{"id":5224,"date":"2025-07-15T15:47:47","date_gmt":"2025-07-15T19:47:47","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5224"},"modified":"2025-07-16T18:01:11","modified_gmt":"2025-07-16T22:01:11","slug":"furta-cor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/furta-cor\/","title":{"rendered":"Furta-Cor"},"content":{"rendered":"\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Ser m\u00e3e \u00e9 habitar um paradoxo. \u00c9 sentir amor e cansa\u00e7o, alegria e solid\u00e3o, plenitude e vazio &#8211; tudo ao mesmo tempo<\/h5>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-c1cb28837c52f5c78a11c6e54c0b3c7f\"><strong>Texto e ilustra\u00e7\u00e3o: Maria Eduarda Santos<\/strong><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>Ser m\u00e3e \u00e9 habitar um paradoxo. \u00c9 sentir amor e cansa\u00e7o, alegria e solid\u00e3o, plenitude e vazio &#8211; tudo ao mesmo tempo. A furta-cor, que muda conforme a luz que incide sobre ela, \u00e9 a met\u00e1fora para a maternidade poss\u00edvel: mut\u00e1vel, complexa e dif\u00edcil de ser definida. No entanto, a sociedade insiste em pint\u00e1-la com cores past\u00e9is e reduzir a experi\u00eancia da maternidade a sorrisos serenos e beb\u00eas adormecidos. Essa romantiza\u00e7\u00e3o esconde dados importantes: 25% das m\u00e3es de rec\u00e9m-nascidos no Brasil s\u00e3o diagnosticadas com o transtorno, segundo a Fiocruz.<\/p>\n\n\n\n<p>Falar sobre sa\u00fade mental materna ainda \u00e9 um tabu, j\u00e1 que esbarra nas idealiza\u00e7\u00f5es de que a maternidade \u00e9 um instinto, inato e sempre feliz. Essa romantiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 somente mentirosa, mas tamb\u00e9m perigosa. Quando uma m\u00e3e n\u00e3o sente esse \u201camor instant\u00e2neo\u201d pelo beb\u00ea ou \u00e9 consumida pelo cansa\u00e7o, ela pode se ver diante de uma dupla dor: a do sofrimento e a da culpa por n\u00e3o estar correspondendo \u00e0s expectativas de m\u00e3e realizada e satisfeita.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados escancaram uma realidade inadmiss\u00edvel: milhares de m\u00e3es s\u00e3o deixadas \u00e0 pr\u00f3pria sorte em seus momentos de vulnerabilidade, perdidas em um labirinto de emo\u00e7\u00f5es com as quais elas n\u00e3o conseguem, na maioria das vezes, lidar sozinhas.<\/p>\n<p>O acompanhamento psicol\u00f3gico no pr\u00e9-natal e no puerp\u00e9rio n\u00e3o deveria ser considerado um luxo para poucas. \u00c9 urgente e necessita aten\u00e7\u00e3o permanente, com profissionais de obstetr\u00edcia treinados para identificar sinais de depress\u00e3o e ansiedade. Mas n\u00e3o basta esperar que isso aconte\u00e7a. Precisamos conhecer, entender, cobrar e exigir a sa\u00fade mental materna como quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n\n<p><br>Ningu\u00e9m prepara a mulher para o terremoto f\u00edsico e emocional que a maternidade traz. Em poucos meses, o corpo se transforma, os horm\u00f4nios viram de ponta-cabe\u00e7a e a mente precisa se reinventar. S\u00e3o mudan\u00e7as que deixam marcas &#8211; nas cicatrizes, no cansa\u00e7o, na nova forma de enxergar o mundo. Como pode ser considerado t\u00e3o habitual ou comum quando nada mais \u00e9 como antes? A maternidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 cuidar de um beb\u00ea, \u00e9 sobreviver \u00e0 pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m deveria fazer isso sozinho.<\/p>\n<p><br>Horm\u00f4nios como progesterona e estrog\u00eanio atingem n\u00edveis extraordin\u00e1rios durante a gravidez, influenciando desde o humor at\u00e9 a estrutura cerebral &#8211; fen\u00f4meno conhecido como &#8220;maternidade do c\u00e9rebro&#8221;, com altera\u00e7\u00f5es em \u00e1reas respons\u00e1veis pelo cuidado e pela empatia, por exemplo. No p\u00f3s-parto, a abrupta queda hormonal, combinada com a priva\u00e7\u00e3o de sono e as novas demandas, criam um terreno f\u00e9rtil para a ansiedade e a depress\u00e3o. Essas mudan\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o escolhas, mas processos biol\u00f3gicos que exigem compreens\u00e3o e suporte. Reconhecer essa complexidade \u00e9 fundamental para substituir a romantiza\u00e7\u00e3o por acolhimento.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"695\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Furta-cor-695x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5225\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Furta-cor-695x1024.jpg 695w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Furta-cor-204x300.jpg 204w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Furta-cor-768x1132.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Furta-cor-400x590.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/Furta-cor.jpg 800w\" sizes=\"auto, (max-width: 695px) 100vw, 695px\" \/><\/figure>\n\n\n\n\n\n<p>As redes de apoio tamb\u00e9m podem ser um outro tipo de ant\u00eddoto para a solid\u00e3o materna &#8211; n\u00e3o tanto pela companhia e pessoas ao redor -, mas pela possibilidade de ajuda e amparo. Uma m\u00e3e que engravidou cedo, sentiu muita dor no parto e n\u00e3o teve nenhuma ajuda do marido ou de outras pessoas, ao inv\u00e9s de sentir o clique de amor que muitos falam, pode sentir desespero e arrependimento. \u201cLevei quase tr\u00eas anos para am\u00e1-lo, tive que fazer terapia e precisei de muita ajuda para conseguir sentir algo\u201d. E esse n\u00e3o \u00e9 um relato isolado.<\/p>\n<p><br \/>Na met\u00e1fora \u00f3ptica do furta-cor, as nuances da sa\u00fade maternal nos convidam a enxergar a maternidade de forma realista, dentro das possibilidades de cada mulher. Para isso, foi criada a Campanha Maio Furta-Cor, que prop\u00f5e normalizar as m\u00e3es que choram, duvidam, perdem a paci\u00eancia e sentem saudades da vida antes dos filhos.<\/p>\n<p><br \/>A psic\u00f3loga Rayane Lima, especialista na sa\u00fade mental perinatal e representante da campanha em Campo Grande\/MS, estima que 70% das m\u00e3es ocultam ou minimizam a pr\u00f3pria sa\u00fade mental, o que dificulta ainda mais o diagn\u00f3stico.<\/p>\n<p><br \/>Sem compreens\u00e3o, apoio e tratamento, o peso da maternidade pode ter um impacto devastador nas mulheres. A maternidade precisa ser um ato coletivo. J\u00e1 dizia o prov\u00e9rbio africano: \u201cpara criar uma crian\u00e7a \u00e9 preciso uma aldeia inteira\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-105\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 105<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ser m\u00e3e \u00e9 habitar um paradoxo. \u00c9 sentir amor e cansa\u00e7o, alegria e solid\u00e3o, plenitude e vazio &#8211; tudo ao mesmo tempo Texto e ilustra\u00e7\u00e3o: Maria Eduarda Santos Ser m\u00e3e \u00e9 habitar um paradoxo. \u00c9 sentir amor e cansa\u00e7o, alegria e solid\u00e3o, plenitude e vazio &#8211; tudo ao mesmo tempo. A furta-cor, que muda conforme [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[43],"tags":[],"class_list":["post-5224","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao105"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5224","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5224"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5224\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5723,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5224\/revisions\/5723"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5224"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5224"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5224"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}