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Reportagem 107

Nem luxo, nem lixo

Descarte irregular de lixo em Campo Grande afeta meio ambiente, saúde pública e catadores


Gilda Macedo, presidente da Atmaras/MS, destaca que majoritariamente o trabalho na cooperativa é realizado por mulheres | Foto: Wandril Martins

O descarte irregular de resíduos cresce no Mato Grosso do Sul (MS), acompanhando uma tendência nacional de consumismo e aumento na produção de lixo. Dados do Relatório de Indicadores de Resíduos Sólidos nos Municípios de MS, de 2023, do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso do Sul (TCE/MS), indicam que o estado produz cerca de 795 mil toneladas de resíduos por ano, com uma média de 0,72 quilo por habitante diariamente. Apesar dos avanços no destino final, com 87% dos municípios utilizando aterros sanitários, a destinação incorreta ainda é frequente e persistem fragilidades na gestão, especialmente relacionadas ao controle e à reciclagem adequada dos rejeitos.

Em Campo Grande (MS), apesar da existência de políticas públicas e estrutura formal de coleta, a reincidência do acúmulo de lixo em determinadas regiões associadas à destinação incorreta aparece na presença de micro lixões urbanos. Segundo o Secretário Especial de Articulação Regional, Darci Caldo, existem, em pleno 2026, entre 40 ou 50 pontos sistêmicos de descarte irregular de lixo, onde independente da quantidade de vezes que são limpos pela prefeitura, a aglomeração de detritos volta a acontecer.

A alta produção do lixo, como consequência do modo de produção capitalista, acarreta uma maior demanda de descarte, frequentemente desassociada da separação e destinação correta destes resíduos. Isso contribui diretamente para o desdobramento de diversas problemáticas socioambientais, que envolvem a saúde pública e o trabalho dos catadores, responsáveis pela maior parte da coleta.

Lixo é saúde

Segundo Relatório de Estado de Las Especies migratorias en el mundo: Informe Interino (Relatório de Estado das Espécies Migratórias no Mundo: Informe Interino – 2026) das Organizações das Nações Unidas (ONU), o acúmulo de lixo contamina o solo e a água, além de expor animais à ingestão de materiais tóxicos e à alteração de seus ambientes naturais. Para a bióloga especializada em saneamento ambiental e recursos hídricos, Karina Righi, o descarte incorreto de eletrônicos (pilhas, lâmpadas, baterias, etc.) pode levar à contaminação do solo ou de algum corpo d’água próximo. “Essa contaminação do solo vai infiltrando e pode chegar à contaminar águas subterrâneas e de abastecimento”. Karina ainda destaca os impactos na fauna como uma questão preocupante. “Hoje é bem comum ver a problemática do plástico nos corpos d’água, onde peixes e tartarugas se alimentam e acabam morrendo por conta do contato com esses resíduos”, relata.

Esse cenário reflete um problema ambiental mais amplo. No mesmo relatório, é indicado que a perda e a degradação de habitats, a poluição e outras ações humanas, têm provocado declínios significativos na fauna global. Outro problema alarmante é a emissão de gases como o metano, proveniente da decomposição de resíduos orgânicos descartados de forma irregular, que colaboram para o efeito estufa.

Além dos impactos ambientais, os lixões representam riscos à saúde pública ao contribuírem na proliferação de vetores de doenças e ao agravarem problemas sanitários. “A gente pode também pensar em saúde pública. O acúmulo de lixo em local inadequado acaba atraindo vetores que consequentemente podem transmitir doenças. De forma genérica, a gente pode pensar na leptospirose, dengue, chikungunya”, lista Karina.

É importante destacar, ainda, que há uma diferenciação entre o que é considerado resíduo e o que é lixo. O resíduo é definido pela separação adequada de suas partes, considerado o potencial econômico de cada uma. O lixo refere-se ao material acumulado, caracterizado pela mistura de orgânico, reciclável e dejetos, sem a destinação correta de cada um. “Essa falta de separação e a recusa do cidadão em mudar o seu costume, associado à não preocupação de onde vai ser feito o descarte, acaba por criar amontoados de lixo. Essa aglomeração irregular vai criar o que pode ser chamado de micro lixões urbanos”, ela comenta. Vale ressaltar que, mesmo com a separação adequada por parte dos cidadãos, o sistema de coleta e comercialização deste material ainda desempenha um forte papel na destinação correta dos resíduos.

Para Karina, a produção de lixo e resíduos não vai diminuir na conjuntura atual, levando em consideração a forma de vida da população mundial e os processos industriais de produção. Porém, o importante é entender a relevância de segregar a quantidade, pois a maioria dos resíduos que hoje são mandados para o aterro sanitário podem ser reduzidos drasticamente. “Hoje o nosso aterro é uma problemática real do nosso município. Ele já aumentou o número de células várias vezes para conseguir atender a demanda de geração do município e a gente já tem uma nova área licenciada e o início de uma construção de uma outra área para depósito de lixo”, alerta.

O único aterro

Segundo o Anuário Estadual de Mudanças Climáticas, publicado pelo Centro Brasil no Clima (CBC) em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), em 2025, o MS está entre os maiores produtores de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), com um volume de produção de cerca de 336 quilos por habitante. O estado fica atrás somente do Ceará, Rio de Janeiro e Distrito Federal.

Para compreender a discussão é necessário diferenciar aterros sanitários (ambientes controlados de descarte de resíduos sólidos), e lixões à céu aberto, (locais de surgimento espontâneo, produto do descarte irregular de lixo).


Os aterros são a única via de descarte regular na capital sul-mato-grossense, e em atividade há apenas um, o Aterro Sanitário Dom Antônio Barbosa II

O aterro sanitário Dom Antônio Barbosa II é o maior do estado e recebe não só o lixo da população de Campo Grande, mas também de outras cidades próximas à Capital. Em 2026, existem convênios para receber resíduos dos municípios de Figueirão, Jaraguari, Bandeirantes e Corguinho, conforme extratos publicados no Diário Oficial de Campo Grande (Diogrande).

Em funcionamento para a destinação final adequada de resíduos sólidos urbanos, o local encontra-se próximo ao limite total de capacidade segundo previsões estabelecidas pela Soluções Ambientais – SPE Ltda (CG Solurb), empresa de saneamento responsável pela administração do aterro. Por esse motivo, a organização prevê a implantação de um novo local de descarte, o Aterro Sanitário de Resíduos Não Perigosos Ereguaçu.

A localidade pretendida para a construção do Ereguaçu, ao lado do atual aterro, é mais do que duas vezes maior que o Dom Antônio Barbosa II, comportando uma área de cerca de 99 hectares, localizada na saída para Sidrolândia. A indicação da área para implantação do novo aterro se estende desde 2012. A expectativa era que entrasse em operação em 2018, pois a previsão inicial do fim da vida útil do atual aterro determinava o funcionamento até 2024.

Em razão do atraso na liberação do local, o Dom Antônio Barbosa II passou por diversas readequações para suportar a demanda de descarte e deve funcionar até 2027.

A demora está ligada aos conflitos entre a concessionária CG Solurb, a Prefeitura de Campo Grande e a Brasil Empreendimentos Ltda, proprietária da área. A Brasil Empreendimentos ingressou com uma ação judicial e obteve uma liminar para suspender a licença prévia do local em 2023, alegando que as terras estavam alocadas para o cultivo de soja até 2028 e que não haviam documentos comprobatórios que designassem a posse da área à CG Solurb. A ação foi encerrada em 5 de setembro de 2024, com a revogação da liminar e a desistência da Brasil Empreendimentos, resultando no destravamento do processo administrativo de licenciamento.
Em janeiro de 2026, houve um avanço para a implantação do novo aterro sanitário. A CG Solurb publicou no Diogrande um requerimento de Licença Ambiental para a construção do Ereguaçu.

As cooperativas

As diferenças entre um lixão e um aterro, além de considerar os impactos ambientais, levam em conta a maneira como os trabalhadores responsáveis pela gestão do lixo são tratados. Segundo a presidente da cooperativa de catadores Associação dos Trabalhadores de Materiais Recicláveis nos Aterros Sanitários de Mato Grosso do Sul (Atmaras) e representante do Movimento Nacional de Catadores (MNCR), Gilda Macedo, não existem mais catadores em lixão na capital, mas em um aterro controlado com os rejeitos da coleta convencional. “A diferença entre o catador trabalhar dentro do lixão é a mudança de um trabalho insalubre para um totalmente formalizado. Formalizados, podemos buscar políticas públicas e ter melhores condições de trabalho”, diferencia.

O antigo lixão era localizado no bairro Dom Antônio Barbosa e foi desativado em dezembro de 2012, um ano após o caso de Maikon Corrêa de Andrade, um menino de nove anos que morreu vítima de um soterramento de lixo após um deslizamento. A fatalidade expôs os riscos da permanência do lixão no lugar. Mesmo assim, inicialmente, os catadores que trabalhavam no local foram contra a decisão, sob a justificativa de perder a fonte de sustento. Anos depois, em 2015, a inauguração da Unidade de Triagem de Resíduos (UTR), com mais estrutura, forneceu melhores condições de trabalho e dignidade a estes trabalhadores.

A Atmaras é uma rede de cooperativas de catadores de materiais recicláveis do estado, que atua na UTR, na região do Lageado, próximo ao único aterro da capital. Em 2026, a rede abriga 110 catadoras e catadores, sendo que 70% correspondem a mulheres.

Apesar do comprometimento com a luta pela causa, a desvalorização do trabalho realizado por elas ainda é uma realidade tangível. Os salários baixos e a ausência de cuidado com a integridade física das trabalhadoras, manifestada na recusa à separação de resíduos perigosos, são exemplos concretos desse descaso. “Tem o reciclável e o que é realmente lixo. O reciclável é retornável. Se metade desse material é rejeito, acaba reduzindo a renda dos catadores aqui porque praticamente metade vai para o aterro. Não gera renda”, destaca Gilda sobre a importância da segregação adequada dos resíduos.

“No compactador você traz pra cá 2 a 3 mil quilos de material. Aí acaba quebrando bastante vidro, as mulheres sofrem bastante acidente”, lamenta Gilda. | Foto: Kamilly Fernandes

Educação ambiental

Uma das soluções ao problema do descarte irregular citado pelos entrevistados foi o investimento em educação ambiental nas escolas. Apesar das iniciativas já existentes, a falta de acesso a esse tipo de formação de base impacta diretamente a maneira como a população lida com o descarte no dia a dia. Além disso, o desconhecimento dos locais adequados de descarte, como os ecopontos de coleta espalhados pela cidade (destinados ao despejo de resíduos que a coleta comum não recolhe), também favorece a formação dos micro lixões urbanos.

Ecopontos: lugares destinados ao descarte de resíduos | Foto: Print Google Maps | Reprodução Wandril Martins

Projetos que atuam diretamente com a população encontram limitações na adesão. O Atmaras possui grupos que realizam o trabalho de orientação de porta em porta, explicando sobre o processo de descarte dos resíduos e do lixo. Ainda com orientação direta, a mudança de comportamento não é suficiente para reduzir o volume de descarte inadequado. “Mesmo fazendo esse trabalho de educação ambiental, ainda vem 40% de rejeito, orgânico, materiais de cirurgia. O pessoal faz tratamento de saúde em casa, acaba vindo pra cá, fazem o descarte incorretamente e acaba indo lá pro aterro sanitário”, repreende Gilda.

A discussão, no entanto, não se limita à separação do lixo. Para Shirley Cruz, atriz brasileira que interpretou uma catadora de recicláveis no filme “A Melhor Mãe do Mundo”, a preservação ambiental é indissociável do debate social. A artista aponta que é essencial levar em consideração as realidades materiais da população. “É incompleto porque a gente tem que falar de moradia, emprego e de educação”, afirma. Segundo ela, a base educacional é necessária nesse processo e que não há avanço possível sem uma atuação integrada entre políticas públicas e sociedade. “A educação ambiental tinha que estar na escola, tinha que estar na creche. Então, é tudo realmente uma questão de base”, resume.

Não é preocupação individual

Apesar da importância da educação ambiental e dos esforços individuais na separação e destinação correta dos resíduos, é necessário considerar que o problema do lixo vai além do âmbito doméstico. Existe uma diferença significativa entre os resíduos produzidos nas residências e aqueles gerados pelas atividades industriais, tanto em volume quanto em composição.

Os chamados resíduos industriais são provenientes dos processos produtivos das indústrias e muitas vezes incluem substâncias contaminantes ou tóxicas, dependendo da atividade desenvolvida pela empresa. Segundo o Departamento de Resíduos Sólidos do Ministério do Meio Ambiente (DGR), em 2013 apenas 13% desses resíduos foram reciclados no Brasil, o que evidencia os desafios relacionados ao manejo. Em 2026, a ausência de uma base de informações abrangente sobre o fluxo de resíduos sólidos industriais dificulta a consolidação de dados abrangentes sobre o tema.

De acordo com a Norma Regulamentadora 25 (NR-25), atualizada pelo Ministério do Trabalho e Previdência (MTP), em vigor desde janeiro de 2023, esse tipo de resíduo não se assemelha aos resíduos residenciais produzidos pela população em geral. A norma define como resíduos industriais aqueles derivados dos processos produtivos, que podem se apresentar nas formas sólida, líquida ou gasosa, ou ainda em combinação entre elas.


Diferentemente do lixo doméstico, esses resíduos possuem características físicas, químicas ou microbiológicas, incluindo substâncias como cinzas, óleos, lodos, materiais ácidos ou alcalinos, escórias e poeiras, além de efluentes líquidos e emissões gasosas.

Isso evidencia que os resíduos industriais são mais complicados e potencialmente mais prejudiciais, exigindo formas de manejo, tratamento e descarte adequado para evitar impactos ambientais e riscos à saúde

No Brasil, a gestão desses resíduos é regulamentada por um conjunto de leis, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), intitulada pela Lei n° 12.305/2010, além das diretrizes estabelecidas pela própria NR-25. No mundo empresarial, há uma tendência em atuar de acordo com a Enviromental Social and Governance (ESG – Práticas Ambientais, Sociais e de Governança de uma organização) por motivações econômicas. Estar de acordo com PNRS e se mostrar como uma empresa “sustentável” impacta positivamente na imagem dessas empresas e no valor das ações no mercado financeiro.

A forma como os dados sobre a produção de lixo é disponibilizada ainda dificulta a compreensão mais precisa da responsabilidade de cada setor. Informações sobre a produção e destinação de resíduos costumam ser apresentadas de maneira generalizada, sem distinção clara entre o que é gerado pelos indivíduos e o que é gerado por grandes empresas. Números estatísticos dos resíduos sólidos produzidos no Brasil e no estado do MS se apresentam de forma geral e colocam os setores domésticos e empresariais equivocadamente no mesmo patamar.

O discurso da responsabilidade compartilhada precisa ser analisado com cautela. Por mais que a população tenha um papel importante na redução e no descarte correto dos resíduos, não se pode ignorar o peso das atividades industriais na geração de grandes volumes de materiais, muitas vezes mais prejudiciais. O problema do descarte irregular de lixo em Campo Grande é uma questão que atravessa diversos setores da sociedade: a separação individual do lixo, a coleta seletiva adequada, a comercialização e a reciclagem do que for possível e a destinação correta dos resíduos industriais. É necessário pensar o manejo do lixo para repensar o planeta.