{"id":5449,"date":"2025-07-14T17:50:24","date_gmt":"2025-07-14T21:50:24","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5449"},"modified":"2025-07-16T19:36:00","modified_gmt":"2025-07-16T23:36:00","slug":"digna-e-sustentavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/digna-e-sustentavel\/","title":{"rendered":"Digna e sustent\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Entre sangue, sil\u00eancio e vergonha, surgem solu\u00e7\u00f5es que cuidam do planeta e do corpo de quem menstrua<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-99de1802cc93f5d448942a41a414a632\"><strong>Texto: Mariana Viana | Nathana Nunes<br><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p>Amiga, v\u00ea se vazou\u201d. \u201cFaria de tudo para n\u00e3o menstruar\u201d. \u201cEstou naqueles dias, n\u00e3o d\u00e1\u201d. \u201cGra\u00e7as a Deus, n\u00e3o menstruo mais\u201d. Essas frases, ditas por pessoas que menstruam, escancaram o inc\u00f4modo e os tabus que ainda cercam a menstrua\u00e7\u00e3o. Aos poucos, por\u00e9m, um novo discurso come\u00e7a a ganhar espa\u00e7o. Um discurso, aparentemente mais consciente, mais emp\u00e1tico e, principalmente, mais sustent\u00e1vel. Em meio a onda de autocuidado e responsabilidade ambiental, cresce o interesse por alternativas que respeitam o corpo e o planeta: coletores menstruais, calcinhas absorventes, absorventes de pano reutiliz\u00e1veis, entre outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto algumas pessoas que menstruam t\u00eam a possibilidade de utilizar formas mais sustent\u00e1veis e t\u00eam acesso a elas, outras n\u00e3o possuem acesso nem ao produto mais comum, que \u00e9 o absorvente descart\u00e1vel. Segundo a pesquisa <em>A Rela\u00e7\u00e3o das Brasileiras Com o Per\u00edodo Menstrual e o Fen\u00f4meno da Pobreza Menstrual<\/em> realizada pelo Instituto Locomotiva, em 2022, apenas 23% das mulheres entrevistadas disseram que nunca precisaram utilizar outros itens para conter a menstrua\u00e7\u00e3o, enquanto 20% utilizaram muitas vezes. Os itens utilizados s\u00e3o diversos, como papel higi\u00eanico, o mais comum, em 83% dos casos; len\u00e7os descart\u00e1veis, meias, toalhas de papel, len\u00e7os umedecidos, algod\u00e3o e at\u00e9 sacolas de papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda, a higiene pessoal b\u00e1sica nesses momentos tamb\u00e9m \u00e9 fundamental. Segundo o relat\u00f3rio lan\u00e7ado em 2021 pelo Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNFPA) e o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (UNICEF), as meninas brasileiras vivem em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, no qual 6,5 milh\u00f5es delas moram em casas sem liga\u00e7\u00e3o \u00e0 rede de esgoto e 900 mil sem acesso \u00e0 \u00e1gua canalizada em seus domic\u00edlios. A sustentabilidade n\u00e3o resolve a higiene, mas al\u00e9m de reduzir o impacto ambiental causado por milh\u00f5es de absorventes descart\u00e1veis jogados no lixo todos os anos, tamb\u00e9m pode ser uma resposta direta \u00e0 pobreza menstrual. Isso porque os produtos reutiliz\u00e1veis, como calcinhas absorventes e coletores menstruais, apesar de representarem um investimento inicial mais alto, trazem economia a longo prazo. De acordo com algumas marcas de coletores menstruais, por exemplo, esse produto pode ser utilizado de tr\u00eas at\u00e9 dez anos com os devidos cuidados.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"616\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5503\" style=\"width:413px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-1.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-1-292x300.jpg 292w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-1-400x411.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Rafaela Peres<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Essa solu\u00e7\u00e3o, no entanto, sem pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam acesso universal e cont\u00ednuo a esses recursos, permanece inacess\u00edvel \u00e0 parcela da popula\u00e7\u00e3o que mais precisa dela. Entre as mais afetadas est\u00e3o as mulheres em situa\u00e7\u00e3o de rua, com a rotina marcada pela aus\u00eancia de infraestrutura b\u00e1sica. Vivian da Silva est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de rua, e relata que utiliza absorventes descart\u00e1veis quando consegue por doa\u00e7\u00e3o, mas, muitas vezes, precisa improvisar com paninhos ou acaba manchando a roupa. \u201cEu moro na rua. E \u00e9 vergonhoso, n\u00e3o \u00e9? Uma mulher toda manchada. Eu n\u00e3o gosto, \u00e9 feio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Vivian conta, por\u00e9m, que ao contr\u00e1rio dela, menstruar e manchar a roupa para outras mulheres em situa\u00e7\u00e3o de rua n\u00e3o \u00e9 um problema. \u201cTem mulher que fica menstruada, n\u00e3o t\u00e1 nem a\u00ed. T\u00e1 com a roupa toda suja j\u00e1. A gente \u00e9 mulher, a gente tem que andar limpinha e cheirosa\u201d. Sua fala revela a import\u00e2ncia da manuten\u00e7\u00e3o de um m\u00ednimo de dignidade, mesmo em realidades de extrema vulnerabilidade. O b\u00e1sico, por\u00e9m, como \u00e1gua e higiene, ainda \u00e9 negado.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"700\" height=\"515\" data-id=\"5505\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3-digna-e-sustentavel.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5505\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3-digna-e-sustentavel.jpg 700w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3-digna-e-sustentavel-300x221.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-3-digna-e-sustentavel-400x294.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 700px) 100vw, 700px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Farm\u00e1cias focam apenas em utilizar do feminino e de cores associadas a ele como rosa ao vender produtos menstruais |Foto: Mariana Viana<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" data-id=\"5504\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2-digna-e-sustentavel.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5504\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2-digna-e-sustentavel.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2-digna-e-sustentavel-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2-digna-e-sustentavel-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-2-digna-e-sustentavel-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Mariana Viana<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>A falta n\u00e3o \u00e9 somente de absorventes, mas tamb\u00e9m de empatia, pol\u00edticas p\u00fablicas e a garantia do direito de viver com integridade. \u201cEu nunca fui pegar no posto. Isso que falou que ia dar, n\u00e9? No posto, nas escolas. At\u00e9 agora nunca peguei\u201d, denuncia. Ela se refere ao Programa de Dignidade Menstrual realizado pelo Sistema \u00danico de Sa\u00fade(SUS), por meio da Farm\u00e1cia Popular, que distribui absorventes gratuitos desde o in\u00edcio de 2024. Essa dificuldade de acesso de Vivian, \u00e9 uma quest\u00e3o a se pensar, porqu\u00ea n\u00e3o chega a todas as pessoas que necessitam? Segundo o Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, no Brasil, s\u00e3o 31 mil unidades credenciadas para a entrega, e 131 em Campo Grande.<\/p>\n\n\n\n<p>A pessoa deve ter entre 10 e 49 anos e estar inscrita no Cadastro \u00danico (Cad\u00danico), ter renda mensal de at\u00e9 R$ 218, ser estudante de baixa renda da rede p\u00fablica ou estar em situa\u00e7\u00e3o de rua. S\u00e3o disponibilizados40 absorventes para utilizar durante dois ciclos menstruais, que equivalem a um per\u00edodo de 56 dias. Outro fator a ser considerado, contudo, \u00e9 que as pessoas s\u00e3 plurais, podendo ter ciclos maiores ou um fluxo mais intenso, limitar a quantidade de sem considerar a realidade de cada mulher \u00e9 ignorar o b\u00e1sico.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto, a pesquisa e as inova\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas s\u00e3o importantes na cria\u00e7\u00e3o de produtos sustent\u00e1veis acess\u00edveis a fim de combater a pobreza menstrual. Em universidades e institutos federais por todo o Brasil, estudantes de Design, Enfermagem, Administra\u00e7\u00e3o, Direito, Tecnologia, entre outros, buscam elaborar absorventes biodegrad\u00e1veis feitos de mat\u00e9ria prima brasileira, como fibras vegetais e subprodutos industriais. Al\u00e9m da efici\u00eancia e da t\u00e9cnica de produ\u00e7\u00e3o, \u00e9 essencial o olhar social.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"598\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5506\" style=\"width:418px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-2.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-2-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-2-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-2-400x399.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/foto-pequena-2-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Rafaela Peres<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Exemplos como Maria, absorvente \u00edntimo e SustainPads s\u00e3o trabalhos acad\u00eamicos reconhecidos e premiados internacionalmente como solu\u00e7\u00f5es para a pobreza menstrual. Rafaella de Bona, estudante de Design da Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR), criou o projeto Maria, um absorvente interno biodegrad\u00e1vel destinado a mulheres em situa\u00e7\u00e3o de rua. O produto \u00e9 feito com materiais sustent\u00e1veis, fibra da banana, facilitando o uso e o descarte, al\u00e9m de promover a higiene e reduzir o impacto ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>As estudantes do curso T\u00e9cnico em Administra\u00e7\u00e3o, Laura Nedel Drebes e Camily Pereira dos Santos, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), criaram um absorvente biodegrad\u00e1vel utilizando res\u00edduos industriais com um custo estimado de apenas R$ 0,02 por unidade. A criatividade e o compromisso social de estudantes como elas apresenta diferentes solu\u00e7\u00f5es eficazes para a pobreza menstrual, aliadas \u00e0 sustentabilidade, economia e dignidade de pessoas que menstruam.<\/p>\n\n\n\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o dos produtos sustent\u00e1veis, ainda, colabora com o crescimento de um mundo ecologicamente equilibrado. Para as pessoas que n\u00e3o possuem condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de higiene e ou educa\u00e7\u00e3o para o uso correto dos absorventes\/coletores, por\u00e9m, os perigos s\u00e3o maiores que as vantagens. \u201cM\u00e1 higiene menstrual vai ocasionar ou ajudar a paciente a desenvolver infec\u00e7\u00e3o vulvovaginal, candid\u00edase, vaginose bacteriana, tricomon\u00edase e pode dar tamb\u00e9m dermatite, que s\u00e3o alergias na pele e dependendo do grau dessa m\u00e1 higiene, a paciente pode at\u00e9 ter choque t\u00f3xico\u201d, explica a m\u00e9dica ginecologista Ana Fl\u00e1via Abranches.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\">M\u00e1 higiene menstrual vai ocasionar ou ajudar a paciente a desenvolver infec\u00e7\u00e3o vulvovaginal, candid\u00edase, vaginose bacteriana, tricomon\u00edase e pode dar tamb\u00e9m dermatite<br><br><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>A desigualdade social infelizmente ainda \u00e9 um aspecto que n\u00e3o permite a implementa\u00e7\u00e3o plena das formas de controle menstrual reutiliz\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres que possuem infec\u00e7\u00e3o vaginal recorrente ou altera\u00e7\u00e3o anat\u00f4mica vaginal devem tomar um cuidado maior ao utilizar esses itens, procurando sempre a orienta\u00e7\u00e3o de um especialista. \u201cNo caso das adolescentes virgens, n\u00e3o \u00e9 uma contraindica\u00e7\u00e3o absoluta tamb\u00e9m, mas pode ter um desconforto f\u00edsico ou emocional, dependendo da adolescente. Ent\u00e3o, \u00e9 bom tamb\u00e9m que leve no ginecologista para conversar e ver se ela vai ser uma boa candidata a esse m\u00e9todo\u201d explica a m\u00e9dica. Mesmo que a pessoa n\u00e3o seja de nenhum desses grupos, a procura por um profissional ginecologista \u00e9 indispens\u00e1vel, em especial por conta da pluralidade dos corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>A procura por calcinhas absorventes tem sido comum por p\u00fablicos de diferentes idades, tanto adolescentes que est\u00e3o entrando no per\u00edodo menstrual, quanto pessoas idosas, por conta do escape de urina. A adolescente Beatriz, 13 anos, conta como foi a rela\u00e7\u00e3o com a menarca. \u201cEu sempre quis, mas quando desceu na primeira vez, eu falei: \u2018N\u00e3o, n\u00e3o t\u00f4 preparada para isso\u2019\u201d. A sensa\u00e7\u00e3o para cada pessoa \u00e9 \u00fanica, como cada uma vai lidar com a situa\u00e7\u00e3o tem uma rela\u00e7\u00e3o direta com como a fam\u00edlia trata a situa\u00e7\u00e3o e explica ou n\u00e3o para a adolescente como o corpo pode reagir.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-05979df21b73e5578c7a4b037aaddd7e\">Um corpo em conflito<\/h5>\n\n\n\n<p>Para Ben\u00edcio Garcia, 29 anos, a rea\u00e7\u00e3o da primeira menstrua\u00e7\u00e3o foi parecida com a de Beatriz. \u201cPrimeira vez que aconteceu eu falava para minha m\u00e3e que n\u00e3o queria que n\u00e3o era para mim, eu crian\u00e7a falando para ela: \u2018Tira meu \u00fatero, tira meu \u00fatero\u2019\u201d. Ben\u00edcio \u00e9 um homem trans e, atualmente, com a harmoniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o menstrua mais, por\u00e9m, algumas vezes ocorrem escapes menstruais. \u201c\u00c0s vezes, do nada, mesmo aplicando horm\u00f4nio corretamente, ainda acontecem os escapes\u201d. Quando esses escapes ocorrem, Ben\u00edcio opta pelos absorventes descart\u00e1veis. \u201cO absorvente descart\u00e1vel \u00e9 o mais f\u00e1cil de voc\u00ea adquirir e ter. \u00c9 o que eu deixo em casa\u201d. Para ele, itens reutiliz\u00e1veis podem ser desagrad\u00e1veis devido ao manuseio \u00edntimo constante.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTer que participar ativamente daquilo ali, vendo, olhando. \u00c9, eu acho que para mim a vis\u00e3o de uma menstrua\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente da vis\u00e3o de uma mulher, por exemplo.\u201d Para ele, menstruar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma experi\u00eancia f\u00edsica, \u00e9 um gatilho emocional, uma forma de agress\u00e3o que o lembra de traumas. Nesse caso, a sustentabilidade precisa estar aliada \u00e0s necessidades espec\u00edficas de cada indiv\u00edduo, a fim de acabar e\/ou minimizar tormentos psicol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa repulsa, est\u00e1 longe de ser uma experi\u00eancia. Ainda que as perspectivas sejam diferentes, muitas mulheres cisg\u00eanero tamb\u00e9m expressam incomodo, vergonha e at\u00e9 o desejo de n\u00e3o menstruar. Em uma enquete, feita para auxiliar essa reportagem, das 23 pessoas que responderam, mais de 82% afirmam j\u00e1 terem se sentido constrangidas por estarem menstruadas.<\/p>\n\n\n\n<h5 style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\">Para as mulheres mais velhas da fam\u00edlia, menstrua\u00e7\u00e3o sempre foi um tabu<br><br><\/span><\/h5>\n\n\n\n<p>Nessa enquete, houve relatos como: \u201cn\u00e3o me sentia confort\u00e1vel em sair de casa\u201d; \u201cfiquei preocupada que n\u00e3o poderia fazer algo que tinha planejado por estar menstruada\u201d; \u201cpara as mulheres mais velhas da minha fam\u00edlia, menstrua\u00e7\u00e3o sempre foi um tabu\u201d. Cita\u00e7\u00f5es como essas revelam que a menstrua\u00e7\u00e3o \u00e9 mais que um preconceito enraizado, mas tamb\u00e9m um fardo emocional e social.<\/p>\n\n\n\n<p>A fala de Ben\u00edcio, ainda, refor\u00e7a o que muitas outras vozes tamb\u00e9m expressam: menstruar pode ser um processo dif\u00edcil, doloroso e com muitos estigmas. \u201cQuando descobri que com a terapia hormonal pararia&#8230; Nossa!, para mim foi, assim, a melhor coisa que j\u00e1 existiu na vida. Porque odeio isso, odeio, odeio\u201d. Para ele, n\u00e3o significou apenas o fim de um sangramento, mas tamb\u00e9m a liberdade emocional de um processo que nunca fez parte de sua identidade de g\u00eanero.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-421fe43a1eef37e9a9815e4e2216037d\">A sujeira do sangue<\/h5>\n\n\n\n<p>Essa perspectiva negativa, gerada muitas vezes j\u00e1 na inf\u00e2ncia, mostra como a menstrua\u00e7\u00e3o ainda \u00e9 tratada como algo sujo, vergonhoso e limitante. O que deveria ser tratado com naturalidade e socialmente aceito, j\u00e1 que \u00e9 um processo biol\u00f3gico do corpo feminino, \u00e9 frequentemente escondido, silenciado e carregado de culpa. Isso ocorre, em especial, porque em muitos lares, escolas e ambientes p\u00fablicos, a palavra \u201cmenstrua\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 censurada.<\/p>\n\n\n\n<p>A sociedade patriarcal usa a menstrua\u00e7\u00e3o como meio de opress\u00e3o contra as mulheres.No pre\u00e7o dos itens menstruais, e no aumento, proposital por quest\u00f5es de g\u00eanero, do valor de rem\u00e9dios para c\u00f3lica. A conhecida \u201ctaxa rosa\u201d, inclusive, \u00e9 uma pr\u00e1tica considerada discriminat\u00f3ria pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, mas ainda propagada na ind\u00fastria farmac\u00eautica. Nesses casos, o valor \u00e9 maior que o mesmo rem\u00e9dio apresentado de outra maneira. O meio social, portanto, n\u00e3o \u00e9 pensado e adaptado \u00e0s pessoas que menstruam.<\/p>\n\n\n\n<p>A press\u00e3o social para que as mulheres cisg\u00eanero se comportem e ajam de acordo com o que a sociedade define ser mulher, come\u00e7a desde a inf\u00e2ncia e se intensificam na pr\u00e9-adolesc\u00eancia, quando muitas delas se veem pressionadas a menstruar logo e corresponder aos padr\u00f5es vigentes. Para muitas jovens, o desejo de menstruar \u00e9 recorrente e se torna uma maneira de afirmar a feminilidade. \u201cSempre quis menstruar, ent\u00e3o usei [absorvente] oito meses antes de realmente vir\u201d, relata Rayssa de Oliveira, 18 anos. Por\u00e9m, ela afirma, logo na sequ\u00eancia, que n\u00e3o quer mais menstruar.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses relatos, quando somados, refor\u00e7am que discutir dignidade menstrual n\u00e3o \u00e9 apenas falar de acesso a produtos e asseio, \u00e9, tamb\u00e9m, uma possibilidade de reconhecer viv\u00eancias diversas relacionadas \u00e0 vida cotidiana das mulheres. Preocupados em construir solu\u00e7\u00f5es sustent\u00e1veis, inclusivas e mais humanas para todas e todos.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"800\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/digna-e-sustentavel-ilustracao-certa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5507\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/digna-e-sustentavel-ilustracao-certa.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/digna-e-sustentavel-ilustracao-certa-300x300.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/digna-e-sustentavel-ilustracao-certa-150x150.jpg 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/digna-e-sustentavel-ilustracao-certa-768x768.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/digna-e-sustentavel-ilustracao-certa-400x400.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2025\/07\/digna-e-sustentavel-ilustracao-certa-200x200.jpg 200w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Armando Neto<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-105\/\">voltar para a edi\u00e7\u00e3o 105<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre sangue, sil\u00eancio e vergonha, surgem solu\u00e7\u00f5es que cuidam do planeta e do corpo de quem menstrua Texto: Mariana Viana | Nathana Nunes Amiga, v\u00ea se vazou\u201d. \u201cFaria de tudo para n\u00e3o menstruar\u201d. \u201cEstou naqueles dias, n\u00e3o d\u00e1\u201d. \u201cGra\u00e7as a Deus, n\u00e3o menstruo mais\u201d. Essas frases, ditas por pessoas que menstruam, escancaram o inc\u00f4modo e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[44],"tags":[],"class_list":["post-5449","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagem105"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5449","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5449"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5449\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5767,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5449\/revisions\/5767"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5449"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5449"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5449"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}