{"id":499,"date":"2020-07-15T14:47:16","date_gmt":"2020-07-15T18:47:16","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=499"},"modified":"2020-07-29T10:38:57","modified_gmt":"2020-07-29T14:38:57","slug":"uniao-atraves-da-musica-sertaneja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/uniao-atraves-da-musica-sertaneja\/","title":{"rendered":"Uni\u00e3o atrav\u00e9s da m\u00fasica sertaneja"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center wp-block-heading\"><em>A cultura sertaneja e a m\u00fasica entrela\u00e7ando fam\u00edlias distintas, o gosto musical e os legados como ponte para uma comunidade.<\/em><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-text-align-center has-accent-color\"><strong>Texto: Denize Rocha e Nath\u00e1lia Alc\u00e2ntara<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-603\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-5.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-5-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-5-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-5-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>A boa moda de viola nunca vai faltar nos encontros<br>Foto: Grasiele Roldan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Com identidades \u00fanicas de costumes e valores, as m\u00fasicas sertanejas permeiam os churrascos em fam\u00edlia, as rodas de viola, o deitar de um pe\u00e3o, o ensinar da lida no campo, e mesmo com as peculiaridades de cada pessoa ou grupo, contribuem para forjar os elos que unem comunidades pelo interior do pa\u00eds. A m\u00fasica cria uma liga\u00e7\u00e3o entre pessoas, que n\u00e3o precisam estar juntos fisicamente, mas que partilham das mesmas a\u00e7\u00f5es e viv\u00eancias e esse partilhar conecta uma pessoa \u00e0 outra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao cantar a vida no campo e a for\u00e7a das pessoas que nele trabalham a m\u00fasica sertaneja, e mais especificamente aquilo que \u00e9 chamado de \u2018sertanejo ra\u00edz\u2019 retrata essas lidas e o sentimento pela uni\u00e3o que vem de gera\u00e7\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es. E nesse sentido, ela \u00e9 muito diferente do sertanejo universit\u00e1rio, que prioriza a modernidade e o amor.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mato Grosso do Sul e o sertanejo&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mato Grosso do Sul \u00e9 rico em aspectos da cultura sertaneja, seja pelo fato de grandes nomes dos vieses raiz e universit\u00e1rio terem nascido ou viverem no estado ou em fun\u00e7\u00e3o do hist\u00f3rico de atividades ligadas \u00e0 pecu\u00e1ria e agricultura. Os valores da m\u00fasica caipira aqui se enraizaram, e isso influenciou na trajet\u00f3ria das fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA cumplicidade e o amor que as fam\u00edlias t\u00eam pelas hist\u00f3rias das gera\u00e7\u00f5es anteriores \u00e9 para mim o que forma o elo dessa cultura, porque esse amor ele \u00e9 perpetuado. Ele nos ensina e \u00e9 o que faz manter tudo isso\u201d, diz a estudante de Medicina Veterin\u00e1ria Rafaela Straliotto Weis, 20, natural de Nioaque, que cresceu na lida do campo dentro da fazenda S\u00e3o Sebasti\u00e3o, juntamente com sua fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"607\" height=\"800\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO1-larg256x178.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-604\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO1-larg256x178.jpg 607w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO1-larg256x178-228x300.jpg 228w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO1-larg256x178-400x527.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 607px) 100vw, 607px\" \/><figcaption>Foto: Acervo de Geovana Straliotto<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Ela conta que desde a inf\u00e2ncia os pais e av\u00f3s costumavam se reunir para ouvir as m\u00fasicas sertanejas em encontros, e churrascos. \u201cA gente \u00e9 acostumada a ouvir m\u00fasica. Meu pai gosta muito dessas m\u00fasicas sertanejas. Fica ouvindo e lembrando como foi a inf\u00e2ncia dele. \u00c9 algo que desde pequena esteve muito presente, a m\u00fasica raiz\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo tendo deixado a vida no campo para se dedicar \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o, no dia-a-dia sempre recorda de onde veio, de como ama e considera boa a vida na fazenda, e quando pode sempre volta. E n\u00e3o abre m\u00e3o de participar das reuni\u00f5es em fam\u00edlia, com muita m\u00fasica, comida e dan\u00e7a. \u201cPois sempre que eu estou l\u00e1 parece que minhas for\u00e7as s\u00e3o renovadas para continuar a vida aqui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A estudante relata que ficar longe da fam\u00edlia e da vida no campo \u00e9 muito dif\u00edcil. \u201cA adapta\u00e7\u00e3o foi um pouco dif\u00edcil, mas eu j\u00e1 me acostumei. Sinto falta da vida no campo, l\u00e1 a vida \u00e9 muito saud\u00e1vel. E eu sinto falta dos meus pais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Saudade de casa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A saudade de casa \u00e9 um sentimento de muitos jovens que como Rafaela, saem do campo para morar na cidade. Essa mesma viv\u00eancia \u00e9 compartilhada pela estudante de Direito, Eduarda de Paula, 21. A moda de viola, o arroz carreteiro e o acorde\u00e3o do av\u00f4 s\u00e3o para ela lembran\u00e7as importantes que carrega consigo mesmo depois de ter sa\u00eddo da ro\u00e7a. Por isso n\u00e3o abre m\u00e3o de participar das reuni\u00f5es em fam\u00edlia que, assim como no caso de Rafaela, s\u00e3o acompanhadas de cantorias, pratos t\u00edpicos e festa, comuns nas fam\u00edlias.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Ela diz que desde pequena o contato com os av\u00f3s maternos foi de grande valia para sua paix\u00e3o com a m\u00fasica. \u201cDesde que me conhe\u00e7o por gente, meu av\u00f4 nunca foi de cantar, mas ele sempre escutou muita m\u00fasica sertaneja, ent\u00e3o eu sempre acompanhei\u201d. Aos seis anos de idade ela ganhou um viol\u00e3o e relembra que mesmo sendo muito nova, colocava um DVD e ficava em frente \u00e0 TV tocando e \u2018bagun\u00e7ando\u2019.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMeus pais come\u00e7aram a ver que eu tinha talento. Eles me pediam pra cantar e tocar, me apoiando e me ensinando algo que faltava, porque eu n\u00e3o tinha muita experi\u00eancia. Esse \u00e9 o momento que me marca, o apoio. E eu nunca mais parei de tocar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, Eduarda toca em festas onde seus familiares est\u00e3o reunidos, na beira do rio, ou em suas pescas. Conta tamb\u00e9m que, al\u00e9m da m\u00fasica, a culin\u00e1ria que aprendeu com sua fam\u00edlia \u00e9 algo que lhe marca. \u201cQuando eu aprendi a fazer o arroz carreteiro, participar e aprender, saber fazer \u00e9 muito bacana. S\u00e3o comidas tradicionais, s\u00e3o receitas passadas de pai pra filho, e se um dia faltar o homem que faz carreteiro eu posso fazer, porque eu sei, eu aprendi! Isso \u00e9 muito marcante\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Eduarda conta que as festas em fam\u00edlia n\u00e3o s\u00e3o as mesmas sem uma boa m\u00fasica sertaneja, e que quando falta o som, algu\u00e9m sempre encontra um jeito de tocar. \u201cTem que ter sim a m\u00fasica, tem que ter roda de conversa, tem que ter dan\u00e7a porque um complementa o outro. Para que a tradi\u00e7\u00e3o permane\u00e7a forte, depende de tudo isso junto. Se a gente est\u00e1 reunido e&nbsp; falta a m\u00fasica, ai j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa. Algu\u00e9m pega o viol\u00e3o, j\u00e1 muda\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-607\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-2.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-2-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-2-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-2-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Eduarda cultiva o legado da fam\u00edlia<br>Foto: Fl\u00e1vio Feitosa<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><strong>Legado familiar<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As tradi\u00e7\u00f5es familiares d\u00e3o a sensa\u00e7\u00e3o de pertencimento, do legado que est\u00e1 sendo deixado. \u201cS\u00e3o os mesmos gostos, est\u00e3o ali por uma mesma causa que \u00e9 continuar com essa cultura. S\u00e3o gratos quando ensinam algo e a gente, os mais novos, correspondemos, porque n\u00e3o se torna algo perdido. Quando t\u00eam essas rodas a m\u00fasica est\u00e1 muito presente, os gostos s\u00e3o os mesmos, o que faz n\u00e3o ter nenhuma barreira. Realmente \u00e9 o sertanejo, a cultura, o prazer de estarem reunidos, em fam\u00edlia, levando isso de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 comunit\u00e1rio\u201d, diz Eduarda.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Rafaela n\u00e3o \u00e9 diferente. \u201cDesde sempre meus av\u00f3s nos ensinam o que \u00e9 mantido nas gera\u00e7\u00f5es, e o exemplo do que \u00e9 mantido, de como as coisas devem ser feitas. Essa \u00e9 a forma que eles passam para gente. N\u00f3s aprendemos e carregamos conosco esses aprendizados no dia a dia\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente a m\u00fasica caipira n\u00e3o est\u00e1 mais no cen\u00e1rio da m\u00fasica, pois quase n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o na m\u00eddia, que visa lucrar. Mas a m\u00fasica sertaneja raiz ultrapassa obst\u00e1culos e sempre atrai novas pessoas. Mesmo com o espa\u00e7o reduzido n\u00e3o deixa de trazer sentimentos e se mant\u00e9m viva devido as tradi\u00e7\u00f5es familiares e ao pertencimento a uma comunidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O que chama aten\u00e7\u00e3o dentro da cultura sertaneja s\u00e3o as tradi\u00e7\u00f5es mantidas, que todos carregam, destaca Eduarda. \u201cPode passar quantos anos for, ningu\u00e9m esquece. Onde voc\u00ea chega as pessoas param para ouvir. Podem nem gostar de sertanejo mas quando algu\u00e9m chega e tira o viol\u00e3o e canta alguma moda, as pessoas param para ver e ouvir, e isso me chama aten\u00e7\u00e3o. Apesar de tudo evoluir no mundo, a cultura sertaneja ainda est\u00e1 presente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso sempre foi feito com muita m\u00fasica sertaneja e quem convive com a saudade de um ente querido, do campo ou das mem\u00f3rias que ali fizeram, utiliza da m\u00fasica para voltar no tempo, e numa fra\u00e7\u00e3o de minutos sentir seus la\u00e7os renovados.<\/p>\n\n\n\n<p>Isaias Greg\u00f3rio, 44, atualmente barbeiro na cidade de Campo Grande (MS), dono de uma trajet\u00f3ria como vaqueiro, conta como era trabalhar em uma fazenda la\u00e7ando animais que necessitavam\u00a0 de medicamentos. Ele explica que aprendeu a la\u00e7ar por necessidade do pr\u00f3prio trabalho, e que se apaixonou pela atividade de la\u00e7ador. Mas precisou abandon\u00e1-la devido a uma leucemia, que o impede de se expor ao sol. \u201cEu me lembro da minha m\u00e3e trabalhando na ro\u00e7a, carregando balaio de milho, quebrando milho, cortando arroz junto com meu pai, eu, meus irm\u00e3os. Eu apartando as leiteiras, pegando os bezerros\u2026 Isso \u00e9 marcante. Eu tenho saudade. Me lembro da minha m\u00e3e fazendo valeta no pasto. Eu me lembro muito disso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isaias destaca a import\u00e2ncia da m\u00fasica. \u201cA m\u00fasica sertaneja \u00e9 maravilhosa para um sertanejo. A m\u00fasica \u00e9 tudo\u201d. Nela alguns instrumentos s\u00e3o caracteristicos. A gaita de sopro, a sanfona, a viola e o berrante entre outros, s\u00e3o simbolos da cultura caipira, conhecida como \u2018sertanejo raiz\u2019. As m\u00fasicas causam nas pessoas. As melodias s\u00e3o destinadas a trazer saudade, e as letras s\u00e3o cantadas por pessoas com hist\u00f3rias diversas que acabam promovendo a identifica\u00e7\u00e3o por meio do g\u00eanero musical, e assim formando os elos e grupos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A m\u00fasica raiz e o homem no campo&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica sertaneja faz parte de um cen\u00e1rio musical rico, cheio de simbologias que se refere aos costumes, \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e a identidade do povo do campo. S\u00e3o can\u00e7\u00f5es compostas e cantadas por pessoas que tiveram que ir para a cidade por necessidade, ou at\u00e9 mesmo pessoas que venderam suas terras ou foram expulsas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-606\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-3.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-3-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-3-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/FOTO-3-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption>Cavalgar \u00e9 a paix\u00e3o de Isa\u00edas<br>Foto: Acervo de Isa\u00edas Greg\u00f3rio<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 faixa et\u00e1ria para apreciar a m\u00fasica sertaneja raiz, nem que defina o amor por ela. \u201cO sertanejo passa despercebido com um chap\u00e9u diferente e simples. \u00c9 humilde. Ele traz debaixo da unha a terra vermelha que ele lavrou, traz na pele a marca do sol. Olha a palma da m\u00e3o e tem calo, de lavrar e capinar. S\u00e3o essas as especificidades e particularidades de um povo sertanejo\u201d, diz Isa\u00edas.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das caracter\u00edsticas marcantes da can\u00e7\u00f5es sertanejas s\u00e3o suas letras, carregadas de hist\u00f3rias das comunidades, como canta S\u00e9rgio Reis:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuase chorando embu\u00eddo nesta m\u00e1goa<br>Rabisquei estas palavras e saiu esta can\u00e7\u00e3o<br>Can\u00e7\u00e3o que fala da saudade das pousadas<br>Que j\u00e1 fiz com a peonada junto ao fogo de um galp\u00e3o\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>ou Daniel:<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPoeira da estrada s\u00f3 resta saudade<br>Poeira na cidade \u00e9 a polui\u00e7\u00e3o<br>N\u00e3o se v\u00ea vaqueiros tocando boiada<br>Trocaram o cavalo pelo caminh\u00e3o<br>E quando me bate saudade do campo<br>Pego a viola e canto a minha solid\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltada \u00e0 popula\u00e7\u00e3o mais simples, as letras s\u00e3o cheias de dor, sofrimento e tamb\u00e9m retratam a beleza da vida no campo, da lida di\u00e1ria, da saudade de casa. S\u00e3o letras rom\u00e2nticas, engra\u00e7adas que mostram as diferen\u00e7as do homem do campo para o da cidade. S\u00e3o duelos, causos, par\u00f3dias, hist\u00f3rias e acontecimentos. Tais can\u00e7\u00f5es mostram a cumplicidade e a amizade que nasce no lombo do cavalo, ao se estender por longos dias na comitiva. Falam da invernada e do barulho da trovoada, sobre perder um parceiro no acidente de uma boiada que estoura, enterrar um amigo que tocava o berrante, se despedir da fam\u00edlia sem saber o que os espera. \u00c9 uma picada de cobra, uma on\u00e7a que cruza o caminho, \u00e9 a incerteza de n\u00e3o voltar para casa.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo disso \u00e9 a travessia do gado nas comitivas, retratada pelo jornalista e compositor Dener Dias, 34. Ele \u00e9 autor de \u2018Poeira branca\u2019, uma can\u00e7\u00e3o sobre a lida de um vaqueiro e de um pe\u00e3o de comitiva. Dias relata que nunca comp\u00f4s at\u00e9 participar de uma comitiva, onde sentiu-se t\u00e3o motivado pelo ambiente, que passou a compor. \u201cFoi minha primeira m\u00fasica. Tamanha era a inspira\u00e7\u00e3o daquela viv\u00eancia como pe\u00e3o de comitiva no pantanal, que nasceu \u2018Poeira branca\u2019, com versos como \u2018Abra a porteira, nossa comitiva vai passar! Dez mil cascos levantam poeira branca\u2019\u201d.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"450\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/sertanejo-6.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-605\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/sertanejo-6.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/sertanejo-6-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/sertanejo-6-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption>Dener acompanhou a vida dos pe\u00f5es de comitiva<br>Foto: Dener Dias<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Uma estrat\u00e9gia usada pelos pe\u00f5es para passar os dias enquanto tocavam o gado era relembrar uma boa moda de viola. Mesmo sem o instrumento eles n\u00e3o deixavam de cantar. \u201cN\u00e3o tinha viol\u00e3o, a gente estava ao redor do gado. Ficava cuidando o gado o dia todo. A\u00ed a cabe\u00e7a come\u00e7a a divagar, e quase sempre vai pra algum verso de m\u00fasica sertaneja. Ao passar dos dias as modas se repetiam. Eu pensava bastante em uma m\u00fasica, \u2018Travessia do Araguaia\u2019, de Ti\u00e3o Carreiro e Pardinho\u201d, relembra Dener.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ele, a m\u00fasica, a comida e as tradi\u00e7\u00f5es do povo sertanejo influenciam na forma\u00e7\u00e3o dos elos comunit\u00e1rios. \u201cO campo em si, a vontade de estar l\u00e1, m\u00fasica raiz, o que faz o rural ser o rural. Essa \u00e9 a liga\u00e7\u00e3o do homem ao campo\u201d. Todas essas viv\u00eancias levam a conex\u00e3o entre as pessoas. Tudo isso s\u00e3o caracteriza\u00e7\u00f5es em comum de uma comunidade que usa a m\u00fasica sertaneja para manter esses h\u00e1bitos e repass\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/ed-94\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 94<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A cultura sertaneja e a m\u00fasica entrela\u00e7ando fam\u00edlias distintas, o gosto musical e os legados como ponte para uma comunidade. Texto: Denize Rocha e Nath\u00e1lia Alc\u00e2ntara Com identidades \u00fanicas de costumes e valores, as m\u00fasicas sertanejas permeiam os churrascos em fam\u00edlia, as rodas de viola, o deitar de um pe\u00e3o, o ensinar da lida no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14],"tags":[10],"class_list":["post-499","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagem-94","tag-10"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=499"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/499\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":843,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/499\/revisions\/843"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}