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Opinião 107

Sorria! Estamos sendo desmatados


Campo Grande (MS) costuma ser lembrada como uma das capitais mais arborizadas do país. O Censo de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta que 91,4% dos domicílios da cidade estão localizados em vias públicas arborizadas. Ainda que o município tenha consolidado essa identidade ambiental, no coração administrativo do Estado, no Parque dos Poderes, ela passa a ser questionada diante da ameaça de supressão de áreas de Mata Atlântica.

Localizada em um estado marcado pela presença simultânea do Pantanal, do Cerrado e da Mata Atlântica, a capital de MS expandiu sua área urbana em meio às áreas naturais. O Parque dos Poderes Governador Pedro Pedrossian, criado em 1981, é um dos exemplos mais emblemáticos dessa proposta, concebido para abrigar a estrutura administrativa estadual sem romper com a vegetação original. O espaço que deveria representar equilíbrio entre desenvolvimento e preservação, ocupa o centro do debate sobre os limites do progresso urbano desde que foi criado o projeto de ampliação de estacionamentos e construção de prédios de secretarias.

A Mata Atlântica representava 18% do estado, enquanto hoje restam apenas 10,48%, segundo estudo da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul), publicado no Boletim Casa Rural, em 2024. Essa redução decorre do desmatamento e das queimadas. Mesmo com a perda contínua do bioma, o Governo do Estado e o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) investem em tentativas de perpetuar essa supressão vegetal.

Em agosto de 2023, o MPMS juntamente com o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul), firmaram um acordo que autorizava o desmatamento de aproximadamente 19 hectares, área equivalente a 26 campos de futebol. Antes mesmo da confirmação desse acordo, novas vagas de estacionamento foram construídas em frente à Secretaria de Estado de Fazenda (Sefaz). 

Já em 2024, o MPMS apresentou recurso na Justiça para fazer valer um novo acordo que liberaria o desmatamento de 28 hectares de 11 áreas do Parque dos Poderes. O promotor de justiça Luiz Antônio Freitas de Almeida, em uma tentativa de se mostrar a favor do meio ambiente, justificou que não seriam desmatados 28 hectares no total, já que as 11 áreas possuíam pouco de vegetação original devido à ação humana. Mas como é possível ser a favor da preservação quando ao invés de escolher a regeneração de uma área afetada, se opta pelo seu desmatamento?

Tentativas são feitas para tentar impedir o desmatamento desde 2023 pela vereadora Luiza Ribeiro (PT). Seu projeto de lei a favor do tombamento do complexo ambiental formado pelo Parque dos Poderes, Parque da Nações Indígenas, e Parque Estadual do Prosa foi apresentado na Câmara Municipal de Campo Grande e, apesar do parecer favorável da Procuradoria Municipal, a tentativa foi rejeitada e arquivada pela Comissão de Legislação, Justiça e Redação Final. Durante a Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), que ocorreu em março de 2026 na capital, Luiza apresentou pela terceira vez o projeto de lei.

Após a COP15, o Governo do Estado publicou, em 31 de março, o Decreto n° 16.757/2026, que determina a zona de amortecimento e impõe novas regras no Parque dos Poderes para a preservação da área. Contudo, o texto não impede construções de novos prédios. Ou seja, a publicação mascara medidas que poderiam proteger a região, visto que novas edificações colocam em risco a fauna e a flora do local. 

Campo Grande é a única cidade brasileira a receber o título internacional de “Tree City of The World” (Cidade Árvore do Mundo) por seis anos consecutivos. O prêmio tem o intuito de prestigiar aqueles que se comprometem em preservar florestas urbanas. Mas será que esse título se encaixa em uma cidade, que por vontade do Governo do Estado, ameaça destruir o equivalente a 26 campos de futebol de uma área que abriga um dos biomas mais raros e ameaçados do Brasil? Na capital mundial da arborização, só será possível ouvir o canto dos pássaros quando cessar o som das árvores caindo.