{"id":4992,"date":"2025-07-10T16:24:26","date_gmt":"2025-07-10T20:24:26","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=4992"},"modified":"2025-07-10T16:24:26","modified_gmt":"2025-07-10T20:24:26","slug":"alem-dos-rotulos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/alem-dos-rotulos\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m dos r\u00f3tulos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-6a11fe86362c2d28a5dd36d7648a7ecf\"><strong>Texto: <a href=\"mailto:gabrielle_lima@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:gabrielle_lima@ufms.br\">Emelin Gabrielle<\/a> | <a href=\"mailto:sanny.duarte@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:sanny.duarte@ufms.br\">Sanny Duarte<\/a><br>Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"mailto:leticia.furtado@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:leticia.furtado@ufms.br\">Let\u00edcia Furtado<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-default\" \/>\n\n\n\n<p>No supermercado da vida, algumas pessoas circulam com etiquetas invis\u00edveis. Elas n\u00e3o brilham, n\u00e3o apitam, mas s\u00e3o percebidas imediatamente. Est\u00e3o coladas nos gestos, nos modos, no olhar que os outros lan\u00e7am. \u201cCoitado\u201d, \u201cespecial\u201d, \u201cguerreiro\u201d. Para quem tem defici\u00eancia, o r\u00f3tulo costuma vir antes mesmo da fala e, muitas vezes, impede at\u00e9 que a conversa aconte\u00e7a de verdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ana, usu\u00e1ria de cadeira de rodas, n\u00e3o pode denunciar falhas no transporte p\u00fablico sem ser acusada de ingratid\u00e3o. Afinal, \u201colha quanto j\u00e1 avan\u00e7amos!\u201d Oscar, deficiente visual, que vai trabalhar sozinho todos os dias, \u00e9 parabenizado por atravessar a rua, como se isso fosse um feito extraordin\u00e1rio. Beatriz, que tem Transtorno do Espectro Autista (TEA), prefere o sil\u00eancio aos abra\u00e7os, quase que por um s\u00edmbolo de pureza, como se sua recusa a intera\u00e7\u00f5es sociais fosse algo a ser romantizado. Muitas vezes, a interpreta\u00e7\u00e3o equivocada, mas aparentemente compassiva, transforma indiv\u00edduos em figuras de for\u00e7a ou fraqueza, ignorando sua hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Em comum, essas pessoas enfrentam n\u00e3o apenas os desafios concretos da acessibilidade, mas o peso simb\u00f3lico de representarem mais do que s\u00e3o. Her\u00f3is ou v\u00edtimas, quase nunca apenas cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"950\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/23.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4994\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/23.jpg 950w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/23-285x300.jpg 285w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/23-768x808.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/23-400x421.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 950px) 100vw, 950px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o distorcida revela uma forma de preconceito ainda pouco discutida, mas muito presente no nosso dia a dia, o capacitismo. O termo designa atitudes, pr\u00e1ticas e estruturas sociais que subestimam, desvalorizam ou infantilizam pessoas com defici\u00eancia (PcD). Diferentemente de preconceitos mais escancarados, o capacitismo costuma agir de forma sutil, embutido em elogios for\u00e7ados, surpresas desproporcionais e sil\u00eancios constrangedores quando pessoas com defici\u00eancia ocupam posi\u00e7\u00f5es de autonomia, lideran\u00e7a ou protagonismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 apenas nas barreiras f\u00edsicas, ainda que elas existam em abund\u00e2ncia, mas na insist\u00eancia em associar a defici\u00eancia a um enredo pr\u00e9-determinado. O mito da supera\u00e7\u00e3o, por exemplo, transforma a vida cotidiana em espet\u00e1culo. A simples presen\u00e7a de algu\u00e9m com defici\u00eancia em um ambiente comum \u00e9 tratada como inspiradora, ignorando que, para muitas dessas pessoas, o desafio real n\u00e3o \u00e9 sua condi\u00e7\u00e3o, mas a estrutura social que n\u00e3o as inclui plenamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse tipo de olhar n\u00e3o \u00e9 elogioso. \u00c9 limitador. Ele impede que se veja a pessoa em sua totalidade, com seus desejos, falhas, rotinas, talentos e escolhas. Ao reduzi-la a um estere\u00f3tipo, o r\u00f3tulo esvazia sua identidade e refor\u00e7a a desigualdade. E quando esse olhar se repete na escola, na empresa, na televis\u00e3o, nas redes sociais, torna-se um filtro que at\u00e9 quem tem defici\u00eancia passa a usar para se enxergar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que a inclus\u00e3o por obriga\u00e7\u00e3o, a necessidade \u00e9 de conviv\u00eancia com responsabilidade. \u00c9 essencial reconhecer que pessoas com defici\u00eancia est\u00e3o sujeitas a direitos e n\u00e3o a personagens estereotipados. Que sua presen\u00e7a em espa\u00e7os de decis\u00e3o, cultura, lazer ou poder n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o, mas parte do que deveria acontecer naturalmente. Representatividade importa n\u00e3o apenas para corrigir uma injusti\u00e7a hist\u00f3rica, mas para pluralizar os modos de existir e diminuir o preconceito. Quanto mais corpos diversos ocupam os espa\u00e7os p\u00fablicos, menos espa\u00e7o sobra para o desconhecido e, portanto, para o mito.<\/p>\n\n\n\n<p>A autoestima de uma pessoa \u00e9 bagun\u00e7ada ao ser rotulada. O sentimento de inferioridade se torna consequ\u00eancia desse r\u00f3tulo imposto. Provar o seu real valor, pode se tornar quase que uma obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O respeito genu\u00edno passa pela escuta ativa, pela cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas e pela revis\u00e3o de pr\u00e1ticas cotidianas que, muitas vezes, excluem sem perceber ou provocam uma inclus\u00e3o for\u00e7ada e romantizada. Passa, sobretudo, pelo abandono do olhar reducionista que insiste em rotular o outro para se sentir confort\u00e1vel. O respeito permite que cada indiv\u00edduo se sinta bem, sem nenhum tipo de etiqueta.<\/p>\n\n\n\n<p>Ningu\u00e9m deveria precisar ser her\u00f3i para ser respeitado. Nem provar nada para ser visto. Gente \u00e9 gente sem precisar de r\u00f3tulo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-104\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 104<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Emelin Gabrielle | Sanny DuarteIlustra\u00e7\u00e3o: Let\u00edcia Furtado No supermercado da vida, algumas pessoas circulam com etiquetas invis\u00edveis. Elas n\u00e3o brilham, n\u00e3o apitam, mas s\u00e3o percebidas imediatamente. Est\u00e3o coladas nos gestos, nos modos, no olhar que os outros lan\u00e7am. \u201cCoitado\u201d, \u201cespecial\u201d, \u201cguerreiro\u201d. Para quem tem defici\u00eancia, o r\u00f3tulo costuma vir antes mesmo da fala e, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[40],"tags":[],"class_list":["post-4992","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao104"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4992","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4992"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4992\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5340,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4992\/revisions\/5340"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4992"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4992"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4992"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}