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Reportagem 107

No descompasso das águas

Expansão do agronegócio, mineração intensiva e mudanças climáticas desregulam o regime de cheias do Pantanal, afetando ecossistemas e comunidades ribeirinhas


A água chega aos poucos e ocupa a planície sem pressa. Em alguns meses, cobre grandes áreas e transforma a paisagem, depois recua e revela novamente o solo. É esse ciclo que sustenta e faz bater o coração do Pantanal. E é esse ritmo que começa a falhar.

A maior planície alagável do mundo ocupa o coração da América do Sul, na bacia do Alto Paraguai. São 138.183 km² de território vivo, dos quais 65% estão em Mato Grosso do Sul (MS), segundo dados publicados no site da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Ali, o bioma dita o tempo das pessoas, da cultura e da economia. Mas esse equilíbrio delicado tem sido pressionado nos últimos anos. Mudanças climáticas e ações antrópicas alteram o pulso das cheias e das secas, colocando em risco um dos patrimônios naturais mais importantes do Brasil e do mundo.

Curso dos rios que nutrem o Pantanal | Foto: Aguinaldo Silva

O funcionamento do Pantanal é único. Tudo gira em torno da água. Segundo a pesquisadora da Embrapa e Assessora Técnica nas áreas ambientais da Procuradoria da República de MS, Débora Calheiros, o ciclo começa com as chuvas nas áreas mais altas da bacia do Alto Paraguai. A água desce lentamente até a Planície e segue pela inclinação baixa. Quando as cheias iniciam, até 80% do território pode ficar submerso. Após aproximadamente quatro meses, a água recua. Surgem as pastagens naturais e começa a seca. Esse vai e vem sustenta a fauna e a flora, e mantém o coração do Pantanal batendo. Porém, basta apenas um descompasso para afetar todo o ecossistema complexo e frágil.

Em 2025, o MapBiomas divulgou um levantamento acerca das cheias pantaneiras no período de 1985 a 2024. Até 1994, cerca de 1,6 milhão de hectares permaneciam alagados todos os anos, equivalente a mais de 2 milhões de campos de futebol. A partir de 2014, esse número caiu para 460 mil hectares, algo próximo a 650 mil campos. O cenário é consequência da perda de 5,2 milhões de hectares de vegetação original do planalto, o que aumenta a exposição do solo e acelera o escoamento das águas, que deveria ser lento para nutrir os rios. Com a ausência dessa vegetação, as cheias não inundam o Pantanal e o ciclo das águas perde uma de suas etapas fundamentais.

Débora constata a importância de considerar não apenas os impactos causados na planície do Pantanal, mas também na bacia hidrográfica do Alto Paraguai. 


“O problema é que o bioma é considerado apenas a planície, e a gente tem que pensar em conservar as nascentes. O ideal é a gente conservar a bacia hidrográfica porque é de lá que as águas vêm para nutrir o Pantanal.” – Débora Calheiros

Vivência às margens do rio | Foto: Hyan Lucas Carvalho

A pesquisadora aponta para dois agravantes da situação no Pantanal: o agronegócio (agro) e a atividade mineradora. Na parte alta da bacia, em que nascem os rios, é onde o agro causa mais impactos. O alto índice de desmatamento afeta as nascentes e provoca a erosão do solo. Débora explica que existem cerca de cinco milhões de hectares de uma área que está permanentemente alagada devido ao assoreamento. Além disso, na época das secas, a água do Pantanal vem de aquíferos subterrâneos, e o mau uso das práticas do agro afeta a recarga dessa água abaixo do solo. “Se não permitem que a água infiltre durante a chuva até chegar no aquífero, eles alteram a vazão do rio na seca. Por exemplo, nas áreas de soja acontece muito o uso de máquinas que compactam o solo e de agrotóxicos, que também podem infiltrar no solo e contaminar os aquíferos”, alerta a pesquisadora.

O ambientalista e ex-presidente nacional do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama), Rodrigo Agostinho, alerta para os riscos do uso de agrotóxicos no Pantanal. A planície pantaneira é um sistema de drenagem potente. Os pesticidas utilizados nas cabeceiras da bacia hidrográfica que alimenta os rios contaminam as águas e colocam em risco a existência de um ecossistema que transborda vida e ancestralidade. “O agrotóxico acaba contaminando a água e prejudica os peixes e as aves. Algumas têm até mudanças fisiológicas, como nos ovos que nascem com paredes mais finas e acabam não aguentando o período de incubação”, lamenta o ambientalista. 

Acerca da mineração, Débora relembra que a região pantaneira sempre usou navegações de pequeno ou médio porte para o transporte de cargas para pesca e outros meios de sobrevivência das comunidades dependentes dos rios. A pesquisadora explica que, em rios estreitos e menos profundos, é necessário fazer a dragagem da área para viabilizar o transporte das minas, que consiste na retirada de bancos de areia perigosos para embarcações menores. Essa mudança na paisagem tem ameaçado a segurança desse ecossistema e extrapola os limites da convivência com a natureza, que deveria ser pacífica e respeitosa. 

Essa pressão para a navegação é um dos grandes impactos no Pantanal em 2026. No Tramo Sul, que vai de Corumbá até Porto Murtinho, o rio é largo e profundo. Ali, sempre existiram navegações de portes menores, mas desde 2019 o interesse das mineradoras vêm crescendo na região. “A mineração em Corumbá agora está nas mãos de um grupo grande e muito poderoso economicamente e politicamente. Eles querem aumentar em cinco vezes a extração de minério, ou seja, estão explorando muito mais para ganhar mais”, denuncia Débora. 

A terra tem sede

A crise climática é um dos grandes desafios enfrentados no Pantanal. E em 2026, começou com mais um agravante. O Boletim de Monitoramento Hidrológico da Bacia do Rio Paraguai, de 11 de fevereiro deste ano, do Serviço Geológico do Brasil (SGB), alertou que o nível dos rios que formam a Bacia estão abaixo do necessário para a época de cheias e, consequentemente, deixam o bioma mais suscetível à incêndios. Segundo o professor de Geografia e doutor em Meio Ambiente, Aguinaldo Silva, a mudança no regime de chuvas impacta diretamente o funcionamento do ecossistema. Com a redução das precipitações nas áreas de cabeceira, o volume de água que chega à planície diminui, comprometendo o ciclo das águas.

Em 2025, o rio Miranda registrou uma baixa preocupante. De acordo com dados do SGB, em março de 2026, o nível do rio chegou a 1,44 metro, bem abaixo da média de 3,97 metros para o período. As medições foram realizadas na régua instalada no município de Miranda. Em 2024, também um ano de poucas chuvas, o nível registrado foi de 1,6 metro. Já em 2023, na mesma época, o rio atingia 6,5 metros.

Aguinaldo afirma que, nos últimos anos, já vem sendo possível observar que a redução do volume de chuva na bacia resultou em um menor número de áreas inundadas na planície. Além disso, os incêndios atingem o bioma de forma intensa, com grandes impactos na fauna e na flora, e em todo o sistema ecológico do Pantanal.

As populações que dependem diretamente do bioma para viver, como pescadores, ribeirinhos, comerciantes e trabalhadores do transporte fluvial, são aqueles que têm nos rios sua fonte de subsistência e desenvolvimento cultural. “Essas mudanças impactam justamente as partes mais frágeis. No momento que você tem uma redução de água, reduz também a pesca, e consequentemente, essas pessoas passam por dificuldades porque afeta o produto que gera renda para elas, que é o peixe”, comenta o professor.

A navegação também é prejudicada. Débora afirma que, com a diminuição do nível das águas, formam-se bancos de areia chamados de “ilhas”, que dificultam a passagem de embarcações de médio porte até áreas com maior concentração de peixes. Com o agravamento da seca, até mesmo barcos pequenos podem ser impedidos de navegar, o que intensifica os impactos sobre a subsistência das comunidades ribeirinhas.

Comunidades que deságuam

O horizonte em Corumbá, antes tingido pelo azul reflexivo do espelho d’água, hoje carrega uma névoa densa e opaca. Não é a neblina úmida que anunciava a manhã de pesca, mas o pó ferroso levantado pelos comboios da mineração que cortam a planície. Nas varandas das casas ribeirinhas, o estalar das tábuas secas sob o sol ardente substitui o barulho do rio batendo no barranco. Onde antes se ouvia o mergulho do martim-pescador, o som predominante passou a ser o ronco das dragas, uma vibração que treme o chão sob os pés descalços dos moradores e parece desorientar o bicho que ainda teima em ficar. 

Rios que cortam a planície alagada | Foto: Aguinaldo Silva

O Pantanal, que sempre foi um corpo em movimento, assiste agora à própria petrificação, com o barro das margens dando lugar ao sedimento endurecido e ao silêncio das águas que já não conseguem subir

Segundo o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, em 2024, comunidades ribeirinhas vivem às margens dos rios e desenvolvem atividades como pesca, extrativismo e agricultura familiar e são reconhecidas como povos e comunidades tradicionais pelo Decreto n° 6.040/2007. Essas comunidades conectam-se com a natureza e conhecem profundamente o ritmo das águas. Como se o seu caminhar fosse ligado diretamente às ondulações dos rios, eles vivem e respiram o Pantanal. Não se trata meramente de um ambiente, e sim de um sistema vivo, vibrante, ativo, que cultua e abraça todos esses povos, na mesma medida que é cultivado e embalado por eles. Essas comunidades, que carregam conhecimentos ancestrais em seu sangue, compreendem os rios de uma forma que os demais homens nunca conseguiriam: de uma forma humana.

No distrito de Porto Esperança, em Corumbá, existe uma comunidade ribeirinha centenária de mesmo nome. A Comunidade Tradicional de Porto Esperança abriga em suas veias a confluência das águas com a presença humana. Com aproximadamente 130 habitantes, segundo a Associação de Moradores de Porto Esperança, o distrito fica a 80 km da região urbana da cidade. Em 1912, o distrito sediou uma estação ferroviária que, mais tarde, em 1917, se fundiu com a Noroeste do Brasil, que ligava Bauru (SP) a Corumbá. A capital do Pantanal também abriga reservas minerais, com destaque para o manganês e o ferro. A ferrovia e o interesse de mineradoras na região aumentaram o número de habitantes no distrito proporcionalmente ao descaso com a população.

A saída dos trens de passageiros, em 1995, marcou o início de um isolamento que as mineradoras agora preenchem com uma presença opressiva. No cotidiano local, o antigo apito da locomotiva deu lugar ao barulho ininterrupto das máquinas e a uma poeira vermelha que invade as frestas das casas e se instala nos pulmões dos moradores. O “Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil”, projeto jornalístico que pesquisa e monitora disputas territoriais, socioambientais e trabalhistas, publicou, em 2013, uma reportagem sobre os impactos sentidos pela comunidade ribeirinha na época. O difícil acesso ao local, a falta de energia elétrica e de assistência médica foram alguns dos maiores desafios relatados pela comunidade.

Mesmo com as secas, a população continua em casas sobre palafitas | Foto: Aguinaldo Silva

Após mais de uma década, em 2026, os efeitos desse abandono ainda são sentidos na pele daqueles que resistiram para permanecer em suas terras. O panorama atual da região não dá folga: a falta de cheias, o avanço do agronegócio e da atividade mineradora e a crise climática aumentam os desafios da comunidade ribeirinha de Porto Esperança. Um dos moradores da região há mais de 50 anos, Amarildo Pereira Mendes ganha a vida como pescador e piloto de embarcações pelos rios do Pantanal. Em entrevista para o Projétil 107, o pescador comentou sobre a difícil situação da região. “Eu criei todos meus filhos em cima de barco, pescando. Só que, de uns tempos pra cá, foi ficando difícil. A pescaria mudou, o peixe tá mais escasso. Então tá complicado levar o sustento pra casa”.

A redução do volume de água atinge primeiro quem depende diretamente do rio. O peixe rareia, o tempo de pesca encurta e a renda encolhe. Na margem, o efeito deixa de ser projeção. “A pesca tem sofrido bastante com toda mudança que vem acontecendo. Chegam empresas, a demanda aumenta, o peixe fica cada vez mais escasso”, relata Giane, ribeirinha da região. Na mesma família, trajetórias que antes seguiam o curso do rio mudam de direção. “Meus irmãos eram todos pescadores. Hoje trabalham apenas com turistas”, avalia.

A venda de iscas vivas movimenta a economia de comunidades que dependem diretamente dos rios do Pantanal | Foto: Hyan Lucas Carvalho

A intensificação da atividade mineradora reorganiza o uso dos rios e pressiona o equilíbrio do bioma. Em Porto Esperança, o aumento do fluxo de grandes embarcações e as intervenções no leito alteram a dinâmica natural das águas. O berço dessa comunidade, que atravessa a beleza e a plenitude da natureza pantaneira, corre o risco de deixar de ser abrigo para a vida e virar apenas uma reserva de minérios com a memória de um povo soterrada. “É complicado. Aqui pra nossa região, a mineradora causa bastante impacto com o grande navio que desce com os minérios”, diz Amarildo, que mora em frente à área de operação.


O ribeirinho observa a dragagem avançar sobre trechos antes usados na pesca e na circulação de pequenas embarcações

O movimento dos navios de carga se impõe sobre a paisagem e interfere nos pontos de apanhar peixe, onde a água já não se comporta como antes. “Essa dragagem que estão fazendo aqui vai impactar bastante no bioma”, completa.

O movimento constante dos comboios altera margens e pontos de pesca, interfere no curso cotidiano das embarcações menores e reduz as condições de sustento das famílias que dependem do rio. O avanço da atividade extrativista se impõe sobre o território deslocando o que antes era convivência para um cenário de tensão contínua entre uso econômico e permanência da vida ribeirinha.

A demarcação de terras também assombra as comunidades ribeirinhas. A possibilidade de perder o solo que sempre os acolheu é cada vez maior. A mineradora cresce e ganha espaço territorial. Grandes navios e transportes pesados passam todos os dias por Porto Esperança, levantam poeira e deixam as marcas do minério pelas estradas. Giane cita que há um processo de acordo que tramita na região, onde a mineradora oferece um lugar afastado da siderúrgica para os moradores da comunidade. Essa é a solução encontrada para diminuir os impactos causados pela atividade extrativista em Porto Esperança: mover o povo de seus lares para manter a exploração a todo vapor.

A 145 km de Porto Esperança está a comunidade Antônio Maria Coelho, que também sente na pele a escassez de água no Pantanal. Edvaldo Santana de Oliveira é morador da comunidade há 57 anos, e relata que, com o passar do tempo, aquele bioma que conhecia como a palma da mão começou a mudar drasticamente. “Em comparação com a época que eu cheguei aqui, há cinquenta e poucos anos, hoje deve ter uns 30%, 40% de água só. Então baixou muito”, comenta. O córrego que abastecia a comunidade também secou, segundo o ribeirinho. 


Hoje os moradores têm que andar três quilômetros até o riacho mais próximo para saciar a necessidade mais urgente de todo ser humano: ter água

A identidade dessas comunidades é consolidada na região do Pantanal, e é de extrema importância que seja preservada e respeitada. O ambientalista Rodrigo Agostinho explica que a crise climática afeta a todos, mas de forma mais intensa as populações vulneráveis. Muitas comunidades em outros estados vivem à beira do rio porque não tem outro ambiente seguro para sobreviverem. Já no Pantanal, os ribeirinhos ocupam as margens porque suas raízes se entrelaçam com a água. É essa vivência entrelaçada à natureza que vem sendo prejudicada. “É importante a gente entender que, de fato, com as mudanças climáticas, essas populações serão mais atingidas. As mudanças climáticas atingem todo mundo, mas essas populações são as que mais sofrem”, declara Rodrigo.

Chegar, permanecer e partir talvez sejam os maiores ensinamentos do Pantanal. Um ciclo aparentemente simples é profundo o bastante para sustentar vidas inteiras. Por anos, a água seguiu esse curso com precisão silenciosa. Porém, diante dos descompassos, a dúvida deixa de ser da natureza e passa a ser nossa. Até quando o ser humano vai tratar o desequilíbrio como algo distante, quando ele já atravessa tudo? No fim, não existe margem segura quando o rio adoece.