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Opinião 107

O Chico Bento precisa crescer


O ano de 2025 foi, certamente, expressivo para o cinema brasileiro. Seja por O Agente Secreto, Vitória ou até mesmo seu antecessor Ainda Estou Aqui, nossos filmes nunca tiveram tantos assentos ocupados nas salas de cinema. Foram 11 milhões de espectadores, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), que saíram de casa para prestigiar as produções nacionais exibidas em 2025. Houve, também, quem chamasse mais a atenção do público infanto-juvenil: Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa, com a oitava maior bilheteria brasileira no mesmo ano.

Inspirado no universo de Mauricio de Sousa, o live action aborda de forma leve – apesar de deixar uma boa pulga atrás da orelha das crianças – a preservação ambiental e os perigos de arrancar goiabeiras (ou qualquer árvore) da terra em favor do desenvolvimento urbano. Simples e didático. Mas a pergunta que fica é: onde estão outros filmes brasileiros que tratam de questões ambientais para jovens e adultos?

Pensando no meio ambiente, o nosso audiovisual parece priorizar somente o público menor de 14 anos. São raras as produções que fogem desse padrão, como Saneamento Básico, o Filme (2007), do diretor Jorge Furtado, ou então a série Aruanas (2019), dirigida por André Felipe Binder, que convidam o público adulto a também pensar nessa temática. Dados da Ancine mostram que, em 2025, foram exibidos 367 filmes brasileiros, entretanto, apenas dois deles, que repercutiam pautas ambientais se destacaram: Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa, com mais de um milhão de ingressos vendidos, e O Último Azul, com 56 mil espectadores.

Ainda assim, a abordagem ambiental permanece concentrada em documentários científicos ou em festivais específicos, como o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica), que acontece desde 1999 na cidade de Goiás (GO), e reúne pessoas do mundo todo comprometidas com a responsabilidade ambiental por meio da sétima arte.

Falar dessa falta nos faz questionar o porquê dela. A indústria do audiovisual parece ter escolhido, de forma consciente, tratar pautas ambientais como um apêndice menor às tramas, como um plano de fundo para temas ‘‘mais interessantes” – leia-se: mainstream. Quem nunca assistiu a um filme ou desenho em que o background é o planeta Terra em chamas porque o vilão teve alguma ideia imprudente envolvendo a colonização da raça humana, como o personagem Plankton, em Plankton: O Filme (2025), da Nickelodeon? Ou então séries como Stranger Things (2016-2025), da Netflix, em que seres do submundo emergem à superfície e causam destruições irreparáveis ao meio ambiente, prejudicando a população local? O que aparenta é que são poucas as produções que se preocupam em colocar crises ambientais como assunto principal, mesmo em meio a tensões reais assolando a humanidade.

A educação ambiental para crianças por meio do audiovisual é de suma importância para o desenvolvimento do pensamento crítico e da consciência ambiental das futuras gerações, mas não podemos nos acomodar em deixar os adultos de fora. Fazer o Chico Bento crescer é exigir que o cinema também dialogue com aqueles que têm o poder de votar pelo avanço de políticas ambientais nas urnas e contra situações reais de degradação do meio ambiente, como a luta das comunidades tradicionais por suas terras, os impactos irreversíveis das queimadas no Pantanal para a biodiversidade e o garimpo ilegal no Pará.

Incluir os adultos na jogada é fundamental ao ponto que, ao saírem das sessões, um incômodo (mesmo que pequeno) possa ser criado sobre as questões ambientais do país ou do mundo, e que mais para frente possa se transformar em um olhar menos ingênuo para o noticiário do dia seguinte. Este pode ser o primeiro passo para uma consciência e um audiovisual ambiental mais afiado.