{"id":6117,"date":"2026-07-02T16:58:35","date_gmt":"2026-07-02T20:58:35","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=6117"},"modified":"2026-07-07T18:40:51","modified_gmt":"2026-07-07T22:40:51","slug":"a-guerra-e-a-terra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/a-guerra-e-a-terra\/","title":{"rendered":"A guerra e a terra"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-cb9b66d6ba337eb933cc0053fcc96f9b\"><strong>Texto: Clara Dias | Helena Fuzineli <br>Ilustra\u00e7\u00e3o: Erick Fernandes <\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p>Quando passeava pelas fronteiras palestinas em 2021 jamais imaginaria que, ao fim de 2023, n\u00e3o restariam nem as ruas que por ali andei. Na \u00e9poca de minha viagem, ainda n\u00e3o tinha no\u00e7\u00e3o que na extens\u00e3o de meus p\u00e9s perduraria uma guerra hist\u00f3rica. Em menos de um ano, o cen\u00e1rio relativamente calmo que vi foi substitu\u00eddo por ru\u00ednas indistintas do que um dia foi territ\u00f3rio palestino. Onde antes pulsava uma terra de promessas e vida, hoje estende-se um horizonte de destrui\u00e7\u00e3o, cada vez mais distante para aqueles que foram impedidos de voltar. Entre esses rostos est\u00e1 Enas Hamdan, que chegou ao Brasil em janeiro de 2026 com seus dois filhos. Sua trajet\u00f3ria exp\u00f5e uma realidade onde o deslocamento humano \u00e9 o est\u00e1gio final de um processo de sufocamento territorial que remonta d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender o que for\u00e7ou Enas a buscar um lar em solo brasileiro, \u00e9 preciso olhar para as ra\u00edzes do conflito no territ\u00f3rio palestino. O doutor em geografia Marcos Timot\u00e9o Rodrigues de Sousa explica que o conflito no territ\u00f3rio palestino n\u00e3o \u00e9 um evento recente, \u00e9 complexo e multifacetado. A forma\u00e7\u00e3o do Estado de Israel se deu em 1948, impulsionado pelo sionismo (\u00e9 um movimento ultra nacionalista judeu que defende a cria\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o do Estado de Israel), tem ra\u00edzes na busca por expans\u00e3o territorial, na partilha do territ\u00f3rio pelo Reino Unido e a Fran\u00e7a em uma confer\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). O povo judeu, embora minoria no territ\u00f3rio, detinha, j\u00e1 naquele momento, a maioria da for\u00e7a produtiva, pol\u00edtica e militar, e a partir da d\u00e9cada de 1960 passou a contar com forte apoio dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os palestinos at\u00e9 ent\u00e3o eram maioria na regi\u00e3o e, com o avan\u00e7o do sionismo, foram for\u00e7ados a se retirarem para a parte mais seca e \u00e1rida do pa\u00eds. Por consequ\u00eancia, passaram a possuir uma capacidade produtiva inferior, um estilo de vida mais humilde e simples. Com a dificuldade hist\u00f3rica em sobreviver, a recente guerra que assola a regi\u00e3o abalou uma realidade que j\u00e1 estava fragilizada.<\/p>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria da palestina Enas Hamdan \u00e9 marcada por duas rupturas distintas. Se a ida ao Egito com seus dois filhos foi uma fuga s\u00fabita e for\u00e7ada pela urg\u00eancia de n\u00e3o perecer, a vinda ao Brasil representou uma escolha deliberada em busca de terra firme. Enquanto o primeiro ref\u00fagio foi ditado pelo desespero, o solo brasileiro tornou-se o palco de uma liberdade reinventada, uma decis\u00e3o tomada para transformar a sobreviv\u00eancia em destino.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra transfigurou a paisagem de Enas e da popula\u00e7\u00e3o palestina. Onde outrora se desenhavam avenidas, feiras e paisagens naturais, hoje restam apenas ru\u00ednas, acampamentos improvisados e montanhas de lixo insalubres. Enas descreve seu povo como pessoas que amam a vida e a terra, empenhados em adotar medidas sustent\u00e1veis, como o uso de pain\u00e9is solares e a pr\u00e1tica da reciclagem, e em 2026 vivem inviabilizados pela destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O que antes era um esfor\u00e7o coletivo por autonomia e dignidade foi sistematicamente destru\u00eddo \u00e0 medida que a ofensiva genocida aniquilou a infraestrutura de Gaza, colapsando os sistemas de esgoto e as redes el\u00e9tricas. Enas relata como os sistemas de dessaliniza\u00e7\u00e3o da \u00e1gua foram destru\u00eddos, as fam\u00edlias foram for\u00e7adas a caminhar longas dist\u00e2ncias e enfrentar horas de fila pelo m\u00ednimo de \u00e1gua pot\u00e1vel. Somado ao desabastecimento, o apag\u00e3o digital foi imposto por bombardeios estrat\u00e9gicos contra torres de telecomunica\u00e7\u00e3o. Com o acesso \u00e0 internet restrito a cart\u00f5es de dados caros e escassos, a conex\u00e3o com o mundo passou a depender da energia de baterias recarregadas pelos poucos pain\u00e9is solares que resistiram aos ataques.<\/p>\n\n\n\n<p>O colapso de todos esses sistemas n\u00e3o s\u00e3o apenas danos colaterais da guerra, configuram o que Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental, chama de ecoc\u00eddio, conceituado como a destrui\u00e7\u00e3o premeditada e intencional de ecossistemas. S\u00e3o danos muitas vezes irrevers\u00edveis, como a destrui\u00e7\u00e3o de florestas para impedir o abrigo de oponentes ou o bombardeio de fontes de \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m da destrui\u00e7\u00e3o imediata, os conflitos armados deixam cicatrizes na terra que comprometem gera\u00e7\u00f5es. Bocuhy explica que as emiss\u00f5es de carbono resultantes de explos\u00f5es permanecem na atmosfera por centenas de anos, tornando o rastro da guerra um fardo clim\u00e1tico permanente. Al\u00e9m disso, quando ind\u00fastrias tornam-se alvos, ocorre uma contamina\u00e7\u00e3o qu\u00edmica intensa e imediata, esse envenenamento de solos e recursos h\u00eddricos gera danos t\u00f3xicos agudos que desafiam qualquer tentativa de remedia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u201carma clim\u00e1tica\u201d manifesta-se de forma cruel no continente africano, para al\u00e9m da trag\u00e9dia presenciada por Enas, ao sul do Egito, o Sud\u00e3o enfrenta uma nova guerra civil, pouco vista pela grande m\u00eddia. Envolvendo duas fac\u00e7\u00f5es: as For\u00e7as de Apoio R\u00e1pido (RSF) e as For\u00e7as Armadas do Sud\u00e3o (SAF), os conflitos armados se somam \u00e0 seca e causam um estado de acelerada deteriora\u00e7\u00e3o do solo. O evento \u00e9 considerado a maior crise humanit\u00e1ria da atualidade, h\u00e1 constante priva\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de alimentos, \u00e1gua e energia, focados em grupos \u00e9tnicos espec\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio publicado pelo Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (Acnur) em junho de 2025, confirma a tend\u00eancia global: a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e os conflitos armados est\u00e3o fortemente relacionados. Um quarto das crises globais entre 2014 e 2018 teve os recursos naturais como piv\u00f4 da disc\u00f3rdia. Essa estat\u00edstica revela um ciclo vicioso ,alimentado por uma invers\u00e3o de prioridades financeiras gritante: enquanto a escassez de recursos gera guerra, o mundo opta por financiar o combate em vez da preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto \u00e9 gasto anualmente tr\u00eas trilh\u00f5es de d\u00f3lares em armamentos sob o pretexto da &#8220;seguran\u00e7a nacional&#8221;, estima-se que apenas 200 bilh\u00f5es seriam necess\u00e1rios para resolver os principais riscos clim\u00e1ticos globais, de acordo com pesquisas feitas pelo Conflict and Environment Observatory (CEOBS). Essa prioridade b\u00e9lica \u00e9 uma confiss\u00e3o de culpa das na\u00e7\u00f5es, o foco na &#8220;seguran\u00e7a nacional&#8221; impede que as na\u00e7\u00f5es colaborem na solu\u00e7\u00e3o de problemas humanos urgentes, priorizando o investimento b\u00e9lico em detrimento da sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria de Enas Hamdan nos revela que a imigra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada \u00e9 o reflexo de um caos que a escala global insiste em ignorar. Em 2024, j\u00e1 somavam 123 milh\u00f5es de refugiados por guerras e persegui\u00e7\u00f5es, um contingente que, ao buscar abrigo com cerca de 170 conflitos ativos no mundo, os n\u00fameros pressionam os sistemas de sa\u00fade e emprego em pa\u00edses receptores e transferem o &#8220;reflexo do caos&#8221; para a escala global. A vinda de Enas ao Brasil personifica essa busca por terra firme em meio \u00e0 incerteza. A escolha pelo solo brasileiro n\u00e3o foi um plano de vida anterior, mas uma oportunidade de resist\u00eancia intelectual viabilizada pelo Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB), que oferece bolsas de mestrado e doutorado.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao trocar o horizonte da Europa ou do Golfo por uma bolsa de Doutorado no Brasil, Enas demonstra que o ref\u00fagio, para al\u00e9m da fuga, \u00e9 uma tentativa deliberada de n\u00e3o permitir que a guerra aniquile tamb\u00e9m sua autonomia de pensamento e de decidir seu futuro. Em contextos de vulnerabilidade, migrar torna-se a \u00fanica forma poss\u00edvel de garantir a sobreviv\u00eancia, especialmente para popula\u00e7\u00f5es que dependem diretamente da agricultura, pesca ou da integridade clim\u00e1tica de seu territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A guerra contra a terra \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, uma guerra contra n\u00f3s mesmos. Enquanto o rastro de carbono e o envenenamento qu\u00edmico silenciam o futuro de territ\u00f3rios inteiros, a resili\u00eancia de refugiados como Enas nos lembra do que realmente est\u00e1 em jogo. N\u00e3o se trata apenas de migra\u00e7\u00f5es ou estat\u00edsticas do Acnur, mas da urg\u00eancia de escolhermos entre financiar o fim do mundo ou investir na continuidade da vida. Afinal, para quem busca terra firme, a maior fronteira a ser derrubada \u00e9 a da indiferen\u00e7a global.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"722\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/opinativo-1024x722.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6140\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/opinativo-1024x722.jpg 1024w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/opinativo-300x212.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/opinativo-768x541.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/opinativo-400x282.jpg 400w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/opinativo.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-106\/\">VOLTAR PARA EDI\u00c7\u00c3O 106<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Clara Dias | Helena Fuzineli Ilustra\u00e7\u00e3o: Erick Fernandes Quando passeava pelas fronteiras palestinas em 2021 jamais imaginaria que, ao fim de 2023, n\u00e3o restariam nem as ruas que por ali andei. 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