{"id":4956,"date":"2025-07-10T16:19:41","date_gmt":"2025-07-10T20:19:41","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4956"},"modified":"2025-07-16T21:42:32","modified_gmt":"2025-07-17T01:42:32","slug":"joga-com-raca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/joga-com-raca\/","title":{"rendered":"Joga com ra\u00e7a!"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Ao longo da hist\u00f3ria, pessoas pretas tiveram que lutar para ter seu espa\u00e7o no esporte e construir uma identifica\u00e7\u00e3o com cada modalidade enfrentando quest\u00f5es sociais, gen\u00e9ticas e econ\u00f4micas<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-9aef485e11de1a945f10b78c3fbd124e\"><strong>Texto: <a href=\"mailto:marcos.melo@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:marcos.melo@ufms.br\">Marcos Melo<\/a> | <a href=\"mailto:noysle.c@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:noysle.c@ufms.br\">Noysle Carvalho<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>A presen\u00e7a de atletas pretos no esporte ganha proje\u00e7\u00e3o na Alemanha nazista comandada por Hitler em 1936, nas Olimp\u00edadas daquele ano. O regime nazista buscava provar a supremacia da ra\u00e7a branca e Hitler n\u00e3o esperava que Jesse Owens, atleta afro-americano, chocaria o p\u00fablico no Est\u00e1dio Ol\u00edmpico de Berlim. O velocista conquistou quatro medalhas de ouro nos 100 e 200 metros rasos, salto em dist\u00e2ncia e no revezamento 4X100. Com o nome marcado na hist\u00f3ria do atletismo, quebrou a expectativa daqueles que refor\u00e7avam estere\u00f3tipos e racismo no esporte.<\/p>\n\n\n\n<p>Preconceito, racismo e questionamentos acerca de pessoas pretas n\u00e3o s\u00e3o de hoje, muito menos na Berlim de 1936. Sentimento e identifica\u00e7\u00e3o, in\u00fameras vezes tiveram tentativas de apagamento e fortemente resistiram a esses ataques. Mas qual \u00e9 esse sentimento? A vontade de ser parte de algo com o qual possa se identificar vai muito al\u00e9m do singular, faz parte do coletivo de pertencer.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra, o esporte se popularizou e as pessoas negras foram se integrando cada vez mais ao mundo das competi\u00e7\u00f5es. Se anos antes, Owens se consagrava, nos anos seguintes grandes nomes se destacavam na luta por um mundo esportivo mais inclusivo. No Brasil, Pel\u00e9, aos 17 anos, conquistou a primeira Copa do Mundo de futebol em 1958, e depois em 1962 e 1970.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos, Michael Jordan, na d\u00e9cada de 1990, brilhou com seis t\u00edtulos da National Basketball Association (NBA) pelo Chicago Bulls, al\u00e9m de dois ouros ol\u00edmpicos com a sele\u00e7\u00e3o americana de basquetebol. A tenista Serena Williams, vencedora de 73 t\u00edtulos da Women&#8217;s Tennis Association (WTA) al\u00e9m de 23 grand slams, se consagrou como a maior vencedora da modalidade. Outros exemplos que brilham: o brit\u00e2nico Lewis Hamilton e suas sete conquistas da F\u00f3rmula 1, um recorde; a ginasta Simone Biles com seis t\u00edtulos mundiais no individual geral e outras sete medalhas de ouro ol\u00edmpicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Todos t\u00eam algo em comum: s\u00e3o considerados por muitos os maiores nomes de seus respectivos esportes. Ainda que em modalidades distintas, cada um deles nutre um senso de identifica\u00e7\u00e3o, que surge de diferentes formas, tanto para quem j\u00e1 est\u00e1 dentro do esporte, quanto para pessoas negras que os admiram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A quest\u00e3o gen\u00e9tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitos defendem que pessoas de diferentes ra\u00e7as possuem caracter\u00edsticas f\u00edsicas espec\u00edficas que favorecem a pr\u00e1tica de determinado esporte. Essa concep\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 totalmente falsa, mas \u00e9 uma perspectiva simpl\u00f3ria. O professor do curso de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Hugo Santana, esclarece que \u201ca caracter\u00edstica corporal pode sim influenciar. A depender do esporte, a altura, que \u00e9 disposta geneticamente, pode ser favor\u00e1vel \u00e0 pr\u00e1tica de basquete e v\u00f4lei, por exemplo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, ressalta que outros aspectos n\u00e3o t\u00e3o vis\u00edveis aparecem em indiv\u00edduos de determinada etnia. As fibras vermelhas apresentam\u00a0 resist\u00eancia maior, favorecendo a continuidade no exerc\u00edcio; as fibras brancas est\u00e3o associadas \u00e0 pot\u00eancia. Mas essas caracter\u00edsticas dependem muito do m\u00e9todo de an\u00e1lise porque podem aparecer em diferentes m\u00fasculos presentes no corpo humano. O mais importante disso tudo \u00e9: a influ\u00eancia gen\u00e9tica pode existir, mas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o significante.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas negras t\u00eam maior predisposi\u00e7\u00e3o de fibras brancas, o que impacta no desempenho de provas de pot\u00eancia r\u00e1pida, como no atletismo. Por\u00e9m, n\u00e3o necessariamente provas de resist\u00eancia, que s\u00e3o preferidas pelas fibras vermelhas, que favorecem atletas brancos. \u201cEssa influ\u00eancia gen\u00e9tica n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o significativa, algo em torno de 10% que favorecem \u00e0 pr\u00e1tica dessas modalidades. Fatores sociais e econ\u00f4micos s\u00e3o muito mais influentes nesse sentido\u201d, explica Santana.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desigualdade \u00e9tnica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do gen\u00e9tico, o social \u00e9 um dos fatores presentes n\u00e3o s\u00f3 no Brasil, mas no mundo acerca das escolhas e influ\u00eancia na pr\u00e1tica de esportes. O estudo \u201cDesigualdades sociais por cor e ra\u00e7a no Brasil,\u201d de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), mostra que aspectos s\u00f3cio-econ\u00f4micos como a taxa de pobreza, desemprego, educa\u00e7\u00e3o, renda e moradia aparecem mais favor\u00e1veis \u00e0s pessoas brancas do que pessoas pretas ou pardas.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoas abaixo da linha da pobreza representam 32,9% da popula\u00e7\u00e3o preta ou parda, enquanto apenas 15,4% da popula\u00e7\u00e3o branca. J\u00e1 a pobreza extrema afeta 3,6% dos brancos e 8,8% dos pretos ou pardos no Brasil. Essa diferen\u00e7a gritante tamb\u00e9m aparece na representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, cargos gerenciais, analfabetismo e taxa de homic\u00eddios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a desigualdade aparece como dificuldade para praticar esportes de elite que exigem mais recursos financeiros, como automobilismo, golfe e hipismo. Portanto, quanto menos o esporte demanda para pratic\u00e1-lo, mais acess\u00edvel ele \u00e9. Essa raz\u00e3o explica o porqu\u00ea esportes de corrida s\u00e3o t\u00e3o populares na \u00c1frica \u2013 para al\u00e9m da quest\u00e3o gen\u00e9tica \u2013 e em outros pa\u00edses que t\u00eam presen\u00e7a de popula\u00e7\u00f5es de origem africana, como a Jamaica, refer\u00eancia no atletismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Racismo e Identifica\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Todas essas quest\u00f5es influenciam na escolha de uma modalidade, al\u00e9m da motiva\u00e7\u00e3o. Para Camila Rojas, 18 anos, atleta de futsal e futebol, sem a inspira\u00e7\u00e3o de pessoas pretas, ela n\u00e3o estaria no esporte. \u201cEntre as mulheres, foi a Formiga. Eu acho muito lindo a representatividade que os negros t\u00eam dentro do esporte. Inclusive, o Vini J\u00fanior, o Endrick. Eles me inspiram bastante\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"800\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4137.JPG-marcos-1024x800.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5067\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4137.JPG-marcos-1024x800.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4137.JPG-marcos-300x234.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4137.JPG-marcos-768x600.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4137.JPG-marcos-400x312.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4137.JPG-marcos.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Camila se sente pertencente ao esporte e pode ser ela mesma quando o pratica | Foto: Marcos Melo<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o dessas pessoas pretas no esporte \u00e9 o que as colocam em local de pertencimento. A ideia de que para existir uma identidade dentro de algo que se pratica, s\u00f3 faz sentido quando o lado emocional se liga ao racional, de forma que seja uma constru\u00e7\u00e3o de m\u00e3o dupla. \u201cD\u00e1 realmente um lugar de fala para as meninas e os meninos, n\u00e9? \u00c9 mostrar quem realmente s\u00e3o. O esporte, com certeza, muda vidas, transforma, traz autoestima. O esporte \u00e9 tudo,&#8221; argumenta Camila.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_3737.JPG-noysle-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5068\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_3737.JPG-noysle-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_3737.JPG-noysle-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_3737.JPG-noysle-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_3737.JPG-noysle-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_3737.JPG-noysle.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Camila treina desde os 11 anos | Foto: Noysle Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Essas dificuldades tamb\u00e9m influenciam na decis\u00e3o da pessoa preta em praticar um esporte ou n\u00e3o. O psic\u00f3logo do Oper\u00e1rio Futebol Clube e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Edilson Reis, o \u00fanico na \u00e1rea da psicologia esportiva em Campo Grande, afirma que a psicologia no esporte \u00e9 necess\u00e1ria n\u00e3o s\u00f3 para entender o emocional dos atletas quando em jogos, mas para promover a inclus\u00e3o social. A escalada para ser atleta em esportes que exigem mais do que a bola no p\u00e9, \u00e9 dif\u00edcil e ultrapassa a barreira do condicionamento f\u00edsico ou da habilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O futebol \u00e9 o esporte mais praticado no Brasil e \u00e9 uma paix\u00e3o nacional. Concentra o maior n\u00famero praticantes negros no pa\u00eds. Estudo da Escola de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica e Esporte da USP (EEFE) mostrou que, em 2023, aproximadamente 60% dos jogadores da S\u00e9rie A do Campeonato Brasileiro masculino eram negros. Por\u00e9m, essa propor\u00e7\u00e3o fica um pouco apagada quando se v\u00ea que esse ambiente tamb\u00e9m \u00e9 bastante afetado pelo preconceito racial, tanto dentro quanto fora de campo.<\/p>\n\n\n\n<p>O Levantamento do Observat\u00f3rio da Discrimina\u00e7\u00e3o Racial no Futebol da Fisia Com\u00e9rcio de Produtos Esportivos em parceria com a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol (CBF), revela que mais de 41% dos jogadores dos principais campeonatos do pa\u00eds j\u00e1 sofreram racismo. As ofensas v\u00e3o de \u201cpiadas\u201d \u00e0 ataques pessoais e ocorrem em sua maioria nos est\u00e1dios (53%), seguido pelas redes sociais (31%) e centros de treinamento (11%).<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo \u00e9 o epis\u00f3dio da torcedora do Gr\u00eamio, que desclassificou o time ga\u00facho da Copa do Brasil ao insultar Aranha &#8211; ent\u00e3o goleiro do Santos &#8211; em 2014. Torcedores e jogadores brasileiros sofrem manifesta\u00e7\u00f5es preconceituosas por parte dos sul-americanos nas competi\u00e7\u00f5es continentais, sobretudo na Argentina. Na Espanha, Vinic\u00edus J\u00fanior v\u00eam enfrentando persegui\u00e7\u00e3o e preconceito h\u00e1 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o racismo no esporte \u00e9 posto em pauta, o psicol\u00f3gico daquele que \u00e9 v\u00edtima \u00e9 colocado em jogo tamb\u00e9m. <span style=\"font-weight: 400\">\u201c\u00c9 um impacto pessoal. Ele deixa de ser visto como uma pessoa humana e \u00e9 objetificado. Voc\u00ea tira a identidade dessa pessoa. Ele deixa de existir. E isso \u00e9 traum\u00e1tico. N\u00e3o s\u00f3 na vida profissional, mas na vida pessoal dele\u201d<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, afirma o psic\u00f3logo.<\/span><\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><strong><span style=\"color: #ff0000\">\u00c9 um impacto pessoal. Ele deixa de ser visto como uma pessoa humana e \u00e9 objetificado. Voc\u00ea tira a identidade dessa pessoa. Ele deixa de existir. E isso \u00e9 traum\u00e1tico. N\u00e3o s\u00f3 na vida profissional, mas na vida pessoal dele<\/span><\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Para Camila, o esporte pode mostrar quem as pessoas s\u00e3o. Ela reconhece as dificuldades quando se \u00e9 uma atleta preta, mas n\u00e3o desanima. &#8220;A gente v\u00ea tanto racismo, tanto preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres e tamb\u00e9m ao povo negro. Nunca tive uma pessoa aqui para me apoiar, sempre fui eu por mim mesma. Mesmo assim, eu sinto que essa \u00e9 minha casa, sinto que \u00e9 o meu lugar&#8221;, afirma a jovem.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esporte de Clube<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto alguns esportes s\u00e3o mais democr\u00e1ticos, outros exigem mais para que possam ser praticados. \u201cBarreiras surgem j\u00e1 que muitos dos esportes s\u00e3o praticados em clubes, que exigem filia\u00e7\u00e3o. Essas filia\u00e7\u00f5es normalmente s\u00e3o caras. Quanto melhor a estrutura, mais gastos. O acesso \u00e0 esses espa\u00e7os \u00e9 bastante dificultado olhando pelo lado social\u201d, explica o professor Hugo Santana.<\/p>\n\n\n\n<p>Modalidades como a nata\u00e7\u00e3o e o t\u00eanis s\u00e3o cl\u00e1ssicos exemplos desse tipo de limita\u00e7\u00e3o imposta pelas necessidades de clubes. O v\u00f4lei, ainda que em menor escala, tamb\u00e9m entra nesse \u00e2mbito. Embora seja um dos esportes mais praticados no Brasil, sofre com uma sub-representatividade quando se olha para o lado racial. F\u00ea Garay, Wallace, Fof\u00e3o e Lucarelli aparecem como alguns dos poucos nomes de atletas pretos que j\u00e1 representaram as sele\u00e7\u00f5es de v\u00f4lei do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, o voleibol brasileiro, at\u00e9 os Jogos de Paris, em 2024, mostrava que 18 homens negros de um total de 98 &#8211; em 15 edi\u00e7\u00f5es &#8211; e 17 mulheres negras de 74 ao todo &#8211; em dez torneios &#8211; j\u00e1 disputaram as Olimp\u00edadas vestindo os uniformes amarelo e azul.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que baixa, essa representatividade \u00e9 importante para jovens da etnia que praticam o esporte e se inspiram nesses raros exemplos. Matheus Henrique, 17 anos, \u00e9 atleta da Escolinha Leomar de Voleibol e v\u00ea em Darlan Souza, destaque da sele\u00e7\u00e3o brasileira masculina, uma fonte de motiva\u00e7\u00e3o para a pr\u00e1tica esportiva. <span style=\"font-weight: 400\">\u201cA gente v\u00ea v\u00e1rias pessoas por a\u00ed cometendo pequenos delitos, na mesma idade que eu. Indo para caminho errado. O esporte ajuda muito. O recurso que eu achei foi aqui dentro, jogando, para ficar fora das ruas. E hoje eu me encontro aqui, treinando. E n\u00e3o pretendo sair t\u00e3o cedo\u201d<\/span><span style=\"font-weight: 400\">, conta o jovem atleta.<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"683\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_5003.CR2-noysle-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5070\" style=\"width:378px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_5003.CR2-noysle-683x1024.jpg 683w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_5003.CR2-noysle-200x300.jpg 200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_5003.CR2-noysle-768x1152.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_5003.CR2-noysle-400x600.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_5003.CR2-noysle.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Matheus conta que escolheu o v\u00f4lei, pois \u00e9 o esporte que mais se interessa e com o qual mais se identifica | Foto: Noysle Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\"><strong>A gente v\u00ea v\u00e1rias pessoas por a\u00ed cometendo pequenos delitos, na mesma idade que eu. Indo para caminho errado. O esporte ajuda muito. O recurso que eu achei foi aqui dentro, jogando, para ficar fora das ruas. E hoje eu me encontro aqui, treinando. E n\u00e3o pretendo sair t\u00e3o cedo<\/strong><\/span><\/h5>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"608\" data-id=\"5072\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4968.CR2-marcos-1024x608.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5072\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4968.CR2-marcos-1024x608.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4968.CR2-marcos-300x178.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4968.CR2-marcos-768x456.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4968.CR2-marcos-400x238.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4968.CR2-marcos.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Marcos Melo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" data-id=\"5073\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4976.CR2-noysle-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5073\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4976.CR2-noysle-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4976.CR2-noysle-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4976.CR2-noysle-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4976.CR2-noysle-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_4976.CR2-noysle.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Noysle Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">Matheus come\u00e7ou sua trajet\u00f3ria no v\u00f4lei aos 14 anos.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Matheus entrou no v\u00f4lei influenciado pelos amigos, que tamb\u00e9m praticavam o esporte. Ele relata que vem notando cada vez mais a presen\u00e7a de colegas negros nos treinos, assim como em outras equipes nos campeonatos que disputa. \u201cEu me identifico muito com o v\u00f4lei. \u00c0s vezes as pessoas tentam colocar a gente em um n\u00edvel abaixo por conta da nossa cor, ent\u00e3o, ver atletas como o Darlan e outros da minha cor jogando ao meu lado e contra mim me inspira e nutre esse carinho que eu sinto pelo esporte\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_5010.CR2-noysle-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5071\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_5010.CR2-noysle-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_5010.CR2-noysle-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_5010.CR2-noysle-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_5010.CR2-noysle-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/IMG_5010.CR2-noysle.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Matheus joga como oposto, mesma posi\u00e7\u00e3o do seu \u00eddolo Darlan | Foto: Noysle Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>A professora Marcela Lima, atleta e t\u00e9cnica de v\u00f4lei na escolinha de Matheus, como mulher preta, refor\u00e7a esse sentimento no seu modo de ensinar. \u201cTem todo um contexto social, ent\u00e3o desde que eu entrei aqui, coloquei na cabe\u00e7a dos meninos que isso aqui \u00e9 uma fam\u00edlia, n\u00e3o uma simples equipe. \u00c9 um pelo outro. Aqui eu sei que eles se sentem bem agregados, s\u00e3o muito unidos\u201d, enfatiza a professora.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4988.CR2-noysle-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5069\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4988.CR2-noysle-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4988.CR2-noysle-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4988.CR2-noysle-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4988.CR2-noysle-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MG_4988.CR2-noysle.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Marcela conta que os meninos se inspiram nos atletas negros da sele\u00e7\u00e3o e buscam ser iguais a eles, querem desenvolver impuls\u00e3o, ataque e for\u00e7a | Foto: Noysle Carvalho<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>O que para alguns \u00e9 visto como lazer, para outros o esporte \u00e9 quest\u00e3o de oportunidades e que n\u00e3o s\u00e3o oferecidas a todos. \u201cN\u00f3s sabemos que temos v\u00e1rios talentos aqui, que muitas vezes v\u00eam da periferia, dos bairros, de cidades pequenas do interior. Muitas vezes s\u00e3o negros, s\u00e3o pardos, s\u00e3o ind\u00edgenas, s\u00e3o filhos de trabalhadores rurais que n\u00e3o t\u00eam essa oportunidade\u201d, acrescenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Marcela explica que, no esporte, \u00e9 preciso entender e respeitar as diferen\u00e7as de cada um, deixando de lado estere\u00f3tipos, como os que falam que aqueles que jogam v\u00f4lei s\u00e3o gays, ou que a modalidade \u00e9 exclusiva para brancos. Desta forma, as crian\u00e7as e adolescentes que ingressam nesse mundo podem se sentir acolhidas e construir uma identifica\u00e7\u00e3o, e lembrar que o esporte \u00e9 lugar de pertencimento para todos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-104\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 104<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo da hist\u00f3ria, pessoas pretas tiveram que lutar para ter seu espa\u00e7o no esporte e construir uma identifica\u00e7\u00e3o com cada modalidade enfrentando quest\u00f5es sociais, gen\u00e9ticas e econ\u00f4micas Texto: Marcos Melo | Noysle Carvalho A presen\u00e7a de atletas pretos no esporte ganha proje\u00e7\u00e3o na Alemanha nazista comandada por Hitler em 1936, nas Olimp\u00edadas daquele ano. 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