u00e7a de grupos sociais, principalmente os marginalizados, em espa\u00e7os p\u00fablicos, na m\u00eddia, na pol\u00edtica ou em outros contextos, criando s\u00edmbolos e refer\u00eancias que fortalecem a autoestima de pessoas que fazem parte desses grupos. \u00c9 atrav\u00e9s dela que surge a identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Com poder de influ\u00eancia nas m\u00e3os, o cinema e o audiovisual conseguem transformar, seja pelo lado bom ou ruim, a percep\u00e7\u00e3o das pessoas sobre minorias sociais por meio dessa representatividade &#8211; ou mesmo da falta dela.<\/p>\n\n\n\n<p>Na era do <em>streaming<\/em>, com grandes cat\u00e1logos de filmes e s\u00e9ries ao nosso alcance, produ\u00e7\u00f5es como Sex Education (2019) e Brooklyn Nine-Nine (2013) abordam temas sens\u00edveis, como homofobia e racismo, junto ao cotidiano dos personagens. Assim, exp\u00f5em a diversidade de pessoas que podem ocupar lugares de destaque.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme Pantera Negra (2018) tamb\u00e9m faz isso. O primeiro her\u00f3i negro a protagonizar as grandes telas num local de destaque no universo Marvel mostrou para as crian\u00e7as negras que elas podem ser protagonistas de suas vidas e buscar suas aspira\u00e7\u00f5es com confian\u00e7a assim como T\u2019Challa, o homem por tr\u00e1s da m\u00e1scara.<\/p>\n\n\n\n<p>Halle Bailey, atriz negra escalada no <em>live-action<\/em> Pequena Sereia (2023) para interpretar a protagonista Ariel, personagem branca na anima\u00e7\u00e3o original, levou a magia da Disney para meninas que viam, pela primeira vez, em telas de cinema, uma princesa igual a elas.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora de Pedagogia e ativista em debates raciais, Bartolina Catanante, ou apenas Bart\u00f4, de 62 anos, \u00e9 idealizadora do projeto Olubay\u00f4, que exibe obras cinematogr\u00e1ficas em comunidades negras e quilombolas de Campo Grande. Ela refor\u00e7a a representa\u00e7\u00e3o limitante do povo negro no audiovisual. \u201cA hist\u00f3ria nos mostrou que negros no Brasil eram os que apanhavam, eram amarrados no tronco ou fugiam para n\u00e3o trabalhar. N\u00e3o nos colocaram a vis\u00e3o de que os negros fugiam por busca da sua liberdade\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"662\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PROFESSORA-BARTO3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5251\" style=\"width:370px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PROFESSORA-BARTO3.jpg 662w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PROFESSORA-BARTO3-199x300.jpg 199w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PROFESSORA-BARTO3-400x604.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 662px) 100vw, 662px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O projeto da professora visitou nove comunidades quilombolas do estado de fevereiro a abril deste ano<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>As obras cinematogr\u00e1fica apresentadas no projeto s\u00e3o todas produzidas por cineastas negros. Ao fim da exibi\u00e7\u00e3o, rola um debate sobre identifica\u00e7\u00e3o e sobre o filme mostrado. O filme Bonita (2022), de Mariana Fran\u00e7a, por exemplo, conta a hist\u00f3ria de tr\u00eas personagens negras de diferentes gera\u00e7\u00f5es, que lutam pela aceita\u00e7\u00e3o de si mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de mulheres negras que se identificaram com as protagonistas, muitas crian\u00e7as tamb\u00e9m se viram nas telas. \u201c\u00c9 um filme que as crian\u00e7as se identificam muit\u00edssimo, assim como as m\u00e3es, pais e av\u00f3s, porque s\u00e3o os conflitos vividos na fam\u00edlia que vem e ganham tela\u201d, conta Bart\u00f4. A mensagem do filme tamb\u00e9m \u00e9 traduzida nas palavras de Bart\u00f4. &#8220;Se eu nascer da pr\u00f3xima vez, eu quero nascer uma mulher negra bonita. Uma mulher negra bonita&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><strong><span style=\"color: #ff0000\">Se eu nascer da pr\u00f3xima vez, eu quero nascer uma mulher negra bonita. Uma mulher negra bonita<\/span><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Romilda Pizani, 48 anos, atriz e ativista negra, tamb\u00e9m \u00e9 uma das organizadoras de Olubay\u00f4 e viu em Bonita parte de sua luta. \u201cEsse filme traz exatamente o que n\u00f3s chamamos de solid\u00e3o da mulher negra e o que as atinge, o que as toca. \u00c9 nesse lugar que eu me vejo e que eu me vi, onde eu me identifiquei\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"806\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ROMILDA-2-1024x806.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5252\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ROMILDA-2-1024x806.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ROMILDA-2-300x236.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ROMILDA-2-768x605.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ROMILDA-2-400x315.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ROMILDA-2.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A atriz come\u00e7ou a se interessar pela \u00e1rea desde cedo e aos 11 anos foi chamada para atuar em um filme local<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Romilda, diz que quando menina, as telonas n\u00e3o refletiam suas indaga\u00e7\u00f5es, cor e cabelo. \u201cEu queria ter uma bota da Xuxa. Todas as crian\u00e7as tinham. E eu queria ter. At\u00e9 que minha m\u00e3e me deu uma bota da Xuxa. Quando calcei e fui para a escola, virei chacota, porque se eu estava com a bota, eu queria ser uma paquita, e n\u00e3o tinha paquita negra\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A atriz lembra que as refer\u00eancias de pessoas e personagens negras ficavam sempre em segundo plano, principalmente em produ\u00e7\u00f5es para a TV aberta. \u201cO que tinha era o Mussum e alguns personagens negros que sempre foram muito desclassificados, muito subjugados, eram essas as refer\u00eancias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Romilda, com o \u201chist\u00f3rico de muitas Marias\u201d, cresceu com a falta de letramento racial da fam\u00edlia, de refer\u00eancias positivas nos ve\u00edculos de m\u00eddia e n\u00e3o teve autoestima em grande parte da vida. \u201cEu sou uma mulher preta, fui uma crian\u00e7a preta, n\u00e3o tive muitos amigos na escola. N\u00e3o fui rainha da primavera, n\u00e3o dancei quadrilha porque ningu\u00e9m queria dan\u00e7ar comigo e n\u00e3o participei dos desfiles. A autoestima e o autoconhecimento vieram muito depois, com a minha ida para o movimento negro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Conta, com al\u00edvio, que as filhas n\u00e3o vivem o mesmo cen\u00e1rio, e que ele mudou positivamente ao longo do tempo. Um maluco no peda\u00e7o (1990) e Eu, a patroa e as crian\u00e7as (2001) s\u00e3o produ\u00e7\u00f5es que retratam a rotina de fam\u00edlias afro-americanas e sua negritude de forma sutil na TV aberta, por exemplo.<\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Romilda defende que as mudan\u00e7as de representa\u00e7\u00e3o no audiovisual devem ser incentivadas. \u201cPara mim, falar da arte \u00e9 como falar da quest\u00e3o das cotas universit\u00e1rias. Existe uma universidade e uma sociedade antes da cota e uma outra sociedade, p\u00f3s-cota. E o mesmo acontece com o audiovisual\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p>Discutir identidade n\u00e3o \u00e9 uma tarefa f\u00e1cil, \u00e9 um conceito que se refere ao modo como uma pessoa ou um grupo se define, com base em caracter\u00edsticas, valores, cren\u00e7as e tra\u00e7os. Quando pensamos em coletividade, a identidade cultural caracteriza um grupo pelo conjunto de costumes, s\u00edmbolos e pr\u00e1ticas em que as pessoas podem se reconhecer como parte desse grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>O soci\u00f3logo Stuart Hall, em sua obra sobre identidade cultural e di\u00e1spora, defende que &#8220;as identidades culturais s\u00e3o os pontos de identifica\u00e7\u00e3o que se concretizam nos discursos da hist\u00f3ria e da cultura&#8221;. Ent\u00e3o, n\u00e3o s\u00e3o uma ess\u00eancia, mas um posicionamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos 27 anos, Carlos Yukio, jornalista e estudante de Audiovisual, n\u00e3o se lembra de crescer com refer\u00eancias positivas de personagens e hist\u00f3rias da comunidade LGBTQIAPN+, da qual faz parte. Quando come\u00e7ou a cursar audiovisual, percebeu que a coisa era mais complexa. \u201cOs personagens gays eram colocados para al\u00edvio c\u00f4mico e sexual. \u00c9 uma coisa que entrou no imagin\u00e1rio coletivo. Acham que pessoas gays s\u00e3o os palhacinhos da turma. A\u00ed que est\u00e1 o perigo e tamb\u00e9m a parte boa do audiovisual. A gente constr\u00f3i imagin\u00e1rios coletivos\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"596\" height=\"900\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/YUKIO-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5253\" style=\"width:356px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/YUKIO-3.jpg 596w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/YUKIO-3-199x300.jpg 199w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/YUKIO-3-400x604.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 596px) 100vw, 596px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Carlos pesquisa sobre o filme <em>O menino e o vento <\/em>(1967)<em>,<\/em> considerado o primeiro filme LGBT do Brasil<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Eddie Redmayne interpretou Lili Elbe, uma mulher transexual em A Garota Dinamarquesa (2015); Rodrigo Santoro interpretou Lady Di em Carandiru (2003) e, recentemente, a s\u00e9rie coreana Round 6 (2021) escalou o ator Park Sung-hoon para interpretar Hyun-ju (ou jogadora 120). O que todos t\u00eam em comum? Os tr\u00eas atores s\u00e3o homens cisg\u00eaneros interpretando pessoas trans.<\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Eddie Redmayne interpretou Lili Elbe, uma mulher transexual em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">A Garota Dinamarquesa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (2015)<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">; <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">Rodrigo Santoro interpretou Lady Di em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Carandiru <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2003) e, recentemente, a s\u00e9rie coreana <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Round 6 <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">(2021) escalou o ator Park Sung-hoon para interpretar Hyun-ju (ou jogadora 120). O que todos t\u00eam em comum? Os tr\u00eas atores s\u00e3o homens cisg\u00eaneros interpretando pessoas trans. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p>O cineasta Jean-Luc Godard diz que \u201cn\u00e3o \u00e9 preciso fazer filmes pol\u00edticos, mas \u00e9 preciso fazer filmes politicamente\u201d, isso porque cada palavra, escolha de elenco e enquadramento \u00e9 uma escolha, portanto um ato pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Trans Murder Monitoring, projeto que monitora assassinatos de pessoas da comunidade trans, o Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata transexuais no mundo desde 2008, com 30% dos casos mundiais. Um dado importante para qualquer produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica e\/ou audiovisual que se proponha acessar o universo LGBTQIAPN+.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e \u00e9 uma pe\u00e7a (2013) \u00e9 a franquia do filme brasileiro de maior bilheteria no pa\u00eds e gira em torno da hist\u00f3ria de Dona Herm\u00ednia, interpretada pelo pr\u00f3prio filho Paulo Gustavo, ator gay, e sua fam\u00edlia. \u201c\u00c9 muito paradoxal a maior bilheteria do cinema brasileiro ser um filme de um homem gay contando uma hist\u00f3ria que continha um personagem gay, com ele mesmo fazendo a pr\u00f3pria m\u00e3e travestido de mulher num pa\u00eds que mais mata pessoas trans no mundo. Para mim, \u00e9 fascinante\u201d, analisa Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o estudante de Audiovisual, pessoas LGBTQIAPN+, assim como outras minorias sociais, podem ocupar mais espa\u00e7os no audiovisual por meio de pol\u00edticas p\u00fablicas, para poderem contar suas pr\u00f3prias hist\u00f3rias e viv\u00eancias. \u201cTem que ter essa abertura para essas pessoas ocuparem os espa\u00e7os e tornar o sistema cada vez mais democr\u00e1tico. N\u00e3o d\u00e1 pra ter Rodrigo Santoro fazendo Lady Di pra sempre e as mulheres trans continuarem na prostitui\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m tem que chutar a porta, sen\u00e3o a gente fica parado no mesmo lugar&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><strong><span style=\"color: #ff0000\">Algu\u00e9m tem que chutar a porta, sen\u00e3o a gente fica parado no mesmo lugar<\/span><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Gabriele Peres, 23 anos, come\u00e7ou a assistir o seriado Heartbreak High (2022) enquanto realizava os longos testes psiqui\u00e1tricos de diagn\u00f3stico do Transtorno do Espectro Autista. Ela viu na protagonista autista Quinni Gallagher-Jones similaridades comportamentais, o que ressaltou suas suspeitas. O resultado saiu: autismo n\u00edvel 1 de suporte, o que significa dificuldades em comunica\u00e7\u00e3o, socializa\u00e7\u00e3o e comportamentos que n\u00e3o a impedem de realizar suas atividades de forma independente.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"678\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/GABRIELE-PERES-1024x678.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5254\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/GABRIELE-PERES-1024x678.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/GABRIELE-PERES-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/GABRIELE-PERES-768x509.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/GABRIELE-PERES-400x265.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/GABRIELE-PERES.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Gabriele cita tamb\u00e9m a s\u00e9rie <em>Atypical<\/em> (2017) como um exemplo de representatividade, principalmente para autistas do n\u00edvel 2 de suporte<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Saber que a atriz que interpreta Quinni, Chlo\u00e9 Hayden, tamb\u00e9m \u00e9 autista ajudou Gabriele a interpretar e entender a personagem, tornando-a ainda mais real. \u201cTem aquela voz na cabe\u00e7a que fala &#8216;ser\u00e1 que eu estou fingindo?&#8217;. Todas as outras coisas que retratavam o autismo eram muito estereotipadas. Ela foi uma personagem que me ajudou muito, porque eu comecei a ver as similaridades e tamb\u00e9m me entender nessa transi\u00e7\u00e3o\u201d, explica Gabriele.<\/p>\n\n\n\n<p>Situa\u00e7\u00f5es que Quinn passa na s\u00e9rie, como seguir regras pessoais e n\u00e3o ser compreendida pelos amigos, tamb\u00e9m \u00e9 algo que Gabriele relata. &#8220;As pessoas brigavam comigo. Eu sempre tentei mudar. E quando veio o diagn\u00f3stico e pude ver uma uma personagem que teve as mesmas experi\u00eancias, eu consegui ver que n\u00e3o era minha culpa&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o professor de Audiovisual da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Felipe Bonfim, 40 anos, o cinema n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 produ\u00e7\u00e3o audiovisual. Por meio das telas, ele consegue falar com um local mais \u00edntimo das pessoas, que um simples di\u00e1logo jamais alcan\u00e7aria. <br>\u201cAs narrativas e hist\u00f3rias tocam profundamente em quest\u00f5es que est\u00e3o dentro da gente. Se voc\u00ea n\u00e3o se identifica com a hist\u00f3ria ou personagens de um filme, provavelmente \u00e9 porque aquilo n\u00e3o toca em quest\u00f5es pungentes que s\u00e3o importantes para a sua hist\u00f3ria de vida\u201d, explica o professor.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"678\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/FELIPE-BONFIM-2-1024x678.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5255\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/FELIPE-BONFIM-2-1024x678.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/FELIPE-BONFIM-2-300x199.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/FELIPE-BONFIM-2-768x509.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/FELIPE-BONFIM-2-400x265.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/FELIPE-BONFIM-2.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O professor desenvolve pesquisas sobre o tema da identifica\u00e7\u00e3o no cinema<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>As pautas sociais e pol\u00edticas no cinema, nem sempre s\u00e3o feitas de forma expl\u00edcita, e a personagem geralmente n\u00e3o necessita afirmar constantemente quem \u00e9. Ele apenas \u00e9. Heartbreak High (2022) aborda quest\u00f5es como neurodiverg\u00eancia, transtornos mentais e sexualidade de maneira natural, sem transformar essas pautas em discursos martelados ou panflet\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Vingan\u00e7a e Castigo (2021) \u00e9 outro exemplo: o elenco principal do filme \u00e9 inteiramente composto por atrizes e atores negros, que destacam figuras hist\u00f3ricas negras no Velho Oeste dos Estados Unidos, sem, necessariamente, focar diretamente no racismo da \u00e9poca. &#8220;Chegou o momento em que as personagens se afirmam e n\u00e3o precisam ir \u00e0 luta para disputar o terreno&#8221;, comenta Bonfim<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\"><strong>Chegou o momento em que as personagens se afirmam e n\u00e3o precisam ir \u00e0 luta para disputar o terreno<\/strong><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>O professor comenta que os filmes trabalham \u201ccom as entranhas\u201d, nos marcando internamente, com \u201ca capacidade que o filme tem de tocar a nossa hist\u00f3ria de vida, marcar a nossa mem\u00f3ria, a nossa lembran\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n\n\n<p>Muito mais que imagens em movimento e sons sobrepostos que duram algumas horas, o cinema e o audiovisual podem resgatar reflexos de quem somos e de como nos enxergamos, deixando rastros que v\u00e3o al\u00e9m dos cr\u00e9ditos finais.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-104\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 104<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para al\u00e9m dos cr\u00e9ditos finais, o cinema molda imagin\u00e1rios e refor\u00e7a identidades Texto: Ana Lorena | Breno KaoruFotos: Breno Kaoru No conforto de nossas casas, ou ocupando poltronas enfileiradas em uma sala escura, a tela pode ser um espelho. 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