Enquanto os ultraprocessados ganham espaço, comunidades transformam áreas abandonadas em hortas para enfrentar a fome oculta e fortalecer a produção local
Texto: Andy Oliveira| Hanathiele Coelho | Thuany Rodrigues
Entre o asfalto e o cinza do concreto de Campo Grande (MS), o verde brota em forma de alimento. Em quintais e terrenos baldios, as hortas urbanas deixaram de ser apenas um hobby individual para se tornarem o pilar de uma alimentação mais saudável, sustentável e coletiva. Nas periferias da cidade, a terra virou saída para quem sente o peso do preço das verduras no bolso.
As hortas urbanas se espalham como iniciativa para auxiliar na economia e resistência das famílias.
Mais do que plantar alface e cebolinha, os moradores colhem comida de verdade, o canteiro vira ponto de encontro e há ajuda entre vizinhos, entre trocas de muda e sementes, no fim do dia constroem relações que vão além do cultivo. Com os produtos industrializados nas prateleiras de supermercados, a horta na porta de casa devolve o alimento natural à mesa e conecta a comunidade.

| Foto: Hanathiele Coelho
As hortas que nutrem a cidade morena
A capital do estado se destaca pelo crescente número de hortas urbanas e periurbanas. O último levantamento, em junho de 2024, identificou 263 hortas pela Secretaria Municipal de Inovação, Desenvolvimento Econômico e Agronegócio (Sidagro). Destas, 188 são voltadas para fins comerciais e atendem à demanda por alimentos frescos e acessíveis. Outras 75 têm um caráter social e buscam beneficiar comunidades e promover a inclusão. O crescimento dessas hortas também contribui para o fortalecimento da economia local ao criar oportunidades de trabalho e renda. Além disso, são uma excelente forma de promover a saúde e o bem-estar ao permitir que a população se reconecte com a natureza e aprenda mais sobre agroecologia.
Ao visitar a horta comunitária Estação Verde, localizada no Jardim Ouro Preto, é notável o contraste entre o acinzentado das calçadas e o verde das plantações. Em entrevista ao Projétil 107, um dos coordenadores da horta, Márcio Lima, 50 anos, contou como surgiu a ideia de transformar a área em um projeto que hoje beneficia diversas pessoas da região. Segundo ele, o local era abandonado, com mato alto e frequentemente utilizado para o descarte irregular de entulho.
O projeto tem como diferencial a parceria público-privada, pois a Energisa cedeu o terreno. Márcio destaca que a horta não é apenas um espaço de cultivo, mas também de aprendizado e troca de saberes com técnicos e voluntários compartilhando conhecimentos. Os principais produtos cultivados na horta incluem hortifrútis como alface, cenoura, beterraba, mandioca e bananas, além de especiarias como açafrão e cúrcuma. Os horteiros tentam evitar o uso de agrotóxicos ao adotar práticas mais naturais, utilizando produtos agroecológicos como adubos orgânicos e técnicas de controle natural. A medida sugere um esforço contínuo para manter o cultivo sustentável e saudável.

A relação da comunidade com a horta é positiva, ainda que marcada por desafios. Inicialmente, a horta contou com o interesse de muitas famílias da região, mas o número de participantes foi diminuindo devido ao trabalho pesado e à falta de recursos, como a água. Apesar de dificuldades, Márcio ressalta que há grande empenho de figuras como José Gonçalves, de 54 anos, e de Firmo Nogueira, de 86 anos. O octogenário representa o conhecimento tradicional da agricultura, aprendido desde a infância no campo e hoje replicado na horta urbana, onde também atua como emissor desse conhecimento para outros participantes.
É um esforço coletivo que une gerações e diferentes níveis de experiência. Há desde os novatos aos mais velhos, como Firmo, que não hesita em virar a noite roçando o mato e cuidando dos canteiros para impedir que o espaço volte ao matagal que era antes. “Primeira coisa é buscar o conhecimento. Se a pessoa tem o conhecimento, se torna mais fácil. Se não, tem que buscar”, ele ensina. Por outro lado, a recém-chegada, Sônia Alves, 48 anos, estuda os segredos da agricultura urbana. “Eu estou aprendendo porque eu tenho zero conhecimento. Como a gente mora em cidade, acha que tudo está pronto no mercado, mas eu gosto, é amor mesmo”, declara.

A horta tem promovido uma conscientização sobre a importância da natureza, proporcionando uma nova perspectiva para os moradores sobre como cultivar alimentos e interagir com o meio ambiente. O esforço coletivo, com a ajuda de algumas instituições, permite que o projeto continue, com planos para melhorar a infraestrutura e a organização interna da horta.

Foi a partir de realidades parecidas como estas no Jardim Ouro Preto e Jardim Centenário que surgiu a Cooperativa de Agricultura Urbana de Campo Grande (Coopurb), dando mais organização às hortas isoladas em terrenos vazios e aos espaços dos bairros. Jair Galvão, de 71 anos, é fundador e presidente da cooperativa localizada no Jardim TV Morena. Ele conta que tudo começou pela necessidade de comercializar melhor. Antes, muitos produtores vendiam apenas entre R$ 10 a R$ 15 reais por dia. Hoje, com a estrutura da Coopurb, o grupo fatura acima de R$ 100 diários.
A cooperativa faz o escalonamento de plantio, entre dois ou três canteiros por semana, para garantir a colheita e a continuidade das vendas. Jair ressalta que o grande desafio não é plantar, mas vender, organizar a produção e ter acesso a recursos de qualidade. A Coopurb entra com a orientação técnica, mudas, adubo orgânico, calcário e suporte logístico, ajudando a aumentar a produtividade sem agrotóxicos. No lugar do veneno são usados métodos naturais como extrato de plantas para manter as pragas longe sem contaminar o alimento.

de cultivo da horta | Foto: Andy Oliveira
Um dos apoiadores das hortas e cooperativas é o vereador Landmark Rios (PT), autor do Projeto de Resolução nº 584/2025. A proposta criou a Frente Parlamentar pela Regularização das Hortas Urbanas e Periurbanas em Campo Grande, com o objetivo de organizar e dar mais segurança à atividade dos horteiros da Capital.
“Além de gerar renda e fortalecer a agricultura familiar, as hortas urbanas contribuem diretamente para a melhoria do meio ambiente, esses espaços aumentam as áreas verdes da cidade, reduzem a temperatura em regiões urbanizadas, favorecem a biodiversidade e podem até melhorar a qualidade do ar”, conta.
Segundo o vereador, muitos desses trabalhadores ainda enfrentam o problema da informalidade, em Campo Grande parte das hortas estão instaladas em áreas públicas não regularizadas, o que os deixa em situação vulnerável. “A qualquer momento, a Prefeitura pode solicitar a desocupação do espaço”, relatam produtores. Esse cenário gera insegurança jurídica para quem depende da terra para trabalhar e produzir.

sobre hortas urbunas| Foto: Pedro Roque
Ultraprocessado engana o estômago
O prato vazio ou mal servido ainda é realidade para 64 milhões de brasileiros. É o que mostra a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2024, que revela que mais de um terço do país vive em insegurança alimentar. Na prática, significa mesa sem comida ou, quando têm, quase sempre sem nutrientes.
O macarrão instantâneo, a salsicha e a bolacha recheada viram rotina porque cabem no bolso. Mas o preço chega depois, na saúde. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), de 2024, diz que a alimentação saudável deve se tornar mais cara do que os alimentos ultraprocessados a partir deste ano, de 2026. Fatores estruturais e climáticos apontam que o preço de alimentos perecíveis subirão acima da inflação, enquanto os ultraprocessados continuam como a opção mais barata nas prateleiras, o que impulsiona os consumidores a escolhas menos saudáveis, isso é o que se conhece como fome oculta.
O estômago pode até ser enganado, mas o resto do corpo sente a falta de vitaminas.
Segundo o nutricionista Kaio Queiroz, uma pessoa pode estar alimentada e desnutrida. O macarrão instantâneo, por exemplo, é basicamente composto por carboidratos e gorduras, mas é carente de proteínas, vitaminas e minerais; os biscoitos recheados têm muitas calorias e açúcares, mas não contêm as fibras que são importantes para a digestão. Nesses alimentos não há vitaminas como as do complexo B que ajudam o sistema nervoso e nem minerais como o cálcio, essencial para a saúde dos ossos.
O nutricionista aponta que a comida saudável costuma ser mais cara, sobretudo devido à tributação. Enquanto alimentos ultraprocessados recebem menos impostos, tornando-se mais baratos e atrativos. Estudos da UFMG e do Idec indicam que esse cenário tende a se intensificar. Além disso, a Reforma Tributária (Emenda Constitucional nº 132 de 2023) estabelece a criação de um Imposto Seletivo sobre produtos prejudiciais à saúde, como energéticos, refrigerantes e bebidas alcoólicas, com implementação programada para ocorrer gradualmente a partir de 2026, com cobrança efetiva a partir de 2027, conforme regulamentação.

O pé de alface perde para o pacote de salgadinho na prateleira e não é por acaso.
Frutas, legumes e verduras chegam mais caros aos mercados porque o custo de produção é elevado, o cultivo exige trabalho intenso, o transporte possui custos altos e o produto estraga rapidamente. Já o biscoito recheado, que contém conservantes, pode ficar meses no estoque. Com ingredientes baratos, o lucro vem com a durabilidade. Os aumentos no preço do atacado refletem no preço final que chega aos consumidores, elevando os valores no varejo.

A integração dos bairros por meio das hortas urbanas é uma das grandes vantagens desse modelo de produção alimentar. As hortas fortalecem a solidariedade comunitária, pois envolvem moradores de diferentes faixas etárias e classes sociais, criando uma rede de apoio e colaboração. Essas iniciativas reforçam a identidade local, com moradores se sentindo parte de um projeto coletivo voltado para o bem-estar e a melhoria da qualidade de vida.
A família planta, colhe e garante a autossuficiência. Onde o mercado é caro para alimentos saudáveis, a terra vira solução para comer melhor e gastar menos. Entre um regador e outro, a vizinhança redescobre que saúde se colhe junto. A comida fica mais natural, os resto de alimentos e folhagens viram adubo e a rua ganha cara de quintal coletivo. Onde antes tinha terreno baldio, hoje tem alimento, troca de conhecimentos e conexão com o meio ambiente.

