{"id":644,"date":"2020-07-16T11:22:47","date_gmt":"2020-07-16T15:22:47","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=644"},"modified":"2020-07-29T10:25:35","modified_gmt":"2020-07-29T14:25:35","slug":"periferia-nao-e-problema-e-solucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/periferia-nao-e-problema-e-solucao\/","title":{"rendered":"Periferia n\u00e3o \u00e9 problema, \u00e9 solu\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-color has-text-align-center has-accent-color\"><strong>Texto: Patrick Rosel<\/strong><br><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Maria Eduarda Boin<\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"706\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/artigo-periferia-madu.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-646\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/artigo-periferia-madu.jpg 800w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/artigo-periferia-madu-300x265.jpg 300w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/artigo-periferia-madu-768x678.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/07\/artigo-periferia-madu-400x353.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A gente cresce ouvindo que \u00e9 perigoso morar nessa regi\u00e3o, que as pessoas n\u00e3o s\u00e3o muito confi\u00e1veis e que na primeira oportunidade precisa sair dali. \u00c9 isso que voc\u00ea escuta quando vive numa comunidade perif\u00e9rica. Quando pequeno, eu nunca entendi muito bem o porqu\u00ea, mas a gente amadurece e vai enxergando o estigma que as pessoas t\u00eam sobre esses lugares. Bom, eu cresci e ainda estou aqui, na verdade sempre estive.<\/p>\n<p>Na periferia a vida \u00e9 simples, mas tamb\u00e9m complexa. \u00c9 preciso saber driblar as dificuldades diariamente e lidar com os direitos que nos s\u00e3o negados a todo momento. Apesar de tudo, as pessoas exercitam a pr\u00e1tica da empatia mesmo sem perceber, porque sabe exatamente pelo que o outro passa. Aqui as pessoas riem, choram e, principalmente, sonham. \u00c9 pulsante a manifesta\u00e7\u00e3o de vida na periferia.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio do cotidiano est\u00e3o casas simples de tijolo sem reboco que se erguem uma ao lado da outra, ziguezagueando pela ladeira. Nelas est\u00e3o fam\u00edlias, muitas vezes numerosas, que se espremem em seus pequenos c\u00f4modos e se viram para fazer m\u00e1gica com o pouco que t\u00eam. No fim da tarde, as pessoas se sentam em frente de casa e jogam conversa fora; nas f\u00e9rias, crian\u00e7as correm pelas ruas atr\u00e1s de bola e o c\u00e9u se enche de pipas; igrejas e botecos tamb\u00e9m comp\u00f5e a paisagem, cada um com seus fi\u00e9is.<\/p>\n<p>Aos finais de semana acontecem os bailes funk e as rodas de samba, o que para alguns \u00e9 s\u00f3 algazarra, para outros \u00e9 forma de ter acesso \u00e0 arte, se divertir e fazer dinheiro. Na periferia a cultura transmite valores de transforma\u00e7\u00e3o social. Ela ajuda a livrar as pessoas do tr\u00e1fico, alimenta a economia local e d\u00e1 protagonismo a quem geralmente n\u00e3o \u00e9 visto. Tamb\u00e9m, desenvolve a autoestima e articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, fazendo com que os moradores participem, se conscientizem e opinem sobre causas sociais.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, o maior problema de viol\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 dentro das comunidades. Ele vem de fora, fardado e com o argumento de \u2018combate ao tr\u00e1fico de drogas\u2019. Os tiroteios n\u00e3o s\u00f3 assustam, ferem e matam, mas tamb\u00e9m interrompem a rotina dos moradores e silenciam qualquer atividade. Quando ocorre opera\u00e7\u00e3o policial, escolas, postos de sa\u00fade e com\u00e9rcio s\u00e3o fechados. Al\u00e9m da falta de seguran\u00e7a, \u00e9 preciso lidar com os direitos b\u00e1sicos sendo restringidos e violados, pois usam o territ\u00f3rio como campo de guerra no qual a bala j\u00e1 tem endere\u00e7o certo. \u00c9 de extrema necessidade que o di\u00e1logo com essas regi\u00f5es seja feito de forma n\u00e3o violenta para que novas possibilidades surjam e novas perspectivas sejam apresentadas. Assim como o racismo n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 dos negros e o machismo s\u00f3 das mulheres, a viol\u00eancia nas comunidades por parte do Estado n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 dos moradores.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe gente do bem e gente do mal. Existem pessoas que s\u00e3o discriminadas por viverem aonde vivem, que acordam todos os dias antes do sol e pegam transporte p\u00fablico lotado, que \u00e0s vezes precisam omitir onde moram para talvez conseguir uma vaga de emprego e que sonham com a possibilidade de uma vida melhor ali ou fora dali. \u00c9 preciso enxergar a pot\u00eancia desses lugares, sua riqueza hist\u00f3rica e cultural, n\u00e3o aceitar a imagem distorcida que nos \u00e9 vendida. A periferia vive, resiste e precisa ser vista com bons olhos. Abra os seus.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/ed-94\/\">voltar para a edi\u00e7\u00e3o 94<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Patrick RoselIlustra\u00e7\u00e3o: Maria Eduarda Boin A gente cresce ouvindo que \u00e9 perigoso morar nessa regi\u00e3o, que as pessoas n\u00e3o s\u00e3o muito confi\u00e1veis e que na primeira oportunidade precisa sair dali. \u00c9 isso que voc\u00ea escuta quando vive numa comunidade perif\u00e9rica. Quando pequeno, eu nunca entendi muito bem o porqu\u00ea, mas a gente amadurece e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[13],"tags":[10],"class_list":["post-644","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-opiniao-94","tag-10"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=644"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/644\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":839,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/644\/revisions\/839"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}