{"id":5192,"date":"2025-07-14T19:10:28","date_gmt":"2025-07-14T23:10:28","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5192"},"modified":"2025-07-16T18:10:41","modified_gmt":"2025-07-16T22:10:41","slug":"nem-toda-violencia-e-visivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/nem-toda-violencia-e-visivel\/","title":{"rendered":"Nem toda viol\u00eancia \u00e9 vis\u00edvel"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Ass\u00e9dios moral e sexual exp\u00f5em a desigualdade de g\u00eanero nos ambientes profissionais&nbsp;<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-ada41c778fab094d276ade26e20ef601\"><strong>Texto: Ayumi Chinem | Roberta Dorneles<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">A viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 uma discuss\u00e3o importante na sociedade brasileira, em especial, porque o machismo estrutural impacta a atua\u00e7\u00e3o feminina tamb\u00e9m no ambiente de trabalho. O ass\u00e9dio no emprego \u00e9 um dos entraves para o ingresso, a perman\u00eancia e a qualidade da presen\u00e7a das mulheres no mundo laboral.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Apesar dos avan\u00e7os nas pol\u00edticas de igualdade, o ambiente profissional \u00e9 palco de comportamentos abusivos. Dados do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho (MPT) mostram que, em 2024, mais de 70% das den\u00fancias de ass\u00e9dio sexual envolveram mulheres. A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT) refor\u00e7a esse quadro preocupante, apontando que uma em cada tr\u00eas mulheres j\u00e1 sofreu algum tipo de viol\u00eancia no ambiente profissional, seja verbal, f\u00edsica ou psicol\u00f3gica.<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"795\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5195\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-1.jpg 1000w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-1-300x239.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-1-768x611.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-1-400x318.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Contato n\u00e3o autorizado pode configurar ass\u00e9dio sexual. Esta fotografia \u00e9 uma imagem posada, para representar uma poss\u00edvel situa\u00e7\u00e3o de ass\u00e9dio |&nbsp; Foto: Ayumi Chinem<br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\"><span style=\"font-weight: 400\">Entre 2020 e 2023, a Justi\u00e7a do Trabalho julgou mais de 338.814 processos morais e 22.758 casos de ass\u00e9dio sexual, com 72,1% dessas a\u00e7\u00f5es movidas por mulheres. Em 2024, somente nos casos de ass\u00e9dio sexual, houve aumento de 35% (8.612 casos) nas a\u00e7\u00f5es<\/span> <span style=\"font-weight: 400\">em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. Apesar desses n\u00fameros alarmantes, a subnotifica\u00e7\u00e3o permanece um desafio expressivo. Pesquisa do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul (TRE-MS), de 2024, aponta que 97% das mulheres v\u00edtimas de ass\u00e9dio sexual no trabalho n\u00e3o denunciam, frequentemente por medo de retalia\u00e7\u00e3o ou falta de confian\u00e7a nos canais dispon\u00edveis.<\/span><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\"><span style=\"font-weight: 400\">Para refor\u00e7ar o combate a esse problema, foi institu\u00eddo em Mato Grosso do Sul o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Dia Estadual de Combate ao Ass\u00e9dio Moral e Sexual contra Mulheres no Ambiente de Trabalho<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, celebrado anualmente em 2 de maio. A Lei 5.699, sancionada em agosto de 2021, visa, ainda, conscientizar, prevenir e combater atitudes abusivas, constrangimentos, intimida\u00e7\u00f5es e humilha\u00e7\u00f5es que violam a dignidade e a liberdade sexual das mulheres no ambiente laboral.<\/span><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\"><span style=\"font-weight: 400\">Outras barreiras tamb\u00e9m refor\u00e7am a desigualdade no ambiente profissional. Dados do 2\u00ba Relat\u00f3rio de Transpar\u00eancia Salarial, de 2024, mostram que em MS as mulheres ganham, em m\u00e9dia, 27,1% menos que os homens. A pesquisa<\/span><i><span style=\"font-weight: 400\"> The State of Women in Leadership<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\">, do LinkedIn, revela que apenas 32% das posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a no Brasil s\u00e3o ocupadas por mulheres, mesmo elas representando 45% da for\u00e7a de trabalho nacional. <\/span><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Esses fatores evidenciam como o patriarcado continua criando barreiras que impedem a ascens\u00e3o das mulheres e naturalizam a desigualdade de g\u00eanero. Isso acentua ainda mais a vulnerabilidade feminina e aumenta a incid\u00eancia de ass\u00e9dios sofridos por mulheres. \u00c9 um ciclo vicioso.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\"><span style=\"font-weight: 400\">Emily Okumoto trabalha no <\/span><i><span style=\"font-weight: 400\">Poderosas e Atrevidas Sex Shop<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400\"> h\u00e1 17 anos e conta que quando abriu o neg\u00f3cio vendia produtos como \u00f3leo de massagem, g\u00e9is e calcinhas comest\u00edveis, por isso os coment\u00e1rios n\u00e3o eram muito frequentes. Desde que implantou a venda de itens diretamente voltados para o bem estar sexual, como pr\u00f3teses e vibradores, o ass\u00e9dio se intensificou drasticamente. Ele se apresenta de in\u00fameras formas, desde convites indiscretos at\u00e9 insinua\u00e7\u00f5es mais graves.&nbsp;<\/span><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">A situa\u00e7\u00e3o mais alarmante aconteceu quando um cliente exibiu o genital para ela no meio da loja. \u201cEle disse que compraria o gel que deixava o \u00f3rg\u00e3o maior, mas queria saber se ele precisava. Ent\u00e3o, ele tirou o \u00f3rg\u00e3o para fora e pediu para eu avaliar\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"590\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5196\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2.jpg 1000w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2-300x177.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2-768x453.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2-400x236.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O ass\u00e9dio atinge com mais for\u00e7a profiss\u00f5es estigmatizadas| Foto:<br>Ayumi Chinem<br><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Apesar da gravidade das situa\u00e7\u00f5es, Emily tenta manter o bom humor e a simpatia, mas admite que j\u00e1 se questionou se gostaria de permanecer nesse ramo. O medo de que algo mais grave aconte\u00e7a ainda \u00e9 constante, em especial por trabalhar durante a noite na feira central. \u201cJ\u00e1 aconteceu de um cliente ficar me esperando sair da loja, de achar que eu quero usar o produto com ele\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\">J\u00e1 aconteceu de um cliente ficar me esperando sair da loja, de achar que eu quero usar o produto com ele<br \/><br \/><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Milena Mendon\u00e7a, psic\u00f3loga especializada em Psicologia Organizacional e do Trabalho, explica que o ass\u00e9dio afeta profundamente a sa\u00fade mental das v\u00edtimas. &#8220;Ansiedade, depress\u00e3o, baixa autoestima e at\u00e9 s\u00edndrome do p\u00e2nico s\u00e3o comuns em quem passa por essas situa\u00e7\u00f5es. O sofrimento psicol\u00f3gico, geralmente acumulado, gera um desgaste emocional imenso\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"450\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5193\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3-300x169.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3-768x432.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3-400x225.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Milena Mendon\u00e7a, psic\u00f3loga especializada em Psicologia Organizacional e do Trabalho | Foto: Roberta Dorneles<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">A estudante Andr\u00e9a Cristina Vieira foi v\u00edtima de ass\u00e9dio moral enquanto trabalhava em uma loja de roupas. As situa\u00e7\u00f5es se intensificaram quando ela percebeu mudan\u00e7as no comportamento da superior imediata. \u201cPercebi que estava sendo v\u00edtima de ass\u00e9dio moral quando minha chefe come\u00e7ou a me rebaixar sem motivo, utilizando sua posi\u00e7\u00e3o de autoridade para se impor de forma humilhante e desrespeitosa\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Durante o per\u00edodo em que trabalhou na empresa, Andr\u00e9a relata ter enfrentado epis\u00f3dios frequentes de repress\u00e3o, julgamentos, deboche e autoritarismo, al\u00e9m de piadas de mau gosto. \u201cSempre com o intuito de diminuir meu valor profissional\u201d, destacou. A estudante conta que a pr\u00e1tica de micro agress\u00f5es tamb\u00e9m fazia parte da rotina. \u201cCom frequ\u00eancia, era alvo de ironias, piadas ofensivas e atitudes sutis de exclus\u00e3o e menosprezo\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\"><span style=\"font-weight: 400\">As consequ\u00eancias foram diretas na sa\u00fade emocional e na trajet\u00f3ria profissional da jovem.&nbsp;<\/span><span style=\"font-weight: 400\">Andr\u00e9a afirma que n\u00e3o procurou os canais formais da empresa por receio de repres\u00e1lias, mas buscou apoio em pessoas pr\u00f3ximas. \u201cConversei com familiares e amigos, e ap\u00f3s relatar as situa\u00e7\u00f5es, fui aconselhada a pedir demiss\u00e3o, pois aquilo j\u00e1 estava afetando minha sa\u00fade mental.\u201d O caso n\u00e3o teve desdobramentos formais, como investiga\u00e7\u00e3o interna ou a\u00e7\u00e3o judicial.<\/span><\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Os efeitos, por\u00e9m, v\u00e3o al\u00e9m da v\u00edtima. Milena explica que o ass\u00e9dio prejudica toda a organiza\u00e7\u00e3o. A seguran\u00e7a psicol\u00f3gica \u00e9 rompida, a produtividade cai, e os relacionamentos interpessoais se deterioram e o isolamento da v\u00edtima e o medo de repres\u00e1lias comprometem o desempenho de toda a equipe. Para prevenir o problema, a psic\u00f3loga defende a cria\u00e7\u00e3o de uma cultura organizacional que promova o respeito e a seguran\u00e7a psicol\u00f3gica. Treinamentos regulares, canais de den\u00fancia an\u00f4nimos e a capacita\u00e7\u00e3o de l\u00edderes s\u00e3o fundamentais.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Maria(*) viveu na pele o que muitas mulheres enfrentam diariamente. Durante tr\u00eas anos, trabalhou como assistente administrativa em uma empresa. \u201cNo come\u00e7o, eram s\u00f3 piadinhas. Depois vieram toques desnecess\u00e1rios e coment\u00e1rios mais invasivos. Quando reclamei, fui isolada pela equipe e passei a ser tratada como problem\u00e1tica\u201d, relata. A situa\u00e7\u00e3o atingiu o \u00e1pice quando o chefe sugeriu uma promo\u00e7\u00e3o em troca de favores pessoais. Maria pediu demiss\u00e3o, mas as consequ\u00eancias foram duras. \u201cLevei meses para me sentir segura em outro emprego. A vergonha e o medo de retalia\u00e7\u00f5es me acompanharam por muito tempo\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Para o advogado trabalhista e professor universit\u00e1rio Rodolfo Loureiro Filho, entre os principais obst\u00e1culos enfrentados por quem sofre esse tipo de viol\u00eancia no ambiente profissional est\u00e1 a dificuldade em reunir provas. \u201cGeralmente, isso acontece em ambiente fechado, que n\u00e3o tem uma testemunha ou uma grava\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o fica muito dif\u00edcil provar\u201d.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">O especialista acrescenta que, por parte das autoridades, h\u00e1 casos em que n\u00e3o h\u00e1 o devido cuidado ao acolher esta v\u00edtima\u201d. Ressalta que existem mecanismos formais para que a v\u00edtima busque repara\u00e7\u00e3o. \u201cA v\u00edtima pode denunciar na pol\u00edcia a conduta il\u00edcita e tamb\u00e9m pode ingressar com uma a\u00e7\u00e3o na Justi\u00e7a do Trabalho pedindo uma indeniza\u00e7\u00e3o,\u201d orienta.<\/span><\/p>\n\n\n\n<h5><span style=\"color: #ff0000\"><b><br>Ass\u00e9dio moral: um processo de aniquila\u00e7\u00e3o emocional<\/b><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">A ju\u00edza do trabalho e ouvidora da Mulher no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 24\u00aa Regi\u00e3o, Ana Paola Emanuelli Balsanelli, fala com propriedade sobre esse cen\u00e1rio e aponta caminhos para quebrar o sil\u00eancio e combater essas formas de viol\u00eancia. Explica que o ass\u00e9dio moral se caracteriza por uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es repetidas com a clara inten\u00e7\u00e3o de desmoralizar o trabalhador.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Ela esclarece que \u201cn\u00e3o se trata apenas de um estresse do dia a dia. O que diferencia o ass\u00e9dio moral de um ambiente de trabalho sobrecarregado \u00e9 justamente a inten\u00e7\u00e3o de prejudicar, de isolar e adoecer a v\u00edtima\u201d. Esse tipo de viol\u00eancia pode vir tanto de superiores quanto de colegas, o chamado \u201cass\u00e9dio horizontal\u201d e geralmente se manifesta por meio de microagress\u00f5es di\u00e1rias, que escalonam com o tempo.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">No caso do ass\u00e9dio sexual, Ana Paola alerta que n\u00e3o se limita ao contato f\u00edsico. Coment\u00e1rios sobre a apar\u00eancia, insinua\u00e7\u00f5es e \u201cbrincadeiras\u201d inapropriadas tamb\u00e9m configuram a viol\u00eancia. \u201cVoc\u00ea est\u00e1 bonita hoje\u201d ou \u201cessa saia ficou \u00f3tima em voc\u00ea\u201d podem parecer inofensivos, mas carregam uma carga de opress\u00e3o e objetifica\u00e7\u00e3o que marca profundamente a v\u00edtima, diz a ju\u00edza.<\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"787\" height=\"762\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5194\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-4.jpg 787w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-4-300x290.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-4-768x744.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-4-400x387.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 787px) 100vw, 787px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">97% das mulheres preferem n\u00e3o denunciar o ass\u00e9dio sofrido por medo de repres\u00e1lias | Foto: Ayumi Chinem<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5><span style=\"color: #ff0000\"><b><br>\u201cN\u00e3o podemos mais nos calar\u201d<\/b><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">A desigualdade de g\u00eanero \u00e9 a raiz de grande parte dessas viol\u00eancias. \u201cDesde pequenas, as meninas s\u00e3o educadas para suportar, enquanto os meninos s\u00e3o ensinados a dominar. A mulher j\u00e1 nasce em desvantagem\u201d, afirma Ana Paola. Essa cultura machista se reflete em todos os espa\u00e7os, inclusive no mercado de trabalho.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">A magistrada destaca que a maternidade agrava essa desigualdade. \u201cNa entrevista de emprego, perguntam se a mulher tem filhos ou se pretende ter. J\u00e1 para o homem, ningu\u00e9m questiona\u201d. E \u00e9 justamente essa depend\u00eancia econ\u00f4mica, somada \u00e0 viol\u00eancia estrutural, que prende muitas mulheres a rela\u00e7\u00f5es abusivas e ambientes hostis.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Apesar do medo e das dificuldades, a den\u00fancia \u00e9 o primeiro passo. \u201cN\u00e3o podemos mais nos calar. Hoje, temos canais de escuta e acolhimento. A Ouvidoria da Mulher, por exemplo, est\u00e1 de portas abertas\u201d, refor\u00e7a a ju\u00edza. Os assediadores, segundo ela, devem responder na Justi\u00e7a Civil e, nos casos de ass\u00e9dio sexual, tamb\u00e9m criminalmente.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Ainda assim, o maior obst\u00e1culo \u00e9 o medo da v\u00edtima, de repres\u00e1lias, de perder o emprego, de n\u00e3o ser acolhida. A cultura do sil\u00eancio ainda \u00e9 forte, mas Ana Paola se mostra otimista. \u201cHoje, as pessoas se sentem mais encorajadas a falar. A nova gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o aceita mais esse tipo de opress\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">O TRT da 24\u00aa Regi\u00e3o desenvolve a\u00e7\u00f5es permanentes de combate ao ass\u00e9dio. Campanhas, palestras, parcerias com outras institui\u00e7\u00f5es e a pr\u00f3pria Ouvidoria da Mulher s\u00e3o instrumentos que v\u00eam ajudando a promover a cultura de respeito e equidade. A ju\u00edza defende que a transforma\u00e7\u00e3o deve come\u00e7ar desde cedo. \u201cA educa\u00e7\u00e3o precisa mudar. Os meninos precisam ser ensinados desde a inf\u00e2ncia a respeitar, a dividir responsabilidades e a n\u00e3o reproduzir essa mentalidade violenta\u201d.<br><br><\/span><\/p>\n\n\n\n<h5><span style=\"color: #ff0000\"><b>Viol\u00eancia em alta, apesar dos avan\u00e7os<\/b><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Embora haja mais pol\u00edticas p\u00fablicas e informa\u00e7\u00e3o, a magistrada reconhece que a viol\u00eancia s\u00f3 aumenta. \u201cO feminic\u00eddio tamb\u00e9m. A informa\u00e7\u00e3o cresceu, mas a viol\u00eancia n\u00e3o diminuiu na mesma propor\u00e7\u00e3o. Falta educa\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia financeira para as v\u00edtimas\u201d.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">A Rede Brasileira de Mulheres Cientistas lan\u00e7ou, em 2023, a campanha nacional #Ass\u00e9dioZero, com o objetivo de promover o debate e combater a cultura do ass\u00e9dio contra professoras, estudantes, t\u00e9cnicas administrativas e profissionais terceirizadas nos ambientes acad\u00eamicos.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Dados revelam a dimens\u00e3o do problema. Pesquisa de 2015, realizada pelo Data Popular e Instituto Avon com 1.823 universit\u00e1rios, apontou que 67% das estudantes j\u00e1 sofreram algum tipo de viol\u00eancia sexual, psicol\u00f3gica, moral ou f\u00edsica praticada por homens dentro das institui\u00e7\u00f5es de ensino superior.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">Levantamento de 2020 feito pela pesquisadora Bianca Beltrame, da UFRGS, com 71 Institui\u00e7\u00f5es Federais de Ensino Superior (IFES), mostrou que 52,3% dessas institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o contam com pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o ao ass\u00e9dio, e 70% delas n\u00e3o possuem medidas efetivas de combate.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"font-weight: 400;color: #ffffff\">De acordo com a legisla\u00e7\u00e3o, o Poder Executivo deve promover, em parceria com \u00f3rg\u00e3os governamentais e n\u00e3o governamentais, a\u00e7\u00f5es como semin\u00e1rios, palestras, cursos, f\u00f3runs e rodas de conversa para informar sobre direitos, mecanismos de den\u00fancia e a import\u00e2ncia de um ambiente de trabalho saud\u00e1vel para as mulheres e assim fortalecer pol\u00edticas p\u00fablicas que combatam o ass\u00e9dio. A sociedade civil tem se mobilizado e o assunto se mant\u00e9m no debate, mas ainda avan\u00e7amos a passos lentos.<\/span><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-105\/\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 105<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ass\u00e9dios moral e sexual exp\u00f5em a desigualdade de g\u00eanero nos ambientes profissionais&nbsp; Texto: Ayumi Chinem | Roberta Dorneles A viol\u00eancia contra as mulheres \u00e9 uma discuss\u00e3o importante na sociedade brasileira, em especial, porque o machismo estrutural impacta a atua\u00e7\u00e3o feminina tamb\u00e9m no ambiente de trabalho. 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