{"id":5965,"date":"2026-06-25T17:15:27","date_gmt":"2026-06-25T21:15:27","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5965"},"modified":"2026-06-25T17:27:14","modified_gmt":"2026-06-25T21:27:14","slug":"agro-e-o-dono-da-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/agro-e-o-dono-da-verdade\/","title":{"rendered":"Agro \u00e9 o dono da verdade?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-ad8ec35f17aa51e583b8f20f233b8190\"><strong>Texto: <a href=\"mailto:lis.sanches@ufms.br\">Lis Luna<\/a> |<a href=\"yasmim.b.kawabe@ufms.br\" data-type=\"link\" data-id=\"yasmim.b.kawabe@ufms.br\">Yasmim Kawabe<\/a> <\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Lis Luna<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>\u201cMas se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem tamb\u00e9m pode corromper o pensamento\u201d. O trecho do livro <em>1984<\/em>, escrito por George Orwell, foi publicado pela primeira vez em 1949. A obra \u00e9 considerada prof\u00e9tica: o protagonista Winston Smith trabalha no Minist\u00e9rio da Verdade, cumprindo a fun\u00e7\u00e3o de controlar e falsificar as informa\u00e7\u00f5es transmitidas \u00e0 na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como na obra de Orwell, a Organiza\u00e7\u00e3o N\u00e3o Governamental (ONG) De Olho No Material Escolar (Donme) segue o mesmo intuito de controlar a narrativa ao substituir os termos relacionados ao agroneg\u00f3cio para palavras com conota\u00e7\u00e3o menos nociva nos livros did\u00e1ticos. A ONG tem o objetivo de tornar o agro mais positivo aos olhos dos estudantes e disponibiliza em seu site uma \u201cagroteca\u201d, que cont\u00e9m desde artigos a gibis com narrativas suavizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Assuntos sobre pecu\u00e1ria e agricultura est\u00e3o presentes na vida das alunas e alunos desde o Ensino Fundamental 2, com quest\u00f5es de economia e trabalho em espa\u00e7os rurais. Em fevereiro de 2026, a ag\u00eancia de checagem <em>Aos Fatos<\/em> revelou uma p\u00e1gina de um livro de Ci\u00eancias do Ensino M\u00e9dio da editora Scipione que substituiu o termo \u201cagrot\u00f3xicos\u201d por \u201cdefensivos agr\u00edcolas\u201d por press\u00e3o da Donme. Os pedidos de adultera\u00e7\u00e3o feitos pelo lobby do agro afetam outros assuntos relacionados \u00e0 expans\u00e3o agr\u00edcola, como o desmatamento e as queimadas, que s\u00e3o pr\u00e1ticas comuns para a convers\u00e3o de biomas em pastos e lavouras.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos financiadores da Donme \u00e9 Christian Lohbauer, ex-diretor da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Exportadores de Frango (ABPA) e do Sindicato Nacional da Ind\u00fastria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). Lohbauer defende um revisionismo hist\u00f3rico, alegando que o conte\u00fado nos livros did\u00e1ticos escolares sobre a hist\u00f3ria do agro, incluindo trabalho escravo nas planta\u00e7\u00f5es de cana-de-a\u00e7\u00facar, est\u00e3o errados e transmitem desinforma\u00e7\u00f5es \u00e0s crian\u00e7as e adolescentes. Segundo o artigo sobre agroneg\u00f3cio e educa\u00e7\u00e3o de Andressa Pellanda e Marcele Frossard, de 2025, a ONG possui outros financiadores al\u00e9m de Lohbauer, como a Associa\u00e7\u00e3o Brasileira do Agroneg\u00f3cio (Abag) e a Croplife Brasil, representante das maiores fabricantes multinacionais de agrot\u00f3xicos, presidida por Lohbauer at\u00e9 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>Um v\u00eddeo publicado no site da Donme, em 2023, defende que a pecu\u00e1ria seria a solu\u00e7\u00e3o para a diminui\u00e7\u00e3o dos gases de efeito estufa, mesmo que a realidade mostre o contr\u00e1rio. Segundo o Observat\u00f3rio do Clima, o g\u00e1s metano \u00e9 respons\u00e1vel por mais de 25% do aquecimento global, sendo o agro o setor respons\u00e1vel pelo maior n\u00famero de emiss\u00f5es de g\u00e1s metano. Em 2023, o Brasil foi o quinto maior emissor de metano do mundo, com 21,1 milh\u00f5es de toneladas, sendo 75,6% resultado das atividades de agropecu\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO), em 2021, mostram que foram usadas719,5 mil toneladas de agrot\u00f3xicos nas planta\u00e7\u00f5es brasileiras. O n\u00famero \u00e9 quase tr\u00eas vezes maior do que o da China, principal produtor de agrot\u00f3xicos mundial, com 244 mil toneladas. A Uni\u00e3o Europeia \u00e9 um dos principais exportadores de agrot\u00f3xicos para o Brasil. Entre os produtos mais usados no pa\u00eds, cinco s\u00e3o proibidos de serem aplicados nos pa\u00edses europeus devido aos danos cerebrais causados em crian\u00e7as e ao c\u00e2ncer de tireoide. A promo\u00e7\u00e3o do agro \u00e9 frequente nas m\u00eddias e ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. Entre as mais famosas que exaltam o setor est\u00e1 o \u201cAgro \u00e9 pop\u201d, frase conhecida desde 2016 quando a Rede Globo come\u00e7ou a transmiti-la nos intervalos da programa\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica sertaneja tamb\u00e9m \u00e9 muito utilizada para unir o urbano com o rural e idealizar a vida narrada nas letras. Essa minimiza\u00e7\u00e3o dos danos causados pelo agroneg\u00f3cio, contudo, prejudica a educa\u00e7\u00e3o. O papel das institui\u00e7\u00f5es de ensino \u00e9 transmitir conhecimento t\u00e9cnico e com embasamento cient\u00edfico, mas isso se torna um desafio quando pretensos educadores tentam manipular os conceitos para mudar a narrativa e distorcer a realidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6232\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-1024x1024.png 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-300x300.png 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-150x150.png 150w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-768x768.png 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-1200x1200.png 1200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-1250x1250.png 1250w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-400x400.png 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653-200x200.png 200w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/7-Sem-Titulo_20260514140653.png 1472w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-accent-background-color has-text-color has-background has-link-color has-text-align-center wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-107\/\">voltar para a edi\u00e7\u00e3o 107<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Lis Luna |Yasmim Kawabe Ilustra\u00e7\u00e3o: Lis Luna \u201cMas se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem tamb\u00e9m pode corromper o pensamento\u201d. 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