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Atenção! Animais na pista

Atropelamento de animais silvestres em rodovias de Mato Grosso do Sul expõe falhas na segurança viária e é intensificado pela expansão de vias na Rota Bioceânica


Foto: Edemir Rodrigues / SECOM MS

O atropelamento de animais silvestres tornou-se um dos principais impactos ambientais associados à expansão da malha rodoviária em Mato Grosso do Sul (MS), especialmente em trechos que integram a Rota Bioceânica. Em meio ao avanço das obras e ao aumento esperado no fluxo de cargas entre Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, mortes frequentes de fauna têm sido registradas em áreas de elevada sensibilidade ecológica, como o Pantanal e regiões de transição com o Cerrado. Um monitoramento do Instituto de Conservação de Animais Silvestre (Icas), entre 2017 e 2020, registrou uma média de 180 colisões com fauna por mês, o que corresponde a seis notificações por dia, em um trecho de 339 km da BR-262. Dos 6.650 indivíduos, 316 eram ameaçados de extinção.

Em fase final de implementação, segundo a Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), a Rota Bioceânica deve intensificar o fluxo de caminhões e veículos pesados em rodovias sul-mato-grossenses, especialmente após a conclusão da ponte entre Porto Murtinho (MS) e Carmelo Peralta (PY), pelo Rio Paraguai. O corredor logístico, que conecta países da América do Sul aos portos do Chile no Oceano Pacífico, permitirá reduzir entre 12 e 20 dias o transporte de cargas entre o Brasil e mercados asiáticos, ao substituir percursos mais longos pelo Oceano Atlântico e pelo Canal do Panamá por rotas com acesso direto aos portos chilenos. Com maior volume de veículos todos os dias, será necessário cuidado redobrado com os animais que atravessam as pistas.

Uma das rodovias diretamente impactadas pela intensificação da circulação de veículos pesados é a BR-262, que liga Três Lagoas a Corumbá (MS), e atravessa municípios como a capital Campo Grande, Aquidauana, Anastácio e Miranda, em meio a áreas de vegetação nativa, matas ciliares e regiões sazonalmente alagáveis no Pantanal. Considerada uma das vias com maior incidência de atropelamentos de fauna no país, conforme dados de monitoramento divulgados em janeiro de 2025 pelo Icas, a rodovia registra ocorrências frequentes envolvendo espécies como cachorro-do-mato (Cerdocyon thous), tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla), capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris), onça-pintada (Panthera onca) e tatu-canastra (Priodontes maximus).

Segundo o presidente do Icas, Arnaud Desbiez, a recorrência de atropelamentos na área está associada tanto às características da via quanto à ausência de estruturas voltadas à travessia segura da fauna. O instituto, que monitora espécies como tamanduá-bandeira e tatu-canastra por meio de programas de conservação, aponta que o trecho da BR-262 entre Aquidauana e Corumbá atravessa uma das áreas de maior biodiversidade do Pantanal e foi construída sobre aterros com pontes de água nas laterais, o que aumenta a presença de animais próximos à pista e, consequentemente, o risco de colisões.


“A grande preocupação que temos com a Rota Bioceânica é o aumento do fluxo, especialmente de caminhões, que pode levar à morte de muitas espécies e mais colisões. É importante lembrar que não são só os animais que morrem, há também pessoas envolvidas nesses acidentes” – Arnauld Desbiez

Apesar do início da implementação de novas estruturas e da instalação de sinalização em trechos da rodovia, Desbiez afirma que a medida mais eficaz de mitigação ainda é o cercamento integral ao longo das vias. “As cercas são a melhor medida para prevenir colisões dos animais silvestres porque apenas instalar passagens para fauna não resolve. Nós monitoramos tamanduás com colares e observamos que apenas cerca de 1% utilizava passagens subterrâneas, como bueiros e túneis de drenagem. Pelos nossos dados, podemos concluir que a passagem segura necessita do cercamento adequado”, explica.

Os colares utilizados no monitoramento são equipamentos de rastreamento, geralmente com tecnologia GPS, que, em conjunto com armadilhas fotográficas, permitem acompanhar os deslocamentos dos animais em tempo real. A partir desses dados, pesquisadores conseguem identificar padrões de movimentação, hábitos, áreas de risco e a efetividade de medidas de segurança.

Além dos impactos sobre a fauna, o presidente ressalta que os acidentes também representam risco à população. No Brasil, cerca de 1.062 pessoas são vítimas, anualmente, de colisões com animais em rodovias, conforme dados do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas (CBEE), a partir dos indicadores da ferramenta “Atropelômetro” em 2021.  “A grande preocupação que temos com a Rota Bioceânica é o aumento do fluxo, especialmente de caminhões, que pode levar à morte de muitas espécies e mais colisões. É importante lembrar que não são só os animais que morrem, há também pessoas envolvidas nesses acidentes. Por isso, usamos o termo ‘colisão veicular’, que evidencia essa relação entre humanos e fauna e, como esse aumento no tráfego, tende a elevar o número de vítimas”, comenta Desbiez.


“Eu vi uma anta atravessando a pista, e por ser um animal escuro, não deu para ver de longe. Quando vi, já estava em cima. Eu desviei, saí da via e o carro capotou” – Arnaldo Perenhas

A construção da Rota Bioceânica percorre o Pantanal e o Chaco Paraguayo, cruzando o rio Paraguai por uma ponte de 1.294 metros | Foto: Saul Schramm/Governo de MS

De acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (DNIT), a BR-262 é a rodovia que mais recebe investimentos públicos do país em mitigação de fauna – aproximadamente R$ 30 milhões. Está em execução o contrato de implantação de 170 quilômetros de cercas condutoras, passagens superiores e subterrâneas, além de sinalizações verticais e redutores de velocidade.

Entretanto, o plano de mitigação não é suficiente para conter o elevado número de mortes de animais em colisões com veículos – o trecho, que corta o Pantanal, é caracterizado pela enorme diversidade de espécies e movimentação de fauna. Este cenário torna a ocorrência de colisões mais frequente e mostra a necessidade de ampliar e tornar mais efetivas as medidas de proteção.

Rodovias avançam e faunas recuam

O bioma do Pantanal, apesar de contemplar mais de 4,7 mil espécies de flora e fauna, não está a salvo dos riscos da extinção de animais silvestres. O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) através do Sistema de Avaliação do Risco de Extinção da Biodiversidade, o Salve, revela que pelo menos 60 dessas espécies, especialmente na parte sul-mato-grossense do bioma, estão ameaçadas. Entre elas, a onça-pintada, o tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla) e a anta (Tapirus terrestris). Esses mamíferos de grande porte necessitam de áreas extensas para garantir a existência – deslocamento, alimentação e reprodução – tornando-os mais vulneráveis a atropelamentos em rodovias como a BR-262.


“Estamos tirando bichos da população e não sabemos a que taxa que essas populações estão conseguindo se repor. Pode ser que, a longo prazo, a taxa de reposição vá caindo e as populações diminuam” – Pâmela Castro

De acordo com o biólogo e diretor de comunicação do Instituto SOS Pantanal, Gustavo Figueirôa, a dimensão atual do problema das colisões veiculares é séria, pois a maioria das estradas nos entornos ou dentro do bioma pantaneiro carece de medidas de mitigação satisfatórias. Ele comenta que, embora a BR-262 seja um exemplo de rodovia que passou a adotar medidas apropriadas recentemente, há diversas outras que foram ou são construídas sem critério de proteção contra colisões.

A colisão veicular pode trazer consequências a longo prazo à conservação de espécies que habitam próximas às rodovias, seja por efeitos diretos, como o aumento na mortalidade que causa desequilíbrio populacional, ou indiretos, como a fragmentação de habitats cortados pelas estradas. A mastozoóloga (bióloga especializada em mamíferos) Pâmela Castro explica que os mamíferos de grande porte, como os tamanduás-bandeira e as antas, estão entre as espécies mais vulneráveis, pois correm o risco de desaparecer.

Além disso, possuem reprodução lenta, com poucos filhotes e longos intervalos entre gestações, o que os torna mais suscetíveis à extinção. ‘‘É pela reprodução que entram novos indivíduos e aí entramos em um cenário em que os animais morrem de uma maneira artificial, antrópica, pelas colisões. Estamos tirando bichos da população e não sabemos a que taxa que essas populações estão conseguindo se repor. Pode ser que, a longo prazo, a taxa de reposição vá caindo e as populações diminuam’’, projeta.


“Entre os principais efeitos dessas obras estão a fragmentação dos habitats e o isolamento das populações, o que compromete a conectividade e dificulta o deslocamento da fauna” – Stefania Oliveira

Um outro exemplo é o tatu-canastra (Priodontes maximus), cuja fêmea geralmente tem apenas um filhote a cada três ou quatro anos. Além da baixa taxa reprodutiva, a espécie apresenta maturidade tardia e depende de grandes áreas preservadas para sobreviver, o que a torna mais vulnerável a pressões como atropelamentos. Esse conjunto de fatores dificulta a recuperação populacional diante de perdas constantes e aumenta o risco de declínio ao longo do tempo.

Esse cenário se agrava quando são considerados os impactos da Rota Bioceânica e de outras rodovias sobre os habitats naturais do Pantanal, que afetam diretamente a dinâmica ecológica das espécies. Segundo a coordenadora técnico-científico do Instituto SOS Pantanal, Stefania Oliveira, a expansão de infraestrutura logística, com a abertura de novas vias e a consolidação de corredores de transporte, gera efeitos que ultrapassam a área diretamente ocupada pela obra, atingindo o entorno e até regiões mais amplas do bioma. “Entre os principais efeitos dessas obras estão a fragmentação dos habitats e o isolamento das populações, o que compromete a conectividade e dificulta o deslocamento da fauna. Há também as perturbações causadas pela própria rodovia, como ruído, luz e poluição sonora, mas, na minha avaliação, o principal impacto é o aumento do acesso humano e a intensificação do uso do solo”, explica.

Há também as perturbações causadas pela própria rodovia, como ruído, luz e poluição sonora, mas, na minha avaliação, o principal impacto é o aumento do acesso humano e a intensificação do uso do solo”, explica.

Nesse processo, além da perda imediata provocada pela supressão da vegetação e pela ocupação física das áreas, há também a fragmentação dos ambientes e a alteração do entorno. Embora exista previsão legal de compensação ambiental, ela não garante a recomposição das mesmas funções ecológicas no local original. No caso do Pantanal, onde a interação entre vegetação, regime de cheias, fauna e dinâmica hidrológica é altamente integrada, essas alterações tendem a ser, em grande parte, duradouras ou permanentes.


A especialista também ressalta que em projetos de infraestrutura logística de grande porte, a proteção e o bem-estar da fauna ainda costumam ser incorporados apenas em etapas posteriores do planejamento, com a adoção de medidas de mitigação após a definição do traçado e dos objetivos econômicos, tratando a questão como um problema a ser corrigido, e não como um elemento estruturante desde o início.

Humanos ao volante, risco constante

Na prática, esse modelo de implementação também reflete na segurança durante viagens, onde situações de risco são recorrentes para quem trafega por esses trechos. O bombeiro militar, Arnaldo Perenhas, relata que sofreu um acidente que ocasionou no atropelamento de uma anta. A colisão aconteceu na madrugada do dia 26 de julho de 2025, na BR-262, entre Campo Grande e Ribas do Rio Pardo.  “Eu vi uma anta atravessando a pista, e por ser um animal escuro, não deu para ver de longe. Quando vi, já estava em cima. Eu desviei, saí da via e o carro capotou”, relembra. 

O acidente ocasionou em lesões sérias na cervical do motorista e na perda total do veículo. O bombeiro ainda comenta que, por diversas vezes, avistou outros animais atravessando aquela rodovia, como lobinhos e capivaras. Como são ágeis e têm a pelagem mais clara, são espécies mais fáceis de identificar e desviar.

Em casos de atropelamento ou avistamento de animais na pista, a orientação é reduzir a velocidade com segurança, evitar desvios bruscos e não tentar capturar ou removê-los, já que isso pode representar risco tanto para o condutor quanto para as espécies. Em rodovias, o recomendado é acionar os órgãos responsáveis pela via ou equipes de resgate, informando o local exato da ocorrência.

Nas rodovias federais que cortam Mato Grosso do Sul, como a BR-262 e a BR-267, o contato deve ser feito discando 191 para a Polícia Rodoviária Federal. Nas rodovias estaduais, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo número 190. Ao se deparar com animais silvestres feridos ou às margens da pista, a Polícia Militar Ambiental deve ser procurada pelo telefone (67) 3941-0141. Em situações de emergência com necessidade de resgate, o Corpo de Bombeiros Militar também pode ser acionado pelo número 193.