{"id":5956,"date":"2026-07-02T16:55:33","date_gmt":"2026-07-02T20:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5956"},"modified":"2026-07-07T18:41:37","modified_gmt":"2026-07-07T22:41:37","slug":"se-a-demarcacao-e-lenta-a-destruicao-e-certa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/se-a-demarcacao-e-lenta-a-destruicao-e-certa\/","title":{"rendered":"Se a demarca\u00e7\u00e3o \u00e9 lenta, a destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 certa"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading has-text-align-center\">Disputas para regulariza\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios ind\u00edgenas, prejudica o acesso \u00e0 condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de sobreviv\u00eancia e dificulta a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-a6c44970298d218f0f65663232059345\"><strong>Texto: Jo\u00e3o Pedro Zequini | Maria Edite Vendas | Maria Fernanda Moura <\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6279\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-1200x900.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-1980x1485.jpg 1980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-1250x938.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/capa-1-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Os tramites para conquistar a demarca\u00e7\u00e3o vai al\u00e9m das quest\u00f5es f\u00edsicas, a burocracia torna o processo mais complexo. (Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\\Funai) <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Em todo o desenrolar do livro Iracema, cl\u00e1ssico da literatura brasileira publicado em 1865, e em toda a trilogia, que conta com outros t\u00edtulos como O Guarani e Ubirajara, Jos\u00e9 de Alencar descreve a natureza como protetora e parte viva dos povos ind\u00edgenas. A imagem m\u00edtica criada nesses livros, que apresenta os povos origin\u00e1rios como seres inigual\u00e1veis aos padr\u00f5es sociais euroc\u00eantricos, reflete o contexto sociocultural da \u00e9poca e contribuiu para a cria\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de estere\u00f3tipos racistas que influenciam na desumaniza\u00e7\u00e3o e na invalida\u00e7\u00e3o dos direitos dos ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Os povos origin\u00e1rios foram escravizados, obrigados \u00e0 catequiza\u00e7\u00e3o, e tiveram sua cultura e vidas violentadas. A discrimina\u00e7\u00e3o, apesar de ser um problema que se inicia na chegada portuguesa e no processo de coloniza\u00e7\u00e3o, se mant\u00eam atual. Em uma pesquisa de 2006 sobre o indigenismo, a professora e doutora em antropologia, Alcida Ramos, indica que o racismo contra povos ind\u00edgenas \u00e9 apontado como menos vis\u00edvel, mas n\u00e3o menos brutal. Ela salienta que esse tipo de viol\u00eancia opera por meio da nega\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia, da desvaloriza\u00e7\u00e3o de culturas e da apropria\u00e7\u00e3o de terras.<\/p>\n\n\n\n<p>A pedagoga Maria Auxiliadora Bezerra, da etnia Terena, conta que o preconceito influencia nas tentativas de socializa\u00e7\u00e3o. &#8220;Para conseguir vender meus produtos, por exemplo, falaram para eu me apresentar como uma pessoa boliviana e n\u00e3o ind\u00edgena&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-de785e1f9dbcc35269bd65f9cba40faa\"><strong>\u201cPara conseguir vender meus produtos, por exemplo, falaram para eu me apresentar como uma pessoa boliviana e n\u00e3o ind\u00edgena\u201d.<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Essa tentativa de silenciamento n\u00e3o se resume apenas \u00e0 apresenta\u00e7\u00e3o social, no cen\u00e1rio pol\u00edtico o descaso com pautas indigenistas caracteriza-se em um jogo de poder consciente e problem\u00e1tico. Um artigo sobre o processo de demarca\u00e7\u00e3o das terras ind\u00edgenas, de 2015, escrito pela coordenadora do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi) de Roraima (RO), Laura Vicu\u00f1a, afirma que a bancada ruralista usa como estrat\u00e9gia a paralisa\u00e7\u00e3o das demarca\u00e7\u00f5es de terras ind\u00edgenas no Brasil para uma pol\u00edtica genocida. Uma pol\u00edtica que visa o lucro por meio da extens\u00e3o do agroneg\u00f3cio \u00e0 frente dos direitos dos povos ind\u00edgenas de decidir sobre seu pr\u00f3prio futuro e viver na terra onde seus antepassados viveram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>CONSTITUI\u00c7\u00c3O. DESCONSTITUI\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas \u00e9 um direito assegurado pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal de 1988, que reconhece aos povos origin\u00e1rios a posse permanente sobre territ\u00f3rios tradicionalmente ocupados. A garantia desse direito envolve processos burocr\u00e1ticos realizados pelo Governo Federal. Apesar de n\u00e3o ser uma discuss\u00e3o atual, foi por meio da Lei 14.701 de 2023, que se instituiu o Marco Temporal, tese jur\u00eddica que tenta limitar os territ\u00f3rios ind\u00edgenas. Essa discuss\u00e3o sobre a demarca\u00e7\u00e3o movimentou diferentes setores da sociedade, como lideran\u00e7as ind\u00edgenas, representantes do agroneg\u00f3cio e institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Lei defende que apenas os povos que estivessem nas suas terras em 5 de outubro de 1988, data da promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o, teriam direito \u00e0 demarca\u00e7\u00e3o. Vilma Rios, lideran\u00e7a Av\u00e1-Guarani, chamou de \u201cera do chumbo\u201d o per\u00edodo de vig\u00eancia da lei. A moradora da Terra Ind\u00edgena Tekoha Guasu Guavir\u00e1, no oeste do Paran\u00e1, ressaltou que o marco ignora as viol\u00eancias e remo\u00e7\u00f5es for\u00e7adas vividas antes de 1988, al\u00e9m de amea\u00e7ar a biodiversidade protegida nessas \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro ponto importante, \u00e9 a necessidade de comprovar a ocupa\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios por determinadas etnias. O pesquisador, especialista em indigenismo e chefe do Servi\u00e7o de Gest\u00e3o Ambiental e Territorial (SEGAT), Leandro Altheman, explica que essa exig\u00eancia desconsidera as retomadas de terras e os conflitos diretos com agropecuaristas, que impedem de maneira proposital o processo. \u201cRecentemente foi solicitado \u00e0 Funai, uma lista de antiguidade das terras ind\u00edgenas de Mato Grosso do Sul, mas esse \u00e9 um crit\u00e9rio muito complicado e que n\u00e3o deveria ser o \u00fanico utilizado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador contextualiza que os conflitos territoriais no Brasil variam conforme o bioma e a regi\u00e3o, mas, ao olhar para Mato Grosso do Sul (MS), estado majoritariamente agropecuarista, \u00e9 poss\u00edvel identificar um padr\u00e3o marcado pela disputa entre o agroneg\u00f3cio e os povos ind\u00edgenas. Segundo Leandro, esse cen\u00e1rio est\u00e1 diretamente ligado ao processo hist\u00f3rico de ocupa\u00e7\u00e3o do estado, que resultou no confinamento dessas popula\u00e7\u00f5es em \u00e1reas cada vez menores, na perda de acesso a recursos naturais e no uso dessas comunidades como m\u00e3o de obra. \u201cAqui no estado n\u00f3s temos \u00e1reas mais conflituosas na regi\u00e3o sul, como Dourados e Ponta Por\u00e3, onde os conflitos s\u00e3o mais acirrados. Isso acontece porque antes voc\u00ea tinha popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas ocupando territ\u00f3rios diferentes, e ap\u00f3s o processo de encurralamento, promovido pelo agroneg\u00f3cio, eles foram obrigados a se readaptar em pequenas \u00e1reas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-6551a00945bc231e099a54fc157312d7\"><strong><br><\/strong>Isso acontece porque antes voc\u00ea tinha popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas ocupando territ\u00f3rios diferentes, e ap\u00f3s o processo de encurralamento, promovido pelo agroneg\u00f3cio, eles foram obrigados a se readaptar em pequenas \u00e1reas\u201d<\/h5>\n\n\n\n<p><strong>Guardi\u00f5es da natureza<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A garantia dos territ\u00f3rios tradicionais representa um pilar fundamental para a conserva\u00e7\u00e3o ambiental, a regula\u00e7\u00e3o do clima e o uso correto de recursos naturais. Em 2026, um levantamento divulgado pelo MapBiomas, rede respons\u00e1vel por monitorar o uso das terras e seus impactos, revelou dados que comprovam o impacto ambiental da demarca\u00e7\u00e3o: entre 1985 e 2023 as terras demarcadas perderam apenas 1% da sua vegeta\u00e7\u00e3o nativa, enquanto as terras privadas perderam 28%.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso demonstra como a demarca\u00e7\u00e3o \u00e9 crucial n\u00e3o apenas para a garantia de direitos territoriais, mas tamb\u00e9m para a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Essas terras s\u00e3o fundamentais para a sobreviv\u00eancia das comunidades ind\u00edgenas, possibilitando-lhes a manuten\u00e7\u00e3o de modos de vida tradicionais, l\u00ednguas e conhecimentos ancestrais. Al\u00e9m disso, desempenham um papel vital na conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e na regula\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, atuando como barreiras contra o desmatamento e manuten\u00e7\u00e3o de recursos naturais. O l\u00edder ind\u00edgena e ambientalista Ailton Krenak, defende que o diferencial das comunidades \u00e9 que eles pensam na natureza como parte essencial da vida. \u201cFomos, durante muito tempo, embalados com a hist\u00f3ria de que somos a humanidade. Enquanto isso, fomos nos alienando desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ela \u00e9 uma coisa e n\u00f3s, outra\u201d.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6280\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-1980x1320.jpg 1980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-1250x833.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_costas_rgb.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Para os povos poke\u2019e &#8211; povos da terra &#8211; adentrar as matas exige respeito e autoriza\u00e7\u00e3o, como mostra a tradi\u00e7\u00e3o Terena. (Foto: Eliel Dias)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6281\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-300x200.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-768x512.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-1980x1320.jpg 1980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-1250x833.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb-400x267.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/foto_eliel_rgb.jpg 2000w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Com uma cultura intimamente ligada \u00e0 natureza, os povos origin\u00e1rios vivem em rela\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica com o meio ambiente. A ind\u00edgena Terena Maria Auxiliadora refor\u00e7a a import\u00e2ncia do respeito ao usufruir de elementos que a floresta fornece aos povos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-f610823cc5c330e1f072d7995fba5d9e\">\u201cEu pe\u00e7o licen\u00e7a aos seres da mata, n\u00e3o vou destruir, porque ali \u00e9 a casa deles e eu pe\u00e7o prote\u00e7\u00e3o. Acredito muito nos poderes do fogo, ar e \u00e1gua, pois isso \u00e9 a cren\u00e7a essencial ind\u00edgena. O maior cuidado que temos \u00e9 isso: respeitar, pedir licen\u00e7a e principalmente, usar sem degradar\u201d<\/h5>\n\n\n\n<p>A cantora, compositora e escritora de etnia Guarani Kaiow\u00e1, Mc Anarand\u00e1, tamb\u00e9m enfatiza que os povos ind\u00edgenas atuam como guardi\u00f5es da natureza ao cuidarem de recursos essenciais, como as nascentes de \u00e1gua que abastecem tanto as aldeias quanto as cidades. \u201cO territ\u00f3rio ind\u00edgena envolve uma conviv\u00eancia ligada \u00e0 espiritualidade, \u00e0 cultura e aos costumes, que hoje s\u00e3o pouco preservados por conta da invas\u00e3o cultural. A demarca\u00e7\u00e3o de terras vem justamente como uma forma de prote\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contrapartida ao cuidado ind\u00edgena com a natureza, o setor industrial e produtivo, principalmente no \u00e2mbito agropecuarista, acelera a crise nos ecossistemas. O Relat\u00f3rio Anual de Desmatamento (RAD) do MapBiomas, de 2024, revela que a agropecu\u00e1ria \u00e9 o principal agente causador do desmatamento da vegeta\u00e7\u00e3o nativa no Brasil, sendo o respons\u00e1vel por mais de 97% da devasta\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos seis anos. A expans\u00e3o agr\u00edcola, especialmente para pastagens e monoculturas, predomina na convers\u00e3o de \u00e1reas nativas em \u00e1reas devastadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Entre armas, o sangue anda solto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de um sinal de alerta para a conserva\u00e7\u00e3o ambiental, o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio intensifica os conflitos territoriais que envolvem povos origin\u00e1rios em diferentes regi\u00f5es do pa\u00eds. O cacique Elcio Gon\u00e7alves, de etnia Terena, aponta esse setor como um dos principais agentes de press\u00e3o sobre seus territ\u00f3rios, por causa da expans\u00e3o de monoculturas e das \u00e1reas de pastagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a disputa por terras se torna um dos principais focos de tens\u00e3o no meio rural brasileiro. Elcio argumenta que o agroneg\u00f3cio est\u00e1 em ascens\u00e3o, o que no \u00e2mbito econ\u00f4mico favorece o Brasil e o mundo como um todo, mas que, se n\u00e3o pensado conjuntamente, pode prejudicar o meio ambiente, o pr\u00f3prio ser humano e, obviamente, a viv\u00eancia nos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. \u201cMato Grosso do Sul tem sido impactado negativamente, o agroneg\u00f3cio est\u00e1 crescendo em volta da nossa comunidade ao mesmo tempo que prejudica nossos rios e nossa fauna. A natureza inteira est\u00e1 sofrendo\u2019\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa disputa territorial representa mais que um perigo para o meio ambiente, tamb\u00e9m uma amea\u00e7a \u00e0 integridade f\u00edsica dos povos ind\u00edgenas. O caso Oziel Gabriel, morto por arma de fogo em 2013, durante uma a\u00e7\u00e3o de desocupa\u00e7\u00e3o na Terra Indigena Buriti, em MS, assombra ativistas at\u00e9 os dias de hoje e dificulta ainda mais a luta. \u2018\u2019\u00c9 uma inseguran\u00e7a, porque por mais que sua terra esteja demarcada, ainda existe esse medo, n\u00f3s pensamos que se ficarmos na ponta de um enfrentamento, pode acontecer o que aconteceu com o Oziel\u2019\u2019, afirmou Maria Auxiliadora, da etnia Terena.<\/p>\n\n\n\n<p>MS \u00e9 l\u00edder recorrente no ranking de viol\u00eancia contra povos ind\u00edgenas. Segundo dados divulgados pelo Cimi em julho de 2024, o estado registrou mais de 90 agress\u00f5es e 43 delas resultaram em mortes. Xulite Lopes, em Coronel Sapucaia; Dorival Benites, em Sete Quedas; Nisio Gomes, em Ponta Por\u00e3; Rolindo e Genivaldo Vera, em Paranhos; Oziel Gabriel, em Buriti, s\u00e3o v\u00edtimas mortais de atentados a terras ind\u00edgenas em MS.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-06b66736b2c48bd67aadcd8ccd56ef90\">Xulite Lopes, em Coronel Sapucaia; Dorival Benites, em Sete Quedas; Nisio Gomes, em Ponta Por\u00e3; Rolindo e Genivaldo Vera, em Paranhos; Oziel Gabriel, em Buriti, s\u00e3o v\u00edtimas mortais de atentados a terras ind\u00edgenas em MS.<\/h5>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o medo n\u00e3o \u00e9 apenas sentido pelo uso de rev\u00f3lveres, aparece tamb\u00e9m com os venenos qu\u00edmicos conhecidos como agrot\u00f3xicos. De um lado, comunidades ind\u00edgenas reivindicam a prote\u00e7\u00e3o de seus territ\u00f3rios tradicionais, assegurados pela Constitui\u00e7\u00e3o, e maior cuidado com o meio ambiente. Do outro, o agroneg\u00f3cio avan\u00e7a impulsionado pela demanda por produ\u00e7\u00e3o em larga escala, especialmente de commodities como soja e carne. Esse movimento tem sido associado ao uso intensivo de agrot\u00f3xicos em \u00e1reas pr\u00f3ximas \u00e0s terras ind\u00edgenas, o que pode afetar diretamente a sa\u00fade e o modo de vida dessas popula\u00e7\u00f5es, segundo relat\u00f3rio divulgado em dezembro de 2025 pelo Cimi.<\/p>\n\n\n\n<p>As armas qu\u00edmicas, como os povos origin\u00e1rios chamam os agrot\u00f3xicos utilizados pelos produtores rurais, s\u00e3o, portanto, um temor. De acordo com um estudo realizado pela ag\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO, sigla em ingl\u00eas), o Brasil usou, em 2021, 10,9 quilos de agrot\u00f3xicos para cada hectare de lavoura. Ainda no mesmo estudo, quando se dividia este n\u00famero por habitantes, chegava-se a 3,31 kg de agrot\u00f3xicos por pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto sentido na terra reverbera nos alimentos produzidos e consumidos pelos povos origin\u00e1rios, e atinge a integridade f\u00edsica em todo o pa\u00eds. Em 2022, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) registrou cerca de 20 mil mortes por ano devido ao consumo de agrot\u00f3xicos. Os sintomas s\u00e3o: intoxica\u00e7\u00f5es, feridas na pele, problemas pulmonares e uma s\u00e9rie de outras doen\u00e7as. Em MS, a Terra Indigena Guyrarok\u00e1, que luta pela demarca\u00e7\u00e3o em um ambiente tomado por lavouras de soja, teve o solo e a \u00e1gua contaminados pela pulveriza\u00e7\u00e3o das \u00e1reas vizinhas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"819\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-1024x819.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6282\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-1024x819.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-300x240.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-768x614.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-1536x1229.jpg 1536w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-2048x1638.jpg 2048w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-1200x960.jpg 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-1980x1584.jpg 1980w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-1250x1000.jpg 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/cocar-400x320.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Com uma cultura repleta de costumes pag\u00e3os, os povos ind\u00edgenas s\u00e3o exemplos vivos de como utilizar os recursos naturais de maneira saud\u00e1vel. (Foto: Maria Edite Vendas) <\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>No fim, a abund\u00e2ncia de agrot\u00f3xicos nos alimentos, nas \u00e1guas e no meio ambiente n\u00e3o \u00e9 um problema exclusivo aos povos origin\u00e1rios. Assim como a destrui\u00e7\u00e3o da natureza. A falta de preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente \u00e9 um perigo para toda a sociedade. Uma falha coletiva. Os povos ind\u00edgenas, e seus territ\u00f3rios, parecem representar a \u00faltima barreira que impede a queda do c\u00e9u, como pressagiou o escritor, l\u00edder pol\u00edtico e xam\u00e3 Yanomami, Davi Kopenawa.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-accent-background-color has-text-color has-background has-link-color has-text-align-left wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-106\/\"><mark style=\"background-color:#e02828\" class=\"has-inline-color has-primary-color\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 106<\/mark><\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disputas para regulariza\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rios ind\u00edgenas, prejudica o acesso \u00e0 condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de sobreviv\u00eancia e dificulta a preserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente Texto: Jo\u00e3o Pedro Zequini | Maria Edite Vendas | Maria Fernanda Moura Em todo o desenrolar do livro Iracema, cl\u00e1ssico da literatura brasileira publicado em 1865, e em toda a trilogia, que conta com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[48],"tags":[],"class_list":["post-5956","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-reportagem106"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5956","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/35"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5956"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5956\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6843,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5956\/revisions\/6843"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5956"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5956"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5956"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}