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Reportagem 106

Por um lugar na sombra

Cidade premiada pela arborização esconde desigualdade térmica e periferias enfrentam até 5ºC mais quente que nos bairros nobres


Parques urbanos ajudam a reduzir as ilhas de calor e equilibrar o clima do bairro | Foto: Luana Passini

Campo Grande é reconhecida como uma das cidades mais arborizadas do país. Em 2026, a capital sul-mato-grossense recebeu, pela sétima vez consecutiva, o título de “Cidade Árvore do Mundo”. Nomeação concedida pela Arbor Day Foundation em parceria com a Food and Agriculture Organization. Apesar do alto índice de arborização, a distribuição das áreas verdes é desigual entre os bairros. Regiões com melhor infraestrutura concentram mais árvores, enquanto áreas periféricas apresentam menor cobertura vegetal e essa diferença impacta diretamente na temperatura e na saúde da população.

O reconhecimento internacional se baseia em critérios institucionais, como políticas públicas, planejamento e gestão ambiental, mas não necessariamente reflete a distribuição territorial das árvores no espaço urbano. Em Campo Grande, programas de plantio, manutenção e incentivo à arborização são apontados como fatores que garantem o título. Ainda assim, a média geral pode ocultar desigualdades significativas entre diferentes regiões da cidade.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2010 e 2022, indicam que mais de 90% dos domicílios da capital estão em vias com presença de árvores. No entanto, esse número não revela a intensidade dessa arborização, nem a qualidade da cobertura vegetal de cada bairro.

Onde o verde não chega

Em locais com menos arborização, o calor é mais intenso. Esse fenômeno é conhecido como ilha de calor urbana e ocorre em regiões com grande presença de concreto, asfalto e construções. O físico, doutor em Geofísica Espacial e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) Hamilton Germano Pavão, explica que esses materiais absorvem a radiação solar e depois liberam calor, elevando a temperatura. Já as áreas verdes, têm um comportamento diferente; parte da radiação é utilizada pelas plantas na fotossíntese e a evapotranspiração ajuda a liberar umidade no ambiente, reduzindo o calor. “Sem essa vegetação, com mais superfícies absorvendo calor, a tendência é o aumento da temperatura”, afirma.

Pavão descreve que outro fator contribuinte para o aquecimento, é a concentração de veículos e equipamentos de refrigeração, como o ar-condicionado. Esses equipamentos liberam calor para o ambiente externo, criando um ciclo que intensifica ainda mais as ilhas de calor. Mas esse calor não se distribui de forma igual pela cidade. Nas áreas nobres, onde o uso de ar-condicionado e a circulação de carros são mais intensos, a produção de calor é maior, porém, seus efeitos diretos são parcialmente amenizados pela presença de arborização, áreas verdes e melhor planejamento urbano, que ajudam a reduzir a temperatura local.

Como consequência, esse calor gerado não desaparece: ele é deslocado e se acumula em regiões com menor cobertura vegetal e infraestrutura mais precária. Cria-se, então, uma dinâmica desigual em que as áreas que mais produzem calor não são, necessariamente, as que mais sofrem com seus efeitos, evidenciando uma distribuição injusta dos impactos ambientais dentro da cidade.

Desigualdade que vem do crescimento urbano

A engenheira ambiental e doutoranda em Tecnologias Ambientais da UFMS Eveline Terra Bezerra pesquisa a relação entre cobertura vegetal e clima urbano e reforça que a arborização deveria ser tratada como um direito coletivo. Segundo ela, a distribuição desigual, está ligada ao próprio processo de urbanização. “A infraestrutura verde costuma ser distribuída de forma seletiva e, muitas vezes, funciona como elemento de valorização imobiliária, concentrando-se em áreas mais nobres”.

A infraestrutura verde costuma ser distribuída de forma seletiva e, muitas vezes, funciona como elemento de valorização imobiliária, concentrando-se em áreas mais nobres
Arborização urbana reduz o calor e melhora a qualidade do ar nas cidades | Foto: Luiza Ferraz 

Estudos conduzidos por Eveline em 2025, mostram disparidades internas expressivas. Enquanto algumas regiões atingem cerca de 20% de cobertura arbórea, outras não chegam a 6%. Essa variação evidencia que a média municipal, em torno de 10,78%, não representa a realidade de todos os bairros.

A bacia hidrográfica do córrego Prosa cruza os bairros Carandá Bosque, Santa Fé e Chácara Cachoeira, enquanto a do córrego Bandeira passa pelos bairros Bandeirantes, Jardim Paulista, Universitário e Rita Vieira, e apresentam índices elevados de arborização. Em contrapartida, os bairros Vivendas do Parque e Recanto dos Pássaros, atravessados pelo córrego Imbirussu, bem como o Aero Rancho, Vila Taquarussu, Vila Itamarati e Centenário pelo rio Anhanduí, registram níveis críticos de vegetação.

A relação entre arborização e desigualdade social, também aparece na forma como o espaço urbano é organizado. As ilhas de calor não são apenas um fenômeno ambiental, mas também social, já que o acesso às condições ambientais é distribuído de forma desigual entre a população. Nesse cenário, o conforto térmico muitas vezes se torna um privilégio de áreas com maior investimento, enquanto as ilhas de calor se concentram justamente onde vivem populações com menor acesso a serviços e infraestrutura ambiental.

Um sol para cada um

A ausência de pavimentação e infraestrutura, agrava desigualdades urbanas e limita a mobilidade cotidiana | Foto: Luana Passini

De acordo com Pavão, o aumento da temperatura traz consequências diretas para a população. Além de problemas de saúde, há aumento no consumo de energia e redução da produtividade. “Uma pessoa produz menos em um ambiente muito quente, comparado a um ambiente mais fresco”, explica.

Os impactos também atingem a saúde pública. Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em 2021, o calor excessivo pode agravar problemas respiratórios, causar desidratação e aumentar o risco de doenças cardiovasculares. Esses efeitos atingem especialmente crianças e idosos. Em áreas mais quentes, onde há menos arborização, essas reações tendem a ser mais intensas. Além disso, famílias de baixa renda acabam sendo mais afetadas financeiramente, já que dependem de ventiladores ou equipamentos de refrigeração por mais tempo, elevando o consumo de energia em residências que já enfrentam limitações econômicas.

Para Eveline, moradores de áreas com déficit de vegetação e alta densidade de construções, enfrentam condições mais severas justamente porque dependem diretamente da qualidade ambiental do entorno. “Essas populações têm menor capacidade financeira para mitigar o calor por meios artificiais, como o ar-condicionado, ficando mais expostas aos efeitos do clima”, explica. Esse cenário evidencia como a distribuição desigual da infraestrutura verde, se relaciona diretamente com desigualdades socioeconômicas, tornando o conforto térmico um recurso limitado a determinadas regiões da cidade.

Dados do IBGE, com base nos Censos Demográficos de 2010 e 2022, mostram que bairros periféricos concentram maior crescimento populacional. Em muitos casos, apresentam menor acesso à infraestrutura urbana no entorno dos domicílios, como pavimentação, áreas de lazer e arborização. Esse padrão amplia a exposição de uma parcela maior da população aos efeitos do calor extremo.

Em bairros periféricos a ausência de vegetação intensifica a vulnerabilidade climática. Sem sombra e com maior exposição ao calor, moradores enfrentam condições mais severas no cotidiano. Essa realidade se relaciona ao conceito de vulnerabilidade climática, definido por organismos internacionais como o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em 2023, como o grau em que indivíduos ou grupos estão suscetíveis e são incapazes de lidar com os efeitos adversos das mudanças do clima, levando em conta fatores sociais, econômicos e ambientais.

No bairro Jardim Los Angeles, a dona de casa e costureira, Marinez Estácio Teixeira relata a falta de árvores e seus impactos no cotidiano. Ela afirma que o bairro possui pouca arborização nas calçadas e quase não há sombra nas ruas. “De cada 30 casas, tem duas árvores”, afirma.

A falta de infraestrutura urbana vai além da arborização. Marinez, evidencia que espaços públicos de convivência praticamente não existem. “A gente não tem isso aqui, vai usar como? A gente usa a rua porque é pública para ir ao supermercado; mas uma pracinha, uma área de lazer para as crianças? Não tem”.

Segundo ela, a única alternativa próxima seria uma academia ao ar livre em outro bairro, fora da área de abrangência da comunidade. “O único lugar que tem é no posto do Macaúba, mas não pertence à nossa região. No Los Angeles não tem nada.” Moradora há mais de duas décadas do bairro, afirma que a realidade pouco mudou ao longo dos anos. Para ela, o calor afeta diretamente a rotina dos moradores, provocando irritação, dores de cabeça e maior agitação; especialmente entre crianças e até animais. Seu neto, Dominique, por exemplo, vêm sofrendo de crises severas de sinusite relacionadas à qualidade do ar. A criança foi diversas à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) desde o início do mês.

A escassez de arborização também dificulta atividades simples do dia a dia. Deslocamentos a pé se tornam mais desgastantes pela ausência de sombra, o que evidencia a relação entre infraestrutura urbana e qualidade de vida. Sem arborização e com ruas sem asfalto, o trajeto até o posto de saúde é difícil, especialmente para grupos vulneráveis. Percorrer cerca de 800 metros até o atendimento, sob sol intenso e sem pontos de sombra, transforma uma necessidade básica em um esforço físico extremo. “Se tivesse mais árvores, com certeza seria diferente”, diz Marinez.

A situação se agrava diante das condições das vias e da falta de acessibilidade. A dona de casa destaca que essa realidade impacta os vulneráveis. “Aqui tinha que ter prioridade, porque tem cadeirante, tem deficiente, tem gestante, mãe com bebê no colo, idoso. Passa todo tipo de gente”, afirma.

Aqui tinha que ter prioridade, porque tem cadeirante, tem deficiente, tem gestante, mãe com bebê no colo, idoso. Passa todo tipo de gente

Segundo Marinez, a precariedade das ruas dificulta ainda mais o cotidiano. “Tem rua que eles arrumam num dia e no outro já não tem mais. Fica só lagoa, bacias de água. Quem tem carro nem sai de casa”. A ausência de arborização se soma a outros problemas urbanos, ampliando as dificuldades enfrentadas pela população e evidenciando como diferentes formas de desigualdade se sobrepõem no mesmo território.

Moradores convivem com precariedade urbana e falta de infraestrutura básica nos bairros | Foto: Luiza Ferraz

Já em regiões mais arborizadas, como o Carandá Bosque, a realidade é diferente. A nutricionista Daiana Ângelo afirma perceber claramente a diferença no conforto térmico. “Aqui é mais fresco. Na minha casa, por ter árvores próximas, o ambiente é mais agradável”. Ainda assim, ela reconhece que a realidade não é uniforme. “Alguns bairros representam mais esse título do que outros.”

Nessas regiões, o acesso a recursos como ar-condicionado, também contribui para amenizar o calor, o que evidencia ainda mais a desigualdade entre os bairros.

Para além da cidade árvore

Em meio a esse cenário, a Prefeitura de Campo Grande afirma que a arborização urbana é planejada com base em critérios técnicos, com foco no equilíbrio ambiental e na qualidade de vida da população. Segundo a nota emitida em 2026 pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, Gestão Urbana e Desenvolvimento Econômico, Turístico e Sustentável (Semades), o Plano Diretor de Arborização Urbana (PDAU), atualmente em fase final de revisão, orienta a distribuição das árvores com prioridade para regiões com menor cobertura vegetal, especialmente bairros periféricos e áreas de expansão recente, onde a arborização ainda está em processo de consolidação.

A nova versão do plano prevê a criação de uma Política Municipal de Arborização Urbana, com foco na equidade, na conexão entre áreas verdes e no enfrentamento das mudanças climáticas. Na prática, no entanto, os dados e relatos mostram que essa desigualdade ainda persiste, evidenciando que o desafio vai além do reconhecimento internacional e exige a efetiva implementação dessas políticas no território.

O título de “Cidade Árvore do Mundo” não pode esconder que os benefícios da arborização não chegam da mesma forma a todos os bairros. Mata para quem? Em bairros como o Jardim Los Angeles, por exemplo, a discussão sobre arborização urbana está diretamente ligada à garantia de direitos humanos básicos. Mais do que a presença de árvores, o que está em jogo é o acesso a condições dignas de sensação térmica, mobilidade, lazer e saúde. Em regiões onde esses elementos estão ausentes, o impacto do calor se intensifica e transforma o cotidiano da população, evidenciando que a desigualdade ambiental é também uma desigualdade social.