Texto: Paloma Rainho
Ilustração: Pedro Porangaba

Eu aprendi que guiar gente também é inventar caminho.
Mas ninguém conta o quanto cansa inventar o mesmo caminho tantas vezes.
Foram cinco dias de sol forte.
Sol que não conversa — só bate.
Daqueles que pesa nos ombros e faz a camisa colar nas costas antes mesmo do primeiro grupo chegar.
Quase mil alunos passaram pela Cop-Pop na UFMS, um evento que discutia espécies migratórias e a importância de cuidar dos caminhos que permitem que a vida continue.
Quase mil vozes, quase mil dúvidas, quase mil passos que eu precisava acompanhar mesmo quando o meu já queria parar.
Pareciam passarinhos em revoada: chegam de repente, fazem barulho e depois somem, mas deixam alguma coisa no ar.
E deixam também um pouco de cansaço na gente.
Eu tinha uma rota.
Mas a rota não me tinha.
Porque cada grupo mudava o ritmo, fazia a caminhada parecer mais longa do que era.
Cada explicação repetida ia gastando a voz devagarinho.
A gente começava no Parque da Ciência, onde as coisas podiam ser tocadas.
Tocar ajuda a acreditar.
Mas explicar muitas vezes seguidas faz a garganta pedir descanso que não vem.
Depois ia pro Museu de Arqueologia.
Ali o tempo ficava quieto.
Eu queria ficar quieta também.
Mas o trabalho era continuar.
Nem todo aluno escutava o silêncio — mas alguns escutavam.
E isso já bastava pra dar um pouco de fôlego.
No planetário, todo mundo olhava pra cima.
Achei bonito isso.
Às vezes é preciso um teto falso para lembrar o céu verdadeiro.
Às vezes também é preciso lembrar por que a gente começou.
No laboratório de zoologia, os bichos estavam parados.
Mas ensinavam.
Teve gente que fez cara feia.
Teve gente que chegou perto demais.
E teve gente que ficou olhando como quem guarda um segredo.
Depois vinha o corredor central.
Ali tudo virava mistura: ciência, falação, risada, curiosidade e desatenção.
Muitos só queriam brincar.
No começo, achei que era pouco.
Depois achei que era começo.
Porque o interesse também nasce assim: meio distraído.
De manhã, eu guiava.
De tarde, eu ajudava nas palestras.
Pé doía, voz falhava, cabeça cheia.
Eu era tipo ponte — não era o destino, mas ajudava a chegar.
E ponte também cansa de sustentar tanto peso.
Teve gente se equilibrando em elástico preso em árvore. Professor também foi.
Achei bonito ver adulto quase cair.
Porque ali estava todo mundo tentando alguma coisa nova.
Teve gente subindo parede.
Devagar.
Com medo.
Mas subindo.
E aquilo parecia dizer: continuar já é suficiente.
Na sexta, teve inauguração de livraria no Autocine.
Livro quieto, esperando a mão curiosa.
Quase como eu: cansada, mas esperando algo mais.
E o calor continuava.
Grudado na pele como se fosse parte do corpo.
O tipo de cansaço que não aparece na foto, mas aparece quando a gente finalmente senta.
No meio disso tudo, eu descobri uma coisa pequena:
nem todo mundo aprende perguntando.
Alguns aprendem só olhando.
Outros, só estando.
E eu — que achei que estava ali só pra mostrar o caminho —
descobri que o cansaço também ensina.
Ensina que ajudar muita gente ao mesmo tempo pesa.
Mas também preenche.
Porque no fim, mesmo exausta,
eu não estava vazia.
Eu estava cheia de histórias que passaram por mim.
E percebi:
às vezes ser caminho dá trabalho.
Mas é um tipo de trabalho que vale a pena.
