{"id":897,"date":"2020-12-18T15:42:54","date_gmt":"2020-12-18T19:42:54","guid":{"rendered":"http:\/\/jornalismo.ufms.br\/projetil\/?p=897"},"modified":"2020-12-22T12:40:50","modified_gmt":"2020-12-22T16:40:50","slug":"%ef%bb%bfmulheres-e-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/%ef%bb%bfmulheres-e-a-pandemia\/","title":{"rendered":"\ufeffMulheres e a pandemia"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"has-text-align-center\"><span style=\"color: #ffffff;\">Precariza\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e jornada tripla: como a Covid-19 afetou a vida das mulheres<\/span><\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">Texto: Daniel Rockenbach <\/span><\/strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">(drocken@gmail.com)<\/span><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\"> e Emily Lima <\/span><\/strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\">(emilyalribeiro@gmail.com)<\/span><strong><span style=\"color:#e02828\" class=\"tadv-color\"><br>Curadoria de imagens e Ilustra\u00e7\u00e3o: Emily Lima<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>A pandemia da Covid-19 afeta a todos. Ainda assim, \u00e9 pertinente fazer um recorte e apontar para a condi\u00e7\u00e3o das mulheres em tempos de isolamento social: jornada de trabalho estressante, cuidados com casa e fam\u00edlia, viol\u00eancia dom\u00e9stica e condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias agravam ainda mais a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para a professora Zaira de Andrade Lopes, docente da gradua\u00e7\u00e3o e do mestrado em Psicologia da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a condi\u00e7\u00e3o da mulher na pandemia precisa ser vista dentro de um contexto social e pol\u00edtico historicamente constitu\u00eddo. Segundo ela, o impacto na vida das mulheres tem que ser analisado em tr\u00eas grandes eixos: trabalho, cuidado e viol\u00eancia.<\/p>\n<p>O trabalho feminino tem historicamente uma condi\u00e7\u00e3o de maior precariza\u00e7\u00e3o, algo que foi amplificado pela pandemia. Com a Covid-19 ocorreu uma intensifica\u00e7\u00e3o das atividades atribu\u00eddas ao feminino: o trabalho dom\u00e9stico, o cuidado da fam\u00edlia, dos filhos e filhas que est\u00e3o fora da escola e creches e tamb\u00e9m dos idosos. O aumento dos \u00edndices e a gravidade da viol\u00eancia dom\u00e9stica somam-se aos outros aspectos para colocar a mulher em uma condi\u00e7\u00e3o de maior fragilidade. A Covid-19 evidenciou, ainda, a vulnerabilidade das mulheres em se estruturar emocionalmente desenvolvendo sintomas de estresse, ansiedade e depress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"600\" height=\"808\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-898\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-1.jpg 600w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-1-223x300.jpg 223w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-1-400x539.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><span style=\"color: #ffffff;\">Quando o trabalho vai para casa<\/span><\/strong><\/p>\n<p>A professora Diana Pilatti \u00e9 diretora da Escola Estadual Jos\u00e9 Mamede de Aquino e tamb\u00e9m escritora. Ela lan\u00e7ou em setembro, em plena pandemia, seu livro \u201cPalavras p\u00f3stumas\u201d, no qual re\u00fane em forma de poesia relatos de abusos que colheu ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Para Diana, o isolamento chegou confuso, sem orienta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas e qualquer preparo para a nova realidade: \u201cQuando come\u00e7ou a pandemia, era meio surreal a coisa. Eu n\u00e3o tinha muita ideia de como isso me afetaria. Conforme o tempo foi passando, a rotina ficou bastante puxada. Fazer home office e trabalhar em escala \u00e9 dif\u00edcil, na minha cabe\u00e7a esse \u2018estar em casa\u2019 \u00e9 n\u00e3o estar trabalhando\u201d, pontua.<\/p>\n<p>A diretora revela dificuldade em se concentrar e regular os hor\u00e1rios, uma vez que as mensagens dos alunos e pais chegam em todos os turnos. A nova rotina exige uma administra\u00e7\u00e3o do tempo livre: \u201cIsso \u00e9 mentalmente cansativo, ent\u00e3o comecei a me policiar para tentar separar melhor o tempo, tentar fazer um pouco de atividade f\u00edsica em casa, regular o hor\u00e1rio, realizar alguma coisa que gosto, ler um livro, assistir um filme. Desligo o celular, mas confesso que desligo com aquele peso na consci\u00eancia de que se algu\u00e9m ligar eu preciso atender porque \u00e9 minha obriga\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Sobre o processo de ensino remoto, Diana conclui: \u201cOs professores foram mudando a forma de fazer as atividades, mudando a explica\u00e7\u00e3o, porque na escola a gente n\u00e3o recebeu orienta\u00e7\u00f5es sobre como dar essa aula remota, a gente foi aprendendo fazendo, ent\u00e3o foi um laborat\u00f3rio um tanto triste.\u201d<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"><strong>A alternativa do empreendedorismo<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Uma alternativa ao trabalho da mulher que tantas vezes se mostra prec\u00e1rio e que pode constituir uma fonte de renda \u00e9 o empreendedorismo. Para se ter uma ideia, segundo dados do Servi\u00e7o Brasileiro de Apoio \u00e0s Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), em 2019, 24 milh\u00f5es de mulheres empreendiam no Brasil, em compara\u00e7\u00e3o a 28 milh\u00f5es de homens. Mas nem todas escaparam do agravamento da crise com a pandemia. Uma pesquisa realizada pela Rede Mulher Empreendedora (RME) e o Instituto Locomotiva com 1.165 empreendedoras durante a pandemia apontou que a crise significou a interrup\u00e7\u00e3o das atividades para 39% dos neg\u00f3cios comandados por mulheres. Outras 47% seguem em funcionamento, mas j\u00e1 sofreram os impactos negativos dos \u00faltimos meses. O problema fica ainda mais grave j\u00e1 que para 21% delas toda a renda familiar vem do neg\u00f3cio.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">Quando come\u00e7ou a pandemia, era meio surreal a coisa. Eu n\u00e3o tinha muita ideia de como isso me afetaria. Conforme o tempo foi passando, a rotina ficou bastante puxada. Fazer home office e trabalhar em escala \u00e9 dif\u00edcil, comenta Diana Pilatti<\/span><\/h5>\n<p>A pandemia, para algumas mulheres, foi um fator definitivo para que elas entrassem de vez no empreendedorismo. Para visibilizar essas trabalhadoras, o Coletivo Camalote se reuniu em torno de um objetivo: divulgar o trabalho de mulheres artistas, prestadoras de servi\u00e7os e empreendedoras durante o per\u00edodo da pandemia. Para a acad\u00eamica de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica, poeta, cantora e uma das idealizadoras do projeto, Vit\u00f3ria Mahmoud, a uni\u00e3o do coletivo ajuda a propagar assuntos importantes e tamb\u00e9m a divulgar artistas locais e pequenas empreendedoras: \u201cO principal fator \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o da mulher como capaz e independente, o que pouco se prega ainda pela sociedade. Muitas mulheres est\u00e3o na batalha para que isso seja cada vez mais visto, e que cada vez mais mulheres consigam reconhecer sua for\u00e7a e sua capacidade de conquistar o que \u00e9 seu\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 Thalya Palhares, artista independente, v\u00ea que o coletivo feminino consolida sonhos e metas de empreendedoras e artistas. &#8220;Podemos acrescentar uma \u00e0 vida da outra, incentivando e apoiando, ganhando espa\u00e7o todas juntas e mostrando que sororidade existe sim e que estamos aqui para fazer a diferen\u00e7a e n\u00e3o para competir umas com as outras&#8221;.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"><strong>A realidade de quem cuida<\/strong><\/span><\/p>\n<p>As oportunidades econ\u00f4micas das mulheres s\u00e3o tamb\u00e9m prejudicadas pelas responsabilidades predominantemente atribu\u00eddas a elas. Historicamente, cuidados e tarefas dom\u00e9sticas, s\u00e3o &#8220;coisas de mulher&#8221;, uma realidade injusta, cruel e decorrente do patriarcado e do machismo estrutural. Trata-se do que pode ser chamado de \u201ceconomia do cuidado\u201d. S\u00e3o as mulheres que em geral tomam a frente no planejamento e no gerenciamento da casa e do cotidiano, tentando prever as necessidades de todos e se preocupando com a sa\u00fade da fam\u00edlia e tamb\u00e9m pensando no coletivo.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da bibliotec\u00e1ria aposentada Maria Antonia Cintra que est\u00e1 sozinha em isolamento desde o come\u00e7o da pandemia, uma vez que suas filhas moram em S\u00e3o Paulo. &#8220;Sou do grupo de risco pela idade. N\u00e3o adoecendo, deixo de ocupar leito em hospital. Quero que a pandemia passe logo.\u201d<\/p>\n<p>Para continuar firme em seus cuidados, Maria Antonia precisou adaptar sua rotina, que mant\u00e9m alguma semelhan\u00e7a com a vida antes da pandemia, exceto por um ponto: todas as atividades s\u00e3o virtuais. As aulas de yoga, os encontros do grupo de leitura e as reuni\u00f5es de constela\u00e7\u00e3o familiar passaram a utilizar aplicativos e tecnologias que Maria Ant\u00f4nia teve de aprender a usar.<\/p>\n<p>De Thays de Souza Nogueira, a pandemia tirou algo essencial: tempo para lamentar a perda da m\u00e3e. A m\u00e3e da servidora p\u00fablica faleceu bem no come\u00e7o de mar\u00e7o, dias antes de tudo mudar na rotina dos campo-grandenses. No dia 15, viria o decreto municipal n\u00ba 14.189, o primeiro de uma s\u00e9rie de determina\u00e7\u00f5es da Prefeitura de Campo Grande que definia regras para isolamento social de atividades com circula\u00e7\u00e3o de pessoas. Para ela, o isolamento come\u00e7ou no luto. \u201cEle chegou em um momento marcante em minha vida: exatamente um m\u00eas ap\u00f3s a morte da minha m\u00e3e. A quest\u00e3o \u00e9 que eu havia passado por um processo de acompanhamento em uma interna\u00e7\u00e3o hospitalar. A pandemia deu uma esp\u00e9cie de \u2018continuidade virtual\u2019 aos processos dolorosos pelos quais eu havia passado\u201d.<\/p>\n<p>Com a lota\u00e7\u00e3o de UTIs ficar em casa, para Thays, tornou-se obrigat\u00f3rio e doloroso: \u201cA obrigatoriedade de me manter na casa onde cresci e voltei a morar com minha m\u00e3e fez com que eu tivesse que lidar com sua permanente aus\u00eancia nos espa\u00e7os. N\u00e3o havia mais o respiro das horas di\u00e1rias passadas no local de trabalho\u201d.<\/p>\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"><strong>O aspecto que machuca<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A psic\u00f3loga social Marcia Paulino \u00e9 coordenadora de projetos da Subsecretaria Municipal da Mulher, \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela gest\u00e3o da Casa da Mulher Brasileira. Seguindo determina\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es internacionais do Direito das Mulheres como a ONU Mulheres, a Casa n\u00e3o interrompeu os atendimentos e passou a oferecer alternativas remotas nos casos em que o servi\u00e7o dependia de outras institui\u00e7\u00f5es.<br \/>Ela conta que, logo no in\u00edcio da pandemia, a restri\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o de pessoas em Campo Grande chegou aos transportes p\u00fablicos em decreto publicado no dia 18 de mar\u00e7o. Isso afetou a procura pelos servi\u00e7os oferecidos mesmo que a Casa da Mulher Brasileira estivesse com atendimento 24 horas por dia, todos os dias da semana e adotando todos os protocolos de seguran\u00e7a.<\/p>\n<p>Sobre a queda nos atendimentos, Marcia afirma que a expectativa era que a procura aumentasse mas aconteceu o inesperado: uma redu\u00e7\u00e3o de aproximadamente 40%. O \u00fanico servi\u00e7o que apresentou um ligeiro crescimento na procura foi a solicita\u00e7\u00e3o de medida protetiva na Vara de viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Para a psic\u00f3loga, pandemia e isolamento n\u00e3o s\u00e3o causas da viol\u00eancia, s\u00e3o fatores que apenas potencializaram rela\u00e7\u00f5es conflituosas que j\u00e1 existiam e passaram a ser manifestadas a partir de agress\u00f5es. &#8220;O aumento do tempo de conviv\u00eancia dom\u00e9stica e a dificuldade de lidar com esses conflitos intensificaram a situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia\u201d, pontua.<br \/>Entre os casos recebidos, Marcia conta sobre uma mulher que pediu revoga\u00e7\u00e3o da medida protetiva para que o pai pudesse voltar a comprar comida para os filhos. A respeito dele, a psic\u00f3loga observa: \u201cMuitas dessas mulheres trabalham nos servi\u00e7os informais, sem nenhuma garantia trabalhista e perderam totalmente sua renda durante a pandemia\u201d.<\/p>\n<p>Em 2019, Mato Grosso do Sul registrou cinco casos de feminic\u00eddio. Em 2020 j\u00e1 foram registrados oito casos at\u00e9 agosto, um aumento significativo de acordo com a psic\u00f3loga: \u201cA viol\u00eancia cresceu com a pandemia e se voc\u00ea procurar em outras plataformas esses dados estat\u00edsticos, a maioria vai confirmar os \u00edndices\u201d.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #ff0000;\">O aumento do tempo de conviv\u00eancia dom\u00e9stica e a dificuldade de lidar com esses conflitos intensificaram a situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia, pontua Marcia Paulino<\/span><\/h5>\n<p>Os n\u00fameros comprovam que a pandemia da Covid-19 agravou a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que mostra a nota t\u00e9cnica \u201cO Combate \u00e0 Viol\u00eancia Contra a Mulher (VCM) no Brasil em \u00c9poca de Covid-19\u201d do Banco Mundial. Registros indicam que nos primeiros dois meses de confinamento ocorreu um aumento de 22% nos casos de feminic\u00eddio e de 27% nas den\u00fancias pelo Ligue-180, em compara\u00e7\u00e3o ao mesmo per\u00edodo de 2019.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1000\" height=\"2382\" src=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-899\" srcset=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-2.jpg 1000w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-2-126x300.jpg 126w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-2-430x1024.jpg 430w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-2-768x1829.jpg 768w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-2-645x1536.jpg 645w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-2-860x2048.jpg 860w, https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/wp-content\/uploads\/sites\/2\/2020\/12\/mulheres-2-400x953.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><span style=\"color: #ffffff;\"><strong>Uma situa\u00e7\u00e3o delicada<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Sobre os casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica na pandemia, a professora Zaira de Andrade Lopes comenta: \u201cEssas viol\u00eancias s\u00e3o decorrentes do maior tempo de conviv\u00eancia com os agressores, da precariza\u00e7\u00e3o financeira e da inseguran\u00e7a generalizada e, principalmente, pela dificuldade de acesso \u00e0 rede de prote\u00e7\u00e3o para as mulheres.\u201d A viol\u00eancia n\u00e3o tem origem na precariza\u00e7\u00e3o financeira, mas o contexto da pandemia tem desencadeado uma condi\u00e7\u00e3o de maior possibilidade das agress\u00f5es se manifestarem.<\/p>\n<p>A queda dos atendimentos na Casa da Mulher Brasileira tem v\u00e1rias explica\u00e7\u00f5es poss\u00edveis: \u201cN\u00e3o \u00e9 porque as mulheres deixaram de procur\u00e1-la que a viol\u00eancia dom\u00e9stica diminuiu, n\u00f3s temos uma redu\u00e7\u00e3o da procura que pode estar associada a fatores como o isolamento, a limita\u00e7\u00e3o do transporte coletivo, o fato das crian\u00e7as estarem em casa, a pr\u00f3pria conviv\u00eancia\u201d, afirma Marcia Paulino.<\/p>\n<p>As aulas remotas corroboram os temores: de acordo com a diretora Diana Pilatti, a n\u00e3o presencialidade impede que os professores identifiquem os casos de abuso e viol\u00eancia dom\u00e9stica: \u201cComo a escola fica na periferia, a gente recebe e atende v\u00e1rias crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, que presenciaram viol\u00eancia dom\u00e9stica ou sofreram abuso, mas agora nenhum relato chegou\u201d.<\/p>\n<p>A pandemia trouxe luz aos problemas estruturais em uma sociedade patriarcal. A mulher enquanto cidad\u00e3 se v\u00ea diminu\u00edda e isso reflete no sil\u00eancio nos atendimentos dos servi\u00e7os de prote\u00e7\u00e3o, no desemprego e nas dificuldades em se empreender e no desgaste emocional de ter que dar conta de toda a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Por estarem em posi\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis, por conta da sociedade patriarcal e do machismo estrutural que insistem em assombrar e desestabilizar suas conquistas e seus direitos, as mulheres acabam precisando estar sempre em alerta e reinventando-se para que ao menos sobrevivam \u00e0s crises de forma digna.<\/p>\n<p>Como diria a escritora Simone de Beauvoir: \u201cNunca se esque\u00e7a que basta uma crise pol\u00edtica, econ\u00f4mica ou religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. Esses direitos n\u00e3o s\u00e3o permanentes. Voc\u00ea ter\u00e1 que manter-se vigilante durante toda a sua vida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link\" href=\"https:\/\/jornalismo-faalc.ufms.br\/projetil\/projetil-95\/\">voltar para edi\u00e7\u00e3o 95<\/a><\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Precariza\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e jornada tripla: como a Covid-19 afetou a vida das mulheres Texto: Daniel Rockenbach (drocken@gmail.com) e Emily Lima (emilyalribeiro@gmail.com)Curadoria de imagens e Ilustra\u00e7\u00e3o: Emily Lima A pandemia da Covid-19 afeta a todos. 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