{"id":6189,"date":"2026-06-25T17:13:46","date_gmt":"2026-06-25T21:13:46","guid":{"rendered":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/?p=6189"},"modified":"2026-06-25T17:27:59","modified_gmt":"2026-06-25T21:27:59","slug":"entre-correntes-douradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/entre-correntes-douradas\/","title":{"rendered":"Entre correntes douradas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-center has-accent-color has-text-color has-link-color wp-elements-2e026f8d6130f0c0ce3c6ca4bcf3dd4c\"><strong>Texto: &nbsp;Emelyn Gomes |&nbsp; Kamilly Fernandes | Wandril Martins<br>Ilustra\u00e7\u00e3o: Emelyn Gomes<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"13780\" height=\"8457\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2026\/05\/desenhoo-certo-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6221\"\/><\/figure>\n\n\n\n<p>Oi, sou a Dourada, conhecida como o grande bagre dourado, peixe de couro, brilhante. Minha esp\u00e9cie existe h\u00e1 milh\u00f5es de anos e eu vim contar um pouco da minha hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas\u00e7o onde o rio nasce, nas \u00e1guas apressadas das cabeceiras da Bacia Amaz\u00f4nica, entre Peru, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia e Equador. Ali, onde tudo ainda \u00e9 in\u00edcio, o movimento j\u00e1 existe antes de mim e eu apenas continuo. Meu caminho \u00e9 longo, percorro mais de onze mil quil\u00f4metros, um dos maiores percursos de \u00e1gua doce do mundo!<\/p>\n\n\n\n<p>Des\u00e7o pelos rios, carregada pela corrente. Atravesso pa\u00edses sem reconhecer fronteiras, cruzo florestas densas, passo por \u00e1guas que mudam de cor, de temperatura e de for\u00e7a. O que come\u00e7a estreito, se alarga. O que era silencioso, se enche de vida. No percurso, eu tamb\u00e9m mudo. Cres\u00e7o. O rio n\u00e3o apenas me leva, ele me constr\u00f3i. Cada caminho deixa algo em mim, cada travessia se acumula, cada encontro permanece.<\/p>\n\n\n\n<p>Carrego no corpo a mem\u00f3ria das \u00e1guas por onde passei. Sedimentos, nutrientes, vidas invis\u00edveis. O que atravesso n\u00e3o fica para tr\u00e1s, segue comigo, se mistura, continua em outros lugares. No rio nada se perde, tudo encontra outro caminho, outro rumo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de tanto descer, encontro o mar. Ali, onde o rio se abre e parece perder nome, eu permane\u00e7o por um tempo. Cres\u00e7o mais um pouco, me fortale\u00e7o, me preparo. \u00c9 nesse encontro entre rio e oceano que ganho a for\u00e7a de que preciso. O tempo desacelera, se alonga, como se fosse poss\u00edvel permanecer naquele espa\u00e7o onde tudo se mistura.<br>Mas algo em mim n\u00e3o me permite permanecer. H\u00e1 um caminho que me chama, e eu sigo por ele. Em algum momento, quase sem aviso, o movimento muda de sentido. \u00c9 um impulso que estilha\u00e7a e dilacera o corpo inteiro. O mesmo rio que me levou agora me chama de volta, e eu respondo.<\/p>\n\n\n\n<p>Subo.<\/p>\n\n\n\n<p>Contra a corrente, contra o peso da \u00e1gua, contra o caminho mais f\u00e1cil. Cada metro exige for\u00e7a, cada trecho imp\u00f5e resist\u00eancia. O que antes me conduzia agora me desafia. A \u00e1gua empurra, o corpo insiste. E, ainda assim, eu continuo.<\/p>\n\n\n\n<p>Subir n\u00e3o \u00e9 apenas voltar. \u00c9 vivenciar o rio de outra maneira. \u00c9 reconhecer caminhos j\u00e1 percorridos sob outra for\u00e7a, outro tempo, outro corpo. No caminho de volta, atravesso novamente o encontro entre rio e mar. Ali, a \u00e1gua doce e salgada se misturam, a corrente muda, o movimento responde \u00e0s mar\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p>O percurso nunca termina na chegada. Ele se completa no fluxo.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto me movimento, conecto o que parece distante. Florestas, rios, comunidades. O meio ambiente me mant\u00e9m viva. O que passa por mim continua, o que circula comigo sustenta outras vidas. Eu brilho. Ao longo do meu caminho, vidas inteiras se sustentam nesse fluxo. Povos ribeirinhos dependem do rio e do alimento que ele oferece. E eu sigo como parte do que mant\u00e9m essas vidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou sustento, presen\u00e7a no cotidiano de quem vive \u00e0s margens dessas \u00e1guas. Sou tamb\u00e9m sinal. Quando consigo completar minha jornada, o rio ainda est\u00e1 vivo. Quando sigo, \u00e9 porque seus caminhos permanecem abertos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando esse percurso \u00e9 interrompido, n\u00e3o \u00e9 apenas a minha viagem que se rompe, outras esp\u00e9cies de peixes migrat\u00f3rios tamb\u00e9m sofrem. Nos rios do Pantanal e na bacia do rio Paraguai, meus primos, como o pintado e o dourado, atravessam longas dist\u00e2ncias seguindo o fluxo das \u00e1guas para completar seus ciclos de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Barragens, contamina\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7as no curso da \u00e1gua alteram o que sempre foi cont\u00ednuo, n\u00e3o \u00e9 apenas um caminho que desaparece, mas ciclos inteiros que deixam de existir. E, quando arrebenta, o impacto se espalha. Atravessa ecossistemas, alcan\u00e7a pessoas, muda tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque n\u00e3o existe vida isolada aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>Se o meio ambiente cresce, eu tamb\u00e9m cres\u00e7o. Se seus canais fluem livres, eu tamb\u00e9m sigo. O que acontece em uma parte da \u00e1gua atravessa todas as outras partes. E, enquanto esse movimento continua, a vida tamb\u00e9m continua. Viva.<br>Sou parte de um sistema que sustenta o mundo. Parte de uma rede que liga nascente, floresta, rio e mar. N\u00e3o sou s\u00f3 passageira. Sou planeta de \u00e1gua l\u00edquida. Os rios me levam para longe, mas nunca me afastam.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que tudo se conecta.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-16018d1d wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-accent-background-color has-background wp-element-button\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-107\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 107<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: &nbsp;Emelyn Gomes |&nbsp; Kamilly Fernandes | Wandril MartinsIlustra\u00e7\u00e3o: Emelyn Gomes Oi, sou a Dourada, conhecida como o grande bagre dourado, peixe de couro, brilhante. Minha esp\u00e9cie existe h\u00e1 milh\u00f5es de anos e eu vim contar um pouco da minha hist\u00f3ria. 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