Texto: Luana Passini | Luiza Ferraz
Ilustração: Pedro Porangaba

A cada novo temporal que atinge a capital sul-mato-grossense, repete-se um roteiro já conhecido: ruas alagadas e destruídas (muitas vezes carregadas), casas invadidas pela água, prejuízos materiais e vidas colocadas em risco. A narrativa dominante insiste em tratar esses episódios como “desastres naturais”, como se fossem inevitáveis. Essa explicação simplifica a realidade e encobre suas causas mais profundas. A chuva é um fenômeno natural. O desastre, não.
O aumento da frequência e da intensidade das chuvas nos últimos dois anos está associado às mudanças climáticas, como apontado por instituições como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Ainda assim, a recorrência de alagamentos em Campo Grande (MS) não pode ser explicada apenas pelo volume de água que cai. Quando um problema se repete ano após ano, deixa de ser imprevisível e passa a ser negligenciado. Dados dessas instituições indicam, inclusive, a previsibilidade desses eventos.
Na capital, a impermeabilização do solo, a deficiência nos sistemas de drenagem e o crescimento urbano desordenado, criam um ambiente propício para alagamentos e enxurradas. A água que deveria infiltrar, escoa; o que deveria ser absorvido, transborda. Os buracos se proliferam a cada chuva, deteriorando ainda mais a situação precarizada da cidade.
Não se trata de um comportamento anormal da natureza, mas de uma consequência previsível de planejamento urbano. Deslocar a responsabilidade para o clima não é apenas um equívoco, é evitar encarar com responsabilidade o problema real. Essa lógica se evidencia ao observar que áreas com menor infraestrutura urbana concentram os maiores danos e são, em geral, ocupadas por populações vulneráveis. A desigualdade social se materializa em forma de água dentro de casa, móveis perdidos e riscos constantes.
A dinâmica urbana reforça esse processo. O físico Hamilton Germano Pavão, aponta que regiões com maior concentração de concreto e asfalto formam ilhas de calor, elevam a temperatura e alteram o equilíbrio térmico. Ao mesmo tempo, a ausência de vegetação reduz a retenção de água no solo. O resultado é uma cidade menos capaz de lidar com chuvas intensas, uma falha de gestão urbana que não consegue absorvê-las.
A ocupação de áreas de risco, frequentemente apontada como causa dos desastres, precisa ser compreendida com mais profundidade. Morar nesses locais não é escolha livre, mas uma imposição das condições socioeconômicas. Trata-se de uma violação do direito à moradia digna, que empurra populações de baixa renda para territórios mais desprotegidos. Nesse contexto, o conceito de racismo ambiental, formulado pelo estadunidense Robert D. Bullard, ajuda a compreender por que determinados grupos estão mais expostos a riscos. Não é coincidência, mas uma lógica histórica de ocupação desigual do espaço urbano. Em cidades como Campo Grande, essa desigualdade se expressa tanto na distribuição do calor quanto na forma como a água atinge tais territórios.
A repetição desses eventos ao longo dos anos evidencia um padrão. Se os efeitos se repetem a cada novo período de chuvas intensas, até que ponto ainda é possível tratá-los como imprevisíveis? O que se observa, na prática, é a persistência de políticas urbanas insuficientes e de investimentos que não alcançam todas as regiões da cidade de forma equitativa. A cada nova chuva, reafirma-se quem pode contar com proteção e quem permanece desamparado.
Repensar o planejamento urbano, nesse contexto, não é apenas uma questão técnica, mas uma questão política e de sobrevivência. Significa reconhecer que a cidade não é neutra e que suas estruturas refletem escolhas.
É preciso deslocar o olhar. O desastre não está no céu, mas no chão da cidade, na ponta do lápis da decisão pública. E, sobretudo, nas escolhas ou omissões que definem quem será protegido e quem continuará pagando o preço mais alto a cada nova tempestade.
