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Reportagem 107

Verde que alimenta

Enquanto os ultraprocessados ganham espaço, comunidades transformam áreas abandonadas em hortas para enfrentar a fome oculta e fortalecer a produção local




Na horta Comunitaria são cultivadas mais de 20 variedades de vegetais em uma área de 1,8 hectares
| Foto: Hanathiele Coelho

A capital do estado se destaca pelo crescente número de hortas urbanas e periurbanas. O último levantamento, em junho de 2024, identificou 263 hortas pela Secretaria Municipal de Inovação, Desenvolvimento Econômico e Agronegócio (Sidagro). Destas, 188 são voltadas para fins comerciais e atendem à demanda por alimentos frescos e acessíveis. Outras 75 têm um caráter social e buscam beneficiar comunidades e promover a inclusão. O crescimento dessas hortas também contribui para o fortalecimento da economia local ao criar oportunidades de trabalho e renda. Além disso, são uma excelente forma de promover a saúde e o bem-estar ao permitir que a população se reconecte com a natureza e aprenda mais sobre agroecologia.

Ao visitar a horta comunitária Estação Verde, localizada no Jardim Ouro Preto, é notável o contraste entre o acinzentado das calçadas e o verde das plantações. Em entrevista ao Projétil 107, um dos coordenadores da horta, Márcio Lima, 50 anos, contou como surgiu a ideia de transformar a área em um projeto que hoje beneficia diversas pessoas da região. Segundo ele, o local era abandonado, com mato alto e frequentemente utilizado para o descarte irregular de entulho.

Márcio Lima, coordenador do projeto, em área de plantio onde também são cultivadas bananeiras | Foto: Thuany Rodrigues

É um esforço coletivo que une gerações e diferentes níveis de experiência. Há desde os novatos aos mais velhos, como Firmo, que não hesita em virar a noite roçando o mato e cuidando dos canteiros para impedir que o espaço volte ao matagal que era antes. “Primeira coisa é buscar o conhecimento. Se a pessoa tem o conhecimento, se torna mais fácil. Se não, tem que buscar”, ele ensina. Por outro lado, a recém-chegada, Sônia Alves, 48 anos, estuda os segredos da agricultura urbana. “Eu estou aprendendo porque eu tenho zero conhecimento. Como a gente mora em cidade, acha que tudo está pronto no mercado, mas eu gosto, é amor mesmo”, declara.

Durante o manejo da horta, Firmo Nogueira realiza cuidados diretamente nos canteiros | Foto: Andy Oliveira
Recém-chegada ao projeto, Sônia Alves participa do cuidado das hortaliças | Foto : Andy Oliveira
Fundador e presidente da Coopurb, Jair Galvão acompanha área
de cultivo da horta | Foto: Andy Oliveira
Vereador Landmark Rios lidera frente parlamentar
sobre hortas urbunas| Foto: Pedro Roque

O macarrão instantâneo, a salsicha e a bolacha recheada viram rotina porque cabem no bolso. Mas o preço chega depois, na saúde. Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com o Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), de 2024, diz que a alimentação saudável deve se tornar mais cara do que os alimentos ultraprocessados a partir deste ano, de 2026. Fatores estruturais e climáticos apontam que o preço de alimentos perecíveis subirão acima da inflação, enquanto os ultraprocessados continuam como a opção mais barata nas prateleiras, o que impulsiona os consumidores a escolhas menos saudáveis, isso é o que se conhece como fome oculta.


O estômago pode até ser enganado, mas o resto do corpo sente a falta de vitaminas.

Para o nutricionista Kaio Queiroz, o barato pode sair caro quando o assunto é qualidade alimentar | Foto: Arquivo Pessoal

O pé de alface perde para o pacote de salgadinho na prateleira e não é por acaso.

Frutas, legumes e verduras chegam mais caros aos mercados porque o custo de produção é elevado, o cultivo exige trabalho intenso, o transporte possui custos altos e o produto estraga rapidamente. Já o biscoito recheado, que contém conservantes, pode ficar meses no estoque. Com ingredientes baratos, o lucro vem com a durabilidade. Os aumentos no preço do atacado refletem no preço final que chega aos consumidores, elevando os valores no varejo.

O Atacadão ao lado da horta que contrasta a indústria versus o natural | Foto : Hanathiele Coelho
Moradores do bairro Jardim Ouro Preto e região participam das atividades na horta como voluntários | Foto: Thuany Rodrigues