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Reportagem 107

Quando o copo transborda

Assoreamento do Lago do Amor, ao longo de quase 60 anos, acumula prejuízos ambientais e econômicos


Foto: Rodrigo Bahia

Não é de hoje que Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul (MS), enfrenta problemas com a drenagem das águas da chuva. No livro “Campo Grande: Memória em Palavras – A Cidade na Visão de seus Prefeitos”, escrito por Maura Simões e publicado em 2006, o ex-prefeito Wilson Fadul cita que quando tomou posse, em 1952, já enfrentava problemas com alagamentos. Mais de 70 anos depois, em 2025, a capital registrou temporais que causaram os mesmos problemas, como carros ilhados e casas invadidas pela água. Um dos locais mais afetados foi o entorno do Lago do Amor, que contém um reservatório construído em 1968, abastecido até hoje pelos córregos Bandeira e Cabaça. Em 2026, os alagamentos e enxurradas ainda acontecem mesmo após obras para melhorar o escoamento de água na cidade.

As causas dos alagamentos incluem diversos fatores. Um deles é o assoreamento, processo natural em que a terra é carregada pelos cursos de água — rios, córregos e lagos — até se depositar em uma parte desse fluxo d’água. O engenheiro ambiental Rodrigo Bahia, doutor em recursos hídricos e especialista em hidrossedimentologia — área que estuda o transporte de sedimentos em ambientes aquáticos e terrestres — explica que, apesar de ser um fator natural, o processo pode ser acelerado em até 100 vezes devido às interferências humanas.

Segundo Rodrigo, Campo Grande é mais afetada pelos assoreamentos devido ao uso e ocupação do solo e à maior população. “Por exemplo, uma floresta com organismos nativos protege o solo da ação de erosão causada pela chuva. A partir do momento que você retira aquela camada nativa, está expondo aquele solo à erosão e aumentando a quantidade de material que vai para os rios e córregos”, explica.

Impacto para a população

Em 4 de janeiro de 2023, ocorreu o primeiro incidente impactante no Lago do Amor. Chuvas fortes causaram o desabamento de parte da ciclovia, da passarela e do muro de contenção. A região ficou interditada até a conclusão das reformas em setembro do mesmo ano. O local voltou a ser frequentado como um ponto turístico, mas por pouco tempo. Cerca de um mês após a reabertura, outro temporal causou estragos no mesmo lugar. Os reparos foram finalizados pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), em 9 de dezembro de 2023, e novamente destruídos pelas chuvas em 2024.

Nivaldo de Jesus Rodrigues, 66, trabalha vendendo água de coco no entorno do lago e comentou que diversas vezes já passou por momentos delicados por causa da chuva e de alagamentos. “Quando vem a enchente, vem muito rápido. Tem que ficar esperto se começar uma chuva mais forte, com muito vento e já se preparar para sair daqui”, relembra.
O comerciante também relata que, devido à enchente de 2023, ele e outros vendedores precisaram ficar sem trabalhar ali por quase um ano, tendo que ir para outros lugares. “A região do lago ficou interditada por causa da cratera e demorou para ser arrumado. É complicado porque toda enchente que tem é um prejuízo’’, reclama.

Antônio dos Santos Garcia, 73, é vendedor de geladão na passarela do lago e relata que, após as enchentes e interdições, o turismo no local perdeu força. “Já não é mais como antigamente. Ficou uma fama de enchente e de desabamento, as pessoas pararam de vir”, lamenta. Antônio recorda que, antes dos transtornos, o espaço era muito frequentado durante toda a semana, especialmente após o meio-dia. Agora, o maior movimento se restringe aos fins de semana ou fim de tarde, pois as árvores que ficavam próximas da calçada foram cortadas, o que diminuiu a sombra.

Os comerciantes comentam que os problemas causados pelas enchentes poderiam ter sido evitados e pensam que só será solucionado de verdade com o desassoreamento. O assoreamento ainda causa danos ao longo do córrego Bandeira, que abastece o Lago do Amor. A quatro quilômetros dali, parte do córrego na rotatória da Coca-Cola transbordou em 31 de março de 2025 e causou congestionamento na região, logo pela manhã. Durante a madrugada de chuva forte, as avenidas Senador Antônio Canale e Dr. Olavo Vilella de Andrade amanheceram parecendo rios devido à enxurrada.


“ A região do lago ficou interditada por causa da cratera e demorou para ser arrumado. É complicado porque toda enchente que tem é um prejuízo’’ – Nivaldo de Jesus

O engenheiro ambiental compara os córregos com um copo vazio. O recipiente pode receber uma determinada quantidade de chuva. Se o seu copo está cheio de areia, a quantidade de chuva que consegue receber diminui, aumentando as chances de inundação. Ele lista, ainda, outros prejuízos causados pelo assoreamento. “Os sedimentos atrapalham parte da drenagem e a qualidade da água e evidenciam o processo de assoreamento. São partículas de terra com elementos que podem ser nocivos à nossa saúde. Por exemplo, os metais pesados e organismos patógenos”, alerta.

De acordo com registros do Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima de Mato Grosso do Sul (Cemtec), no começo de 2026, vários bairros da capital tiveram desastres causados pelos temporais, desde árvores derrubadas até casas tomadas por água. O céu formando tempo de chuva é o suficiente pra deixar moradores preocupados, especialmente próximo ao Lago do Amor, e aos córregos Bandeira, Cabaça, Bálsamo, Prosa e Segredo, ou em bairros localizados perto das Nascentes do Córrego Lageado como o Jardim Noroeste, ou Jardim Carioca próximo ao Rio Anhanduí.

Como resolver o assoreamento?

Essa medida ajuda na preservação da fauna e flora das regiões hidrográficas mantendo vivo o habitat de diversas espécies. As bacias de contenção, estruturas projetadas para retenção de líquidos, também são soluções para os casos de alagamentos. O objetivo de captar e acumular água de forma controlada evita o despejo desordenado de chuvas, preservando os recursos hídricos e diminuindo os impactos para a população. Com o desassoreamento, o corpo d’água tratado recupera parte do volume de profundidade perdido, deixando de ser um copo d’água com areia no fundo que transbordaria facilmente.

O engenheiro ambiental explica que o melhor a se fazer é cuidar da bacia hidrográfica. O desassoreamento é a remoção de sedimentos como areia, terra, lodo e outros resíduos por meio de escavação ou drenagem. Não é um processo definitivo, mas traz de volta o volume útil e melhora a qualidade da água.


Lago do Amor

O Lago do Amor é um lago artificial construído no final da década de 1960 com o intuito de ser atração na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Além de ter se tornado ponto turístico, é também abrigo de uma grande variedade de animais. Segundo o Guia de identificação dos vertebrados do Lago do Amor, organizado pelo biólogo Fernando R. Carvalho e publicado em 2022, são cerca de 231 espécies: 150 espécies de aves, 23 de répteis, 19 de peixes, 30 de mamíferos e 9 de anfíbios. O local também contribui para pesquisas ambientais e melhora no clima seco do estado. O reservatório foi construído em 1968 e é abastecido até hoje pelos córregos Bandeira e Cabaça.

O artigo O Lago do Amor de Cássia Virginia Cassanho de Oliveira e Dora Inés Kozusny-Andreani, explica que até 1977 os moradores da capital usavam o lago para se banhar devido à boa qualidade da água e a pequena quantidade de frequentadores. O ponto de virada foi a criação do estado de MS no mesmo ano. Com a cidade escolhida como capital, a população aumentou e a bacia hidrográfica do córrego Bandeira começou a ser utilizada de outras formas, como a construção de diversos edifícios, reduzindo a vegetação natural da região. 

Entre 2002 e 2007, pesquisadores da UFMS começaram a monitorar o assoreamento no Lago do Amor e como a vegetação ao redor diminuiu por conta do crescimento urbano. A extensão do lago também foi reduzida como consequência do assoreamento, além do seu formato estar diferente.

Além do assoreamento a poluição do lago é frequente | Foto: Lis Luna