{"id":5937,"date":"2026-07-02T16:59:57","date_gmt":"2026-07-02T20:59:57","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5937"},"modified":"2026-07-07T18:39:27","modified_gmt":"2026-07-07T22:39:27","slug":"desastres-naturais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/desastres-naturais\/","title":{"rendered":"Desastres &#8220;naturais&#8221;?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-5581b6c27f4f5d638d02c8d03b54b83b\"><strong>Texto: <a href=\"mailto:luana.passini@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:luana.passini@ufms.br\">Luana Passini<\/a> | <a href=\"mailto:luiza.ferraz@ufms.br\" data-type=\"mailto\" data-id=\"mailto:luiza.ferraz@ufms.br\">Luiza Ferraz <\/a><br>Ilustra\u00e7\u00e3o: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/porangaba_pedro\/\" data-type=\"link\" data-id=\"https:\/\/www.instagram.com\/porangaba_pedro\/\">Pedro Porangaba<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5938\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-1980x1320.jpg 1980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-1250x833.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/ilustracao-400x267.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ilustra\u00e7\u00e3o: Pedro Porangaba<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">A cada novo temporal que atinge a capital sul-mato-grossense, repete-se um roteiro j\u00e1 conhecido: ruas alagadas e destru\u00eddas (muitas vezes carregadas), casas invadidas pela \u00e1gua, preju\u00edzos materiais e vidas colocadas em risco. A narrativa dominante insiste em tratar esses epis\u00f3dios como \u201cdesastres naturais\u201d, como se fossem inevit\u00e1veis. Essa explica\u00e7\u00e3o simplifica a realidade e encobre suas causas mais profundas. A chuva \u00e9 um fen\u00f4meno natural. O desastre, n\u00e3o. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"a-b-r-La\"><span style=\"color: #ffffff\">O aumento da frequ\u00eancia e da intensidade das chuvas nos \u00faltimos dois anos est\u00e1 associado \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, como apontado por institui\u00e7\u00f5es como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ainda assim, a recorr\u00eancia de alagamentos em Campo Grande (MS) n\u00e3o pode ser explicada apenas pelo volume de \u00e1gua que cai. Quando um problema se repete ano ap\u00f3s ano, deixa de ser imprevis\u00edvel e passa a ser negligenciado. Dados dessas institui\u00e7\u00f5es indicam, inclusive, a previsibilidade desses eventos. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"a-b-r-La\"><span style=\"color: #ffffff\">Na capital, a impermeabiliza\u00e7\u00e3o do solo, a defici\u00eancia nos sistemas de drenagem e o crescimento urbano desordenado, criam um ambiente prop\u00edcio para alagamentos e enxurradas. A \u00e1gua que deveria infiltrar, escoa; o que deveria ser absorvido, transborda. Os buracos se proliferam a cada chuva, deteriorando ainda mais a situa\u00e7\u00e3o precarizada da cidade.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"a-b-r-La\"><span style=\"color: #ffffff\">N\u00e3o se trata de um comportamento anormal da natureza, mas de uma consequ\u00eancia previs\u00edvel de planejamento urbano. Deslocar a responsabilidade para o clima n\u00e3o \u00e9 apenas um equ\u00edvoco, \u00e9 evitar encarar com responsabilidade o problema real. Essa l\u00f3gica se evidencia ao observar que \u00e1reas com menor infraestrutura urbana concentram os maiores danos e s\u00e3o, em geral, ocupadas por popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis. A desigualdade social se materializa em forma de \u00e1gua dentro de casa, m\u00f3veis perdidos e riscos constantes. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"a-b-r-La\"><span style=\"color: #ffffff\">A din\u00e2mica urbana refor\u00e7a esse processo. O f\u00edsico Hamilton Germano Pav\u00e3o, aponta que regi\u00f5es com maior concentra\u00e7\u00e3o de concreto e asfalto formam ilhas de calor, elevam a temperatura e alteram o equil\u00edbrio t\u00e9rmico. Ao mesmo tempo, a aus\u00eancia de vegeta\u00e7\u00e3o reduz a reten\u00e7\u00e3o de \u00e1gua no solo. O resultado \u00e9 uma cidade menos capaz de lidar com chuvas intensas, uma falha de gest\u00e3o urbana que n\u00e3o consegue absorv\u00ea-las.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"a-b-r-La\"><span style=\"color: #ffffff\">A ocupa\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de risco, frequentemente apontada como causa dos desastres, precisa ser compreendida com mais profundidade. Morar nesses locais n\u00e3o \u00e9 escolha livre, mas uma imposi\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas. Trata-se de uma viola\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 moradia digna, que empurra popula\u00e7\u00f5es de baixa renda para territ\u00f3rios mais desprotegidos. Nesse contexto, o conceito de racismo ambiental, formulado pelo estadunidense Robert D. Bullard, ajuda a compreender por que determinados grupos est\u00e3o mais expostos a riscos. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia, mas uma l\u00f3gica hist\u00f3rica de ocupa\u00e7\u00e3o desigual do espa\u00e7o urbano. Em cidades como Campo Grande, essa desigualdade se expressa tanto na distribui\u00e7\u00e3o do calor quanto na forma como a \u00e1gua atinge tais territ\u00f3rios. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"a-b-r-La\"><span style=\"color: #ffffff\">A repeti\u00e7\u00e3o desses eventos ao longo dos anos evidencia um padr\u00e3o. Se os efeitos se repetem a cada novo per\u00edodo de chuvas intensas, at\u00e9 que ponto ainda \u00e9 poss\u00edvel trat\u00e1-los como imprevis\u00edveis? O que se observa, na pr\u00e1tica, \u00e9 a persist\u00eancia de pol\u00edticas urbanas insuficientes e de investimentos que n\u00e3o alcan\u00e7am todas as regi\u00f5es da cidade de forma equitativa. A cada nova chuva, reafirma-se quem pode contar com prote\u00e7\u00e3o e quem permanece desamparado. <\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"a-b-r-La\"><span style=\"color: #ffffff\">Repensar o planejamento urbano, nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o t\u00e9cnica, mas uma quest\u00e3o pol\u00edtica e de sobreviv\u00eancia. Significa reconhecer que a cidade n\u00e3o \u00e9 neutra e que suas estruturas refletem escolhas.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"a-b-r-La\"><span style=\"color: #ffffff;\">\u00c9 preciso deslocar o olhar. O desastre n\u00e3o est\u00e1 no c\u00e9u, mas no ch\u00e3o da cidade, na ponta do l\u00e1pis da decis\u00e3o p\u00fablica. E, sobretudo, nas escolhas ou omiss\u00f5es que definem quem ser\u00e1 protegido e quem continuar\u00e1 pagando o pre\u00e7o mais alto a cada nova tempestade.<\/span><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-106\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 106<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Luana Passini | Luiza Ferraz Ilustra\u00e7\u00e3o: Pedro Porangaba A cada novo temporal que atinge a capital sul-mato-grossense, repete-se um roteiro j\u00e1 conhecido: ruas alagadas e destru\u00eddas (muitas vezes carregadas), casas invadidas pela \u00e1gua, preju\u00edzos materiais e vidas colocadas em risco. 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