{"id":4982,"date":"2025-07-10T16:24:10","date_gmt":"2025-07-10T20:24:10","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4982"},"modified":"2025-07-10T16:24:10","modified_gmt":"2025-07-10T20:24:10","slug":"aquilombei","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/aquilombei\/","title":{"rendered":"Aquilombei"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><mark style=\"background-color:#000000\" class=\"has-inline-color has-accent-color\">Texto e Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"mailto:noysle.c@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:noysle.c@ufms.br\">Noysle Carvalho<\/a><\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>Noite de ter\u00e7a, os sentimentos \u00e0 flor da pele, o cansa\u00e7o e a exaust\u00e3o me dominam. Normalmente, as ter\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o cansativas, mas as semanas t\u00eam sido cheias. Ontem, coloquei para fora a falta de criatividade &#8211; e a ansiedade junto dela &#8211; que senti. Para os meus amigos, a desculpa era a press\u00e3o das muitas coisas para fazer. Me indicaram sentar, tomar um vinho, encontrar meios de relaxar e que isso resolveria o meu bloqueio criativo. Sendo sincera, n\u00e3o se trata de bloqueio. Adiantei meus outros compromissos, para ganhar tempo. Pensei e repensei se tinha mesmo a coragem de abordar o tema, adiei o quanto pude.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma sala n\u00e3o t\u00e3o cheia, mas n\u00e3o t\u00e3o vazia, peguei o notebook pela quarta vez. Confusa, a cabe\u00e7a a mil, me questionei qual era o problema. A verdade \u00e9 que esse receio todo faz parte do medo. O medo de me expor, me escancarar, levar para fora de mim uma parte que eu mesma (re)conheci h\u00e1 pouco tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevo, apago e reescrevo. Uma, outra, diversas vezes. Quase como se pisasse em ovos para falar de algo que deveria ser natural. N\u00e3o consigo por em palavras. Um passo para frente, dois para tr\u00e1s. Tento relembrar os momentos que me remetem \u00e0 quest\u00e3o inicial. Algum detalhe que ajude. Quem sabe ao menos a diminuir o medo. S\u00f3 consigo fazer uma \u00fanica pergunta, talvez a mais dif\u00edcil: quando eu me entendi preta? A minha certid\u00e3o diz: parda. O que ser parda significa? Sempre achei, e tamb\u00e9m me falaram, que era porque meu pai \u00e9 branco e a minha m\u00e3e \u00e9 preta.<br>Branco + preto = pardo?<\/p>\n\n\n\n<p>Me lembro bem, quando fiz essa pergunta para ela. Minha m\u00e3e, mulher de pele mais escura que a minha, me surpreendeu com uma resposta diferente da que eu esperava. Na ponta da l\u00edngua: \u201cNa certid\u00e3o sou parda\u201d. Desfiz meu arco de convic\u00e7\u00f5es e ali, naquele instante, meus olhos se abriram para uma verdade diferente da minha. Como era poss\u00edvel? N\u00e3o que ser parda fosse um problema, mas porqu\u00ea, ela, uma mulher de pele quase retinta, se diria parda apenas por um documento? Uma nova pergunta gritou nos meus ouvidos: qual o valor desse papel diante do sentimento de identifica\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Vou mais afundo na lembran\u00e7a. Recordo do tempo de crian\u00e7a, em que me sentia suja perto das meninas de pele mais clara. Lavava o cabelo com frequ\u00eancia, finalizava o cabelo, que na \u00e9poca era longo, com gel dos mais consistentes, na tentativa de diminuir o volume e mant\u00ea-lo baixo. Ter ao menos algo pr\u00f3ximo ou parecido daquelas que pertenciam ao grupo que um dia ouvi ser o meu.<\/p>\n\n\n\n<p>Recorto partes que a mem\u00f3ria j\u00e1 n\u00e3o suportou armazenar, mas n\u00e3o consigo lembrar o exato momento que entendi: \u201csou preta!\u201d. Como poderia? Cabelo cacheado. Nariz nem grande, nem pequeno. L\u00e1bios inchados s\u00f3 quando acordava e depois de tamanho \u201cnormal\u201d. A pele ent\u00e3o, me chamavam de morena a vida toda. Morena sou. Marrom? S\u00f3 se for nos tons mais clarinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9, me dou conta agora, que n\u00e3o me sentia pertencente. N\u00e3o d\u00e1 pra ter nada fora do lugar. Se o cabelo n\u00e3o tem volume suficiente? Falsa negra. Sem l\u00e1bios carnudos? Falsa negra. Branca? Com certeza n\u00e3o branca, ali\u00e1s termo bom de se usar, n\u00e3o-branca. Negra de pele clara?<\/p>\n\n\n\n<p>No m\u00ednimo curioso, algo t\u00e3o banal significar tanto. S\u00f3 que quando penso em um lugar no mundo, o autoconhecimento parece ponto chave. Como validar esse meu lugar? Como definir a que grupo perten\u00e7o, sem saber reafirmar minha exist\u00eancia? Uma vida buscando-me em outras que s\u00e3o t\u00e3o distantes do que vejo no espelho. For\u00e7ar finaliza\u00e7\u00f5es, usar roupas, me fazer caber em estere\u00f3tipos, por mais que eu tente. N\u00e3o me representam.<\/p>\n\n\n\n<p>Inc\u00f4modo. Um sentimento que n\u00e3o \u00e9 ruim e n\u00e3o \u00e9 confort\u00e1vel, isso \u00e9 fato. Inc\u00f4modo me faz crescer, me faz querer e buscar entender. Talvez eu seja grata por ele. Quando a mente n\u00e3o cala e o peito n\u00e3o se aquieta, algu\u00e9m precisa fazer alguma coisa. Com ele, me afirmei negra. Me reconheci. Aquilombei. Resisti negra. Percebi a for\u00e7a de uma singularidade plural, pude ter consci\u00eancia de mim mesma. Meu ser. Meu pertencer. Meu grupo.<\/p>\n\n\n\n<p>Reconhecer-se tem muita for\u00e7a. O receio de virar-me do avesso deu lugar \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de quem sou. Nasci negra, sou negra e vivo negra. Vou morrer negra.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"500\" height=\"647\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracaonoysle-online.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4985\" style=\"width:610px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracaonoysle-online.jpg 500w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracaonoysle-online-232x300.jpg 232w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/ilustracaonoysle-online-400x518.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-104\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 104<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto e Ilustra\u00e7\u00e3o: Noysle Carvalho Noite de ter\u00e7a, os sentimentos \u00e0 flor da pele, o cansa\u00e7o e a exaust\u00e3o me dominam. 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