{"id":5050,"date":"2025-07-10T16:19:30","date_gmt":"2025-07-10T20:19:30","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5050"},"modified":"2025-07-16T21:31:59","modified_gmt":"2025-07-17T01:31:59","slug":"prostituicao-alem-das-ruas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/prostituicao-alem-das-ruas\/","title":{"rendered":"Prostitui\u00e7\u00e3o al\u00e9m das ruas"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">De Maria Madalena \u00e0s garotas do job, elas ainda buscam seu lugar na sociedade<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-5d68f5b954768950d806b26f8e544df6\"><strong>Texto: <a href=\"mailto:rafaela.mendes@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:rafaela.mendes@ufms.br\">Rafaela Palieraqui<\/a> | <a href=\"mailto:gyovana.m.santos@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:gyovana.m.santos@ufms.br\">Gyovana Marinho<\/a><br>Fotos e ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"mailto:rafaela.mendes@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:rafaela.mendes@ufms.br\">Rafaela Palieraqui<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-default\" \/>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Na fic\u00e7\u00e3o ou na vida real, as prostitutas sempre fizeram parte da hist\u00f3ria da humanidade. Hilda Furac\u00e3o, Bruna Surfistinha, Anora. Independente da trama ou do contexto social, todas t\u00eam algo em comum: seus corpos t\u00eam um pre\u00e7o. \u00c9 uma das profiss\u00f5es mais antigas do mundo. Desde Maria Madalena, \u00e0s gueixas e \u00e0s bailarinas da \u00f3pera de Paris, mulheres de diversas idades trabalham oferecendo seus corpos \u00e0 aten\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"400\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MULHER-CMYK.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5314\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MULHER-CMYK.png 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MULHER-CMYK-300x200.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/MULHER-CMYK-400x267.png 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O termo \u201cprostitui\u00e7\u00e3o\u201d tem origem no latim <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">prostituere<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, que significa &#8220;colocar-se \u00e0 frente&#8221;, em exposi\u00e7\u00e3o. Desde as civiliza\u00e7\u00f5es sum\u00e9rias, gregas e romanas j\u00e1 havia registro dessa pr\u00e1tica. Na Gr\u00e9cia Antiga, mulheres podiam ser escravizadas como prostitutas, enquanto em Roma, casas de prostitui\u00e7\u00e3o eram comuns e regulamentadas e as trabalhadoras viam sua fun\u00e7\u00e3o como uma oportunidade de expressar suas paix\u00f5es sexuais a servi\u00e7o de deuses. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com o avan\u00e7o do cristianismo, no entanto, a moral religiosa imp\u00f4s \u00e0 sexualidade feminina uma repress\u00e3o intensa. Na B\u00edblia, cap\u00edtulo 7, do Evangelho de Lucas, \u00e9 narrada a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o de uma pecadora, uma prostituta, que muitos acreditam ser Maria Madalena e que Jesus perdoou. A mensagem de desagrado e pecado relacionado \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o, causou danos \u00e0s mulheres que viviam desse of\u00edcio, j\u00e1 que agora sofriam cr\u00edticas e viol\u00eancia, por serem consideradas impuras, sujas e pecadoras.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Guilherme Passamani, professor da UFMS e doutor em Ci\u00eancias Sociais na \u00e1rea de Estudos de G\u00eanero, o tratamento do cristianismo com a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 controverso. \u201cA rela\u00e7\u00e3o de Jesus com Maria Madalena n\u00e3o \u00e9 de rejei\u00e7\u00e3o, \u00e9 de acolhimento, mas a prostitui\u00e7\u00e3o ao longo da hist\u00f3ria tem sido vista, sobretudo no ocidente, com muito estigma. Primeiro porque ela \u00e9 associada \u00e0s mulheres e depois porque tem uma rela\u00e7\u00e3o que envolve o sexo comercial. Para o cristianismo, o sexo tem que ser marital e para a reprodu\u00e7\u00e3o\u201d, explica.<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PASSAMANI-RGB-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5315\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PASSAMANI-RGB-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PASSAMANI-RGB-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PASSAMANI-RGB-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PASSAMANI-RGB-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/PASSAMANI-RGB.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Guilherme Passamani, doutor em antropologia, diz que a vis\u00e3o do cristianismo sobre a prostitui\u00e7\u00e3o, \u00e9 controversa<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Ele ressalta a hipocrisia da sociedade brasileira em rela\u00e7\u00e3o a esse tipo de trabalho. Antes da chegada dos europeus, o Brasil \u201cn\u00e3o era crist\u00e3o\u201d, lembra o pesquisador, e essa l\u00f3gica crist\u00e3 acompanha o pa\u00eds nestes&nbsp; 525 anos. \u201cEssa \u00e9 a perspectiva, a vis\u00e3o que se tem sobre a prostitui\u00e7\u00e3o\u201d. O Brasil sempre consumiu prostitui\u00e7\u00e3o, seja por homens casados ou solteiros. <\/span><\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\"><strong>Tem uma contradi\u00e7\u00e3o entre aquilo que os homens fazem publicamente e aquilo que eles fazem privadamente. Eles cometem o suposto pecado. Faz parte de uma hipocrisia crist\u00e3 que acompanha a hist\u00f3ria desse pa\u00eds desde quando esse pa\u00eds existe como pa\u00eds<\/strong><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">&nbsp;O controle das mulheres e seus corpos tamb\u00e9m se manifesta no folclore brasileiro. Segundo o doutor em lingu\u00edstica e professor do curso de Letras na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Marlon Leal Rodrigues, uma das lendas que se entrela\u00e7a com a realidade da repress\u00e3o \u00e0s mulheres, \u00e9 a do Boto Cor de Rosa, que exp\u00f5e uma estrutura social que naturaliza a viol\u00eancia sexual e culpabiliza as mulheres. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A figura do boto, segundo ele, nasce para justificar a gravidez ou perda da virgindade fora do casamento. \u201cSer m\u00e3e solteira era uma vergonha, como voc\u00ea explica?\u201d, questiona o pesquisador. \u201cO Boto Cor de Rosa! Aceitava-se [a gravidez], mas sabia que [o filho] era do irm\u00e3o, era do parente, ou era do vizinho. Por isso que tem essa lenda, para amenizar\u201d. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p>Durante s\u00e9culos, muitas mulheres foram para a prostitui\u00e7\u00e3o por falta de alternativas. Desde meninas abusadas a jovens expulsas de casa e gr\u00e1vidas sem apoio. O que restava era encontrar nesta profiss\u00e3o uma possibilidade de sustento. Com a moderniza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e movimentos revolucion\u00e1rios como o feminismo, a profiss\u00e3o, h\u00e1 alguns anos, recebe trabalhadoras que praticam a atividade tamb\u00e9m por outros motivos<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\"><strong>Durante s\u00e9culos, muitas mulheres foram para a prostitui\u00e7\u00e3o por falta de alternativas. Desde meninas abusadas, a jovens expulsas de casa, a gr\u00e1vidas sem apoio. O que restava era encontrar nesta profiss\u00e3o uma possibilidade de sustento. Com a moderniza\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e movimentos revolucion\u00e1rios como o feminismo, a profiss\u00e3o, h\u00e1 alguns anos, recebe trabalhadoras que praticam a atividade por iniciativa pr\u00f3pria<\/strong><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Para Marlon, a vis\u00e3o sobre a prostitui\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar a partir dos anos 1990, quando o prazer feminino e as redes sociais ganharam foco. \u201cAs meninas da classe m\u00e9dia se prostitu\u00edam, n\u00e3o por necessidade, mas por prazer. \u00c0 medida que a gente vai se desenvolvendo, enquanto consci\u00eancia pol\u00edtica, hist\u00f3rica, dividindo papel social, vamos olhando tamb\u00e9m para o prazer. Porque o nosso mundo \u00e9 um mundo muito prazeroso, muito estimulante\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nessa \u00e9poca, surgiu uma nova nomenclatura para as profissionais do sexo, a conhecida \u201cgarota de programa\u201d. Algumas de classe m\u00e9dia, com maior acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, tecnologia e redes sociais, passaram a escolher esse termo para o trabalho aut\u00f4nomo e sem interven\u00e7\u00e3o de terceiros. \u201cO termo muda de acordo com a forma da pr\u00e1tica\u201d, cita Marlon.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Passamani ressalta que dentro de movimentos sociais como o feminismo, a rela\u00e7\u00e3o com o trabalho sexual ainda \u00e9 conturbada. \u201cElas [as prostitutas] est\u00e3o ali por in\u00fameras raz\u00f5es, muitas vezes por falta de op\u00e7\u00e3o e outras vezes por escolha\u201d. <\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"734\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/SNOOKER-RGB_-1024x734.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5318\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/SNOOKER-RGB_-1024x734.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/SNOOKER-RGB_-300x215.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/SNOOKER-RGB_-768x550.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/SNOOKER-RGB_-400x287.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/SNOOKER-RGB_.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Alguns espa\u00e7os de entretenimento na capital sul-mato-grossense apresentam, na fachada, os n\u00fameros do estabelecimento em grande formato \u2013 bem maiores que o padr\u00e3o, uma indica\u00e7\u00e3o de casas de prostitui\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De acordo com o professor, isso divide o movimento feminista, j\u00e1 que parte percebe o \u201ctrabalho sexual como explora\u00e7\u00e3o das mulheres, e outra como uma emancipa\u00e7\u00e3o delas\u201d. Ainda, o antrop\u00f3logo diz que h\u00e1 uma diversidade de oferecimento do trabalho sexual que muitas vezes nem passa perto da rua. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O trabalho sexual se tornou \u201cmais privado, mas ainda pode ser explorado por outras pessoas, sejam as cafetinas ou donos dos bares\u201d, ressalta Passamani. Por\u00e9m, observa que neste processo de mudan\u00e7a, as m\u00eddias digitais incrementaram uma s\u00e9rie de ferramentas que podem oferecer mais seguran\u00e7a, autonomia e ganhos para as profissionais. O antrop\u00f3logo questiona se a sociedade mudou seu olhar sobre o trabalho sexual.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De Maria Madalena aos dias atuais, a prostitui\u00e7\u00e3o resiste em contradi\u00e7\u00e3o, seja por uma quest\u00e3o de necessidade ou de prazer das trabalhadoras do sexo. Um neg\u00f3cio privado, mas com exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que enfrenta o julgamento e \u00e9 estigmatizada pela sociedade.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Novas vitrines<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Com as novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o, a prostitui\u00e7\u00e3o tem migrado das esquinas para espa\u00e7os mais \u201creservados\u201d: as redes sociais, onde as profissionais criam novas formas de contato com sua clientela. Televis\u00e3o, filmes porn\u00f4s, an\u00fancios em jornais impressos e em sites, os servi\u00e7os s\u00e3o oferecidos com certa margem de seguran\u00e7a e lucro. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Plataformas de conte\u00fado adulto como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">OnlyFans<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Privacy<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e sites de acompanhantes como <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Fatal Model<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, permitem que as profissionais do sexo negociem diretamente com seus clientes, estabelecendo pre\u00e7os, hor\u00e1rios e limites. Para algumas, a atividade \u00e9 espor\u00e1dica. Para outras, \u00e9 a \u00fanica fonte de renda. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Em novembro de 2023, a plataforma <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">OnlyFans<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> tinha cerca de 4,1 milh\u00f5es de criadores de conte\u00fado e contava com mais de 305 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, segundo o site. Em novembro de 2024, a criadora americana Sophie Rain divulgou em suas redes que conseguiu faturar mais de 42 milh\u00f5es de d\u00f3lares somente com o dinheiro advindo do trabalho na plataforma.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Apesar do grande alcance desse tipo de conte\u00fado nas redes sociais, a estigmatiza\u00e7\u00e3o e o preconceito com as trabalhadoras do sexo n\u00e3o teve quase nenhuma melhora. O tempo de apura\u00e7\u00e3o para essa reportagem talvez seja um refor\u00e7o desta percep\u00e7\u00e3o. Entramos em contato com mais de 30 garotas de programa, criadoras de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">OnlyFans<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Camgirls<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> (garotas que produzem e publicam materiais de sexo on-line, e pode ser ao vivo), por\u00e9m, nenhuma delas se disponibilizou a dar entrevista ou participar de alguma maneira. Algumas por problemas pessoais, por falta de tempo, e outras, declaradamente, por ainda terem medo de expor sua profiss\u00e3o e a hist\u00f3ria de suas vidas conectadas \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mesmo a prostitui\u00e7\u00e3o sendo um exerc\u00edcio da exposi\u00e7\u00e3o constante, hist\u00f3rica e t\u00e3o presente, e a internet com as redes sociais terem aumentado ainda mais a amplitude desse alcance e, portanto, as possibilidades de acesso e conhecimento; uma busca r\u00e1pida do termo em buscadores da internet, como o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Google<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, refor\u00e7a essa percep\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cProstituir \u00e9 sin\u00f4nimo de: degenerar, perverter, depravar, desonrar, infamar, aviltar, libertinagens, meretr\u00edcios. Mulher que se vende por dinheiro: uma meretriz, perdida, puta, rameira, concubina, cortes\u00e3, dama, garota de programa, marafona, messalina, \u2026\u201d. E a lista continua, na maior parte das vezes, a partir de uma perspectiva bastante negativa. Se a internet reflete a sociedade &#8211; assim como tamb\u00e9m \u00e9 formada por ela &#8211; n\u00e3o \u00e9 surpreendente o receio dessas mulheres. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><b>Elas mesmas se protegem <\/b><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A falta de regula\u00e7\u00e3o, sindicato ou direitos trabalhistas refletem diretamente na vida pessoal dessas mulheres. Consequentemente, todos os cuidados envolvendo seguran\u00e7a, quest\u00f5es financeiras, sa\u00fade f\u00edsica e mental ficam na responsabilidade da profissional, que por sua vez precisa escolher qual \u00e1rea priorizar e enfrentar o medo dos julgamentos relacionados ao seu trabalho.&nbsp; <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A psic\u00f3loga cl\u00ednica Karin Louise Schroeder, especialista em avalia\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas e psicoterapia de orienta\u00e7\u00e3o psicanal\u00edtica, j\u00e1 trabalhou com garotas de programa e afirma que os estere\u00f3tipos negativos ligados \u00e0 profiss\u00e3o s\u00e3o os pontos que mais afligem essas profissionais. \u201cEla j\u00e1 recebe toda uma representa\u00e7\u00e3o social, toda uma generaliza\u00e7\u00e3o da personalidade, ela \u00e9 assim, ela tem que ser assim, ela tem certeza que ela \u00e9 assado, n\u00e9? Ent\u00e3o s\u00e3o falas muito, muito imaturas, preconceituosas e retr\u00f3gradas\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma das principais formas de se proteger dentro do meio \u00e9 o uso do \u201cnome de guerra\u201d, um apelido ou pseud\u00f4nimo usado como substitui\u00e7\u00e3o do nome civil por um alter-ego ou um personagem disposto a satisfazer as vontades dos clientes. Para Karin, esse costume funciona como um mecanismo de defesa que protege o pessoal e o separa do profissional. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">\u201cQuando eu estou num trabalho onde me relaciono com v\u00e1rios tipos de pessoas o tempo todo, eu acabo utilizando essa m\u00e1scara para me proteger, uma seguran\u00e7a, para a pessoa tamb\u00e9m n\u00e3o ter acesso ilimitado a minha hist\u00f3ria, a quem eu sou de verdade\u201d<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A luta por direitos b\u00e1sicos, como o acesso \u00e0 sa\u00fade, tamb\u00e9m fazem parte do cotidiano de quem vive da prostitui\u00e7\u00e3o. Nesse cen\u00e1rio, a preven\u00e7\u00e3o das infec\u00e7\u00f5es sexualmente transmiss\u00edveis e o HIV se tornou uma tarefa urgente. Gabriel Nolasco, doutor em psicologia e professor na UEMS de Coxim, trabalha h\u00e1 quase dez anos, em um grupo de cuidados pelo Instituto Brasileiro de Inova\u00e7\u00f5es para a Sociedade Saud\u00e1vel (Ibiss) do Centro-Oeste, com pessoas que se prostituem, em Campo Grande.&nbsp; <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nolasco conta que o grupo pensou em estrat\u00e9gicas de preven\u00e7\u00e3o a partir de abordagens comunit\u00e1rias, ou seja, uma equipe se desloca para territ\u00f3rios de prostitui\u00e7\u00e3o para entregar preservativos e testes de HIV. Al\u00e9m disso, o psic\u00f3logo explica que a partir do material da Preven\u00e7\u00e3o Combinada, lan\u00e7ada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, os profissionais orientam sobre o acesso aos preservativos e o uso correto do gel lubrificante.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">O doutor tamb\u00e9m afirma que n\u00e3o s\u00e3o apenas as profissionais do sexo que se sentem recuadas ao fazer os exames e sim, a sociedade, por conta do estigma e a associa\u00e7\u00e3o do sexo a uma pr\u00e1tica suja. \u201cExiste um discurso moral em torno da discuss\u00e3o das IST\u2019s e de todas as tecnologias, por isso a gente tem um n\u00famero muito baixo de acesso das trabalhadoras sexuais, que est\u00e3o l\u00e1 embaixo na cadeia de acesso \u00e0s profilaxias\u201d. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Nolasco acredita que faltam a\u00e7\u00f5es e investimentos como o di\u00e1logo com sensibilidade e o trabalho de preven\u00e7\u00e3o durante o ano inteiro. Alega que tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es que trabalham com o grupo vulner\u00e1vel foram aprovadas no ano passado e at\u00e9 o momento, n\u00e3o receberam recursos. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A falta desses recursos \u00e9 um reflexo claro da neglig\u00eancia do estado com as trabalhadoras do sexo. Apesar dos avan\u00e7os nos tratamentos de ISTs e a praticidade do trabalho feito pelas m\u00eddias digitais, o olhar sociedade sobre as prostitutas e o sexo continuam sendo de nojo, julgamento e principalmente hip\u00f3crita.\u00a0 <\/span><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-104\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 104<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Maria Madalena \u00e0s garotas do job, elas ainda buscam seu lugar na sociedade Texto: Rafaela Palieraqui | Gyovana MarinhoFotos e ilustra\u00e7\u00e3o: Rafaela Palieraqui Na fic\u00e7\u00e3o ou na vida real, as prostitutas sempre fizeram parte da hist\u00f3ria da humanidade. Hilda Furac\u00e3o, Bruna Surfistinha, Anora. 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