{"id":5867,"date":"2026-07-01T16:17:11","date_gmt":"2026-07-01T20:17:11","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5867"},"modified":"2026-07-07T18:45:26","modified_gmt":"2026-07-07T22:45:26","slug":"a-natureza-que-sustenta-o-turismo-que-devasta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/a-natureza-que-sustenta-o-turismo-que-devasta\/","title":{"rendered":"A natureza que sustenta o turismo que devasta"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><mark style=\"background-color:#000000\" class=\"has-inline-color has-accent-color\">Texto: <a href=\"juliana_garcia@ufms.br\">Juliana Garcia<\/a> | <a href=\"hapuque_q@ufms.br\">Querem Hapuque<\/a> | <a href=\"v.kawano@ufms.br\">Victor Kawano<\/a><br>Ilustra\u00e7\u00e3o: Pedro Paulo Geraldi<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SITE-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5873\" style=\"width:161px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SITE-1024x1024.png 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SITE-300x300.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SITE-150x150.png 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SITE-768x768.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SITE-400x400.png 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SITE-200x200.png 200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SITE.png 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-ad2f72ca wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p>Assim como no poema Morte e Vida Severina, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, onde vida e morte andam lado a lado, o turismo em Mato Grosso do Sul parece seguir esse mesmo caminho. Ao mesmo tempo em que depende da preserva\u00e7\u00e3o das \u00e1reas naturais para existir, pr\u00e1ticas irregulares e falhas na fiscaliza\u00e7\u00e3o colocam em risco os pr\u00f3prios recursos que sustentam a atividade.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>O turismo virou vitrine no estado. Destinos como Bonito, Bodoquena, Rio Verde e S\u00e3o Gabriel do Oeste, s\u00e3o constantemente exaltados como refer\u00eancia de ecoturismo, onde preserva\u00e7\u00e3o ambiental e desenvolvimento econ\u00f4mico coexistem supostamente em perfeita harmonia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-ad2f72ca wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p>A narrativa \u00e9 sedutora e amplamente reproduzida, mas esconde falhas que raramente ganham espa\u00e7o nos notici\u00e1rios, especialmente quanto \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o frente aos limites ambientais do modelo. Pesquisas da Embrapa Pantanal, realizadas em 2022, apontam que o ac\u00famulo de terra no fundo dos rios e a perda da transpar\u00eancia da \u00e1gua afetam diretamente a qualidade ambiental dos principais atrativos naturais de Bonito. Isso demonstra que o sistema do ecoturismo n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o equilibrado quanto se vende nas propagandas.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<p>Em feriados, Bonito enfrenta superlota\u00e7\u00e3o, se aproximando do chamado overtourism, ou turismo excessivo, fen\u00f4meno em que o fluxo ultrapassa a capacidade de um local se manter equilibrado, e afeta a infraestrutura e a natureza. De acordo com diretrizes do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), em \u00e1reas naturais fr\u00e1geis, o aumento de visitantes pode comprometer a qualidade da \u00e1gua, afetar a fauna e acelerar processos de degrada\u00e7\u00e3o dif\u00edceis de reverter.<\/p>\n\n\n\n<p>Casos recentes demonstram que o avan\u00e7o do turismo ocorre junto a aus\u00eancia do cumprimento de normas ambientais e a devida fiscaliza\u00e7\u00e3o. Por exemplo, o Minist\u00e9rio P\u00fablico de Mato Grosso do Sul (MPMS), investigou um epis\u00f3dio de uma fazenda em Bonito que construiu decks e operou atividades tur\u00edsticas sem autoriza\u00e7\u00e3o local, al\u00e9m de outras den\u00fancias de polui\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o ligadas \u00e0 atividade na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses epis\u00f3dios indicam que o problema est\u00e1 tamb\u00e9m na forma como as a\u00e7\u00f5es s\u00e3o conduzidas e fiscalizadas. Quando as regulamenta\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas n\u00e3o s\u00e3o cumpridas, os impactos deixam de ser isolados e passam a atingir \u00e1reas sens\u00edveis, como ocorre com a degrada\u00e7\u00e3o do solo e da vegeta\u00e7\u00e3o causada pelo uso intensivo de trilhas e pelo descarte inadequado de res\u00edduos. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ecoturismo aponta a presen\u00e7a de lixo associada \u00e0 atividades tur\u00edsticas em \u00e1reas naturais, e evidencia como a aus\u00eancia de controle favorece a expans\u00e3o de pr\u00e1ticas poluentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem o cumprimento rigoroso das leis, h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o evidente: o que deveria ser exemplo de preserva\u00e7\u00e3o, se torna agente de preju\u00edzos ambientais. Segundo o Anu\u00e1rio da Fundtur-MS em 2025, o estado recebe cada vez mais turistas, inclusive estrangeiros. Esse aumento, no entanto, n\u00e3o ocorre de forma equilibrada. De forma complementar, um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) mostrou que Bonito concentra cerca de 4,7 mil leitos de hospedagem, enquanto cidades pr\u00f3ximas, como Bodoquena, t\u00eam pouco mais de 170. Esse modelo n\u00e3o apenas sobrecarrega o ecossistema local, como tamb\u00e9m impede a distribui\u00e7\u00e3o mais equilibrada dos benef\u00edcios do turismo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-ad2f72ca wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p>Nesse cen\u00e1rio, as consequ\u00eancias n\u00e3o s\u00e3o apenas ambientais, mas tamb\u00e9m s\u00f3cio econ\u00f4micas. \u00c0 medida que os pre\u00e7os sobem, o turismo deixa de ser uma experi\u00eancia acess\u00edvel e se transforma em um produto cada vez mais elitizado. Com passeios em Bonito que passam de R$300,00 por pessoa, os valores elevados afastam visitantes de menor poder aquisitivo, e tamb\u00e9m a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o local, que passa a ocupar uma posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica dentro do pr\u00f3prio territ\u00f3rio que ajuda a sustentar.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-ad2f72ca wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p>Ao redor dos n\u00facleos tur\u00edsticos, os impactos se acumulam. Para al\u00e9m das devasta\u00e7\u00f5es ambientais, o aumento do custo de vida, a press\u00e3o sobre o uso da terra e a perda de acesso a espa\u00e7os antes comuns s\u00e3o vivenciados pela popula\u00e7\u00e3o. A problem\u00e1tica traz desafios: \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer limites, ampliar a fiscaliza\u00e7\u00e3o e garantir que os benef\u00edcios da atividade sejam distribu\u00eddos de forma mais equilibrada. Sem esse compromisso, o crescimento do setor tende a intensificar danos na natureza e ampliar desigualdades, em vez de contribuir para a conserva\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group is-nowrap is-layout-flex wp-container-core-group-is-layout-ad2f72ca wp-block-group-is-layout-flex\">\n<p>Sustentabilidade n\u00e3o pode ser apenas discurso ou estrat\u00e9gia de promo\u00e7\u00e3o, precisa ser vista e vivida na pr\u00e1tica cotidiana. Caso contr\u00e1rio, o estado corre o risco de transformar seus patrim\u00f4nios naturais em um produto cada vez mais explorado, restrito, e sobretudo, insustent\u00e1vel. Esse \u00e9 o retrato paradoxal de uma natureza que sustenta o turismo enquanto luta para sobreviver a ele.<\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"841\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SSSSSSSSSSITE-1-841x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5875\" style=\"aspect-ratio:0.8212895761018197;width:469px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SSSSSSSSSSITE-1-841x1024.png 841w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SSSSSSSSSSITE-1-246x300.png 246w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SSSSSSSSSSITE-1-768x935.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SSSSSSSSSSITE-1-400x487.png 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-projetil-SSSSSSSSSSITE-1.png 887w\" sizes=\"auto, (max-width: 841px) 100vw, 841px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-106\/\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 106<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Juliana Garcia | Querem Hapuque | Victor KawanoIlustra\u00e7\u00e3o: Pedro Paulo Geraldi Assim como no poema Morte e Vida Severina, de Jo\u00e3o Cabral de Melo Neto, onde vida e morte andam lado a lado, o turismo em Mato Grosso do Sul parece seguir esse mesmo caminho. 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