{"id":5974,"date":"2026-07-02T16:57:45","date_gmt":"2026-07-02T20:57:45","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=5974"},"modified":"2026-07-07T18:41:16","modified_gmt":"2026-07-07T22:41:16","slug":"quem-narra-a-queda-do-ceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/quem-narra-a-queda-do-ceu\/","title":{"rendered":"Quem narra a queda do c\u00e9u?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-normal-font-size\"><strong><mark style=\"background-color:#000000\" class=\"has-inline-color has-accent-color\">Texto: Allan Klinsmann | Anna Bruschi | Sophia Lescano<\/mark><\/strong><br><strong><mark style=\"background-color:#000000\" class=\"has-inline-color has-accent-color\">Foto: Claudia Andujar<\/mark><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-normal-font-size\"><span style=\"color: #ffffff\">O filme\/document\u00e1rio \u201cA Queda do C\u00e9u\u201d, lan\u00e7ado em 2024, \u00e9 uma coprodu\u00e7\u00e3o Brasil-It\u00e1lia-Fran\u00e7a liderada pela produtora do Brasil, Aruac Filmes e dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha. O longa-metragem possui um desafio complexo: transformar em linguagem audiovisual um dos livros mais marcantes sobre o pensamento ind\u00edgena no pa\u00eds, A Queda do C\u00e9u: Palavras de um Xam\u00e3 Yanomami. O livro escrito por Davi Kopenawa, publicado originalmente em 2010, retrata o contato e conflito do povo Yanomami com o povo branco ou <em>nabe<\/em>, na l\u00edngua ind\u00edgena, desde os anos 1960 e a subsequente destrui\u00e7\u00e3o que esse contato trouxe. O filme n\u00e3o busca uma adapta\u00e7\u00e3o direta, mas sim uma tradu\u00e7\u00e3o sensorial de um universo que, por natureza, resiste \u00e0 simplifica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">Em vez de seguir uma narrativa linear, o document\u00e1rio acompanha o ritual <em>Reahu<\/em>, realizado na comunidade Watoriki, localizada no extremo nordeste do estado do Amazonas, dentro da Terra Ind\u00edgena Yanomami, ap\u00f3s a morte de um xam\u00e3 anci\u00e3o. A partir desse acontecimento, o filme se constr\u00f3i em deslocamento: a aldeia se move, canta, dan\u00e7a e refaz seus caminhos. \u00c9 nesse fluxo que surgem falas e reflex\u00f5es sobre a realidade vivida pelo povo. N\u00e3o h\u00e1 pressa nem didatismo, o espectador \u00e9 inserido em uma experi\u00eancia que exige aten\u00e7\u00e3o e, sobretudo, disposi\u00e7\u00e3o para observar.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">O conceito de \u201cqueda do c\u00e9u\u201d, que d\u00e1 nome \u00e0 ambas as produ\u00e7\u00f5es, refere-se a um conto antigo do povo Yanomami, que acredita que o c\u00e9u e as estrelas s\u00e3o sustentados pelos esp\u00edritos de seus antepassados e a destrui\u00e7\u00e3o provocada pelo homem amea\u00e7a esse equil\u00edbrio. Esse alerta \u00e9 realizado por um xam\u00e3 que age como porta-voz da aldeia. Ele explica aos jovens que j\u00e1 viveu entre o povo branco, aprendeu sua l\u00edngua e chegou a se vestir e se portar como eles, e viu como eles enxergam o povo ind\u00edgena, e ao retornar ao seu povo, entendeu sua posi\u00e7\u00e3o como protetor dos Watoriki. O xam\u00e3 usa desse per\u00edodo como uma ret\u00f3rica para afastar qualquer desejo dos jovens de tentar viver pr\u00f3ximo ao povo branco ou aderir aos seus costumes, pregando uma guerra aberta contra a pr\u00f3pria cultura e estilo de vida entre os povos.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">Ao espectador, a ideia de algo pr\u00f3ximo a um genoc\u00eddio sendo promovido contra o povo Watoriki pode soar exagerada, contudo, a realidade \u00e9 que eles vivem em conflito constante com os garimpeiros que avan\u00e7am sobre suas terras. Segundo pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (Ipam), analisou dados entre 1985 e 2022. A atividade mineradora teve maior impacto observado entre 2016 e 2022, exatamente nas terras ind\u00edgenas, onde o garimpo cresceu 361%.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-heading\"><strong>Impacto cultural<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">Embora o longa-metragem mostre cenas longas e sem cortes demonstrando c\u00e2nticos e dan\u00e7as dos Watoriki, infelizmente n\u00e3o h\u00e1 qualquer explica\u00e7\u00e3o para o espectador sobre o que est\u00e1 sendo dito, o que acaba causando desconforto para quem \u00e9 mais acostumado com uma estrutura mais explicativa de document\u00e1rios atuais. O destaque fica na capacidade da produ\u00e7\u00e3o de exibir uma contradi\u00e7\u00e3o inevit\u00e1vel: a presen\u00e7a do mundo exterior j\u00e1 faz parte da vida dentro da aldeia.&nbsp;<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff\">Mulheres usam shorts de tecido sint\u00e9tico enquanto enxergam seus reflexos em espelhos para realizar a pintura em seus rostos de forma mais clara, homens andam com camisetas de times cariocas de futebol no meio da mata. Um r\u00e1dio comunicador, operado pelo xam\u00e3-l\u00edder, tornou-se o principal meio de contato do povo Watoriki com outras tribos e o mundo. \u00c9 por ele que um anci\u00e3o relata que d\u00e9cadas atr\u00e1s, o avan\u00e7o do garimpo custou a vida de seu pai, deixou os rios turvos pelo uso de metais pesados da minera\u00e7\u00e3o e trouxeram surtos de mal\u00e1ria, que vitimaram muitos de seu povo, incluindo crian\u00e7as, al\u00e9m de miss\u00f5es religiosas que tentam converter seu povo ao cristianismo. Esses elementos n\u00e3o aparecem como ruptura, mas como sinais de uma transforma\u00e7\u00e3o em curso. O povo Yanomami incorpora e ressignifica ferramentas para se proteger e resistir.<\/span><\/p>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff;\">O resultado \u00e9 uma obra que n\u00e3o oferece respostas nem fechamento. E isso n\u00e3o \u00e9 um problema estrutural, mas um reflexo da pr\u00f3pria realidade retratada. O conflito continua, as amea\u00e7as persistem e a sensa\u00e7\u00e3o final \u00e9 de incompletude. A queda do c\u00e9u j\u00e1 come\u00e7ou para os Yanomami, e n\u00e3o deixa d\u00favida de que quem est\u00e1 empurrando o c\u00e9u, \u00e9 o mesmo povo que filmou suas hist\u00f3rias.<\/span><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"861\" height=\"800\" data-id=\"5982\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/resenha-foto-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5982\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/resenha-foto-1.jpg 861w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/resenha-foto-1-300x279.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/resenha-foto-1-768x714.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/resenha-foto-1-400x372.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 861px) 100vw, 861px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">&#8220;Quando n\u00e3o houver mais nenhum deles vivo para sustentar o c\u00e9u, ele vai desabar.&#8221;  Davi Kopenwawa<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-106\/\">Voltar para edi\u00e7\u00c3O 106<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Allan Klinsmann | Anna Bruschi | Sophia LescanoFoto: Claudia Andujar O filme\/document\u00e1rio \u201cA Queda do C\u00e9u\u201d, lan\u00e7ado em 2024, \u00e9 uma coprodu\u00e7\u00e3o Brasil-It\u00e1lia-Fran\u00e7a liderada pela produtora do Brasil, Aruac Filmes e dirigido por Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha. 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