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Opinião 106

A guerra e a terra


Quando passeava pelas fronteiras palestinas em 2021 jamais imaginaria que, ao fim de 2023, não restariam nem as ruas que por ali andei. Na época de minha viagem, ainda não tinha noção que na extensão de meus pés perduraria uma guerra histórica. Em menos de um ano, o cenário relativamente calmo que vi foi substituído por ruínas indistintas do que um dia foi território palestino. Onde antes pulsava uma terra de promessas e vida, hoje estende-se um horizonte de destruição, cada vez mais distante para aqueles que foram impedidos de voltar. Entre esses rostos está Enas Hamdan, que chegou ao Brasil em janeiro de 2026 com seus dois filhos. Sua trajetória expõe uma realidade onde o deslocamento humano é o estágio final de um processo de sufocamento territorial que remonta décadas.

Para entender o que forçou Enas a buscar um lar em solo brasileiro, é preciso olhar para as raízes do conflito no território palestino. O doutor em geografia Marcos Timotéo Rodrigues de Sousa explica que o conflito no território palestino não é um evento recente, é complexo e multifacetado. A formação do Estado de Israel se deu em 1948, impulsionado pelo sionismo (é um movimento ultra nacionalista judeu que defende a criação e expansão do Estado de Israel), tem raízes na busca por expansão territorial, na partilha do território pelo Reino Unido e a França em uma conferência da Organização das Nações Unidas (ONU). O povo judeu, embora minoria no território, detinha, já naquele momento, a maioria da força produtiva, política e militar, e a partir da década de 1960 passou a contar com forte apoio dos Estados Unidos.

Os palestinos até então eram maioria na região e, com o avanço do sionismo, foram forçados a se retirarem para a parte mais seca e árida do país. Por consequência, passaram a possuir uma capacidade produtiva inferior, um estilo de vida mais humilde e simples. Com a dificuldade histórica em sobreviver, a recente guerra que assola a região abalou uma realidade que já estava fragilizada.

A trajetória da palestina Enas Hamdan é marcada por duas rupturas distintas. Se a ida ao Egito com seus dois filhos foi uma fuga súbita e forçada pela urgência de não perecer, a vinda ao Brasil representou uma escolha deliberada em busca de terra firme. Enquanto o primeiro refúgio foi ditado pelo desespero, o solo brasileiro tornou-se o palco de uma liberdade reinventada, uma decisão tomada para transformar a sobrevivência em destino.

A guerra transfigurou a paisagem de Enas e da população palestina. Onde outrora se desenhavam avenidas, feiras e paisagens naturais, hoje restam apenas ruínas, acampamentos improvisados e montanhas de lixo insalubres. Enas descreve seu povo como pessoas que amam a vida e a terra, empenhados em adotar medidas sustentáveis, como o uso de painéis solares e a prática da reciclagem, e em 2026 vivem inviabilizados pela destruição.

O que antes era um esforço coletivo por autonomia e dignidade foi sistematicamente destruído à medida que a ofensiva genocida aniquilou a infraestrutura de Gaza, colapsando os sistemas de esgoto e as redes elétricas. Enas relata como os sistemas de dessalinização da água foram destruídos, as famílias foram forçadas a caminhar longas distâncias e enfrentar horas de fila pelo mínimo de água potável. Somado ao desabastecimento, o apagão digital foi imposto por bombardeios estratégicos contra torres de telecomunicação. Com o acesso à internet restrito a cartões de dados caros e escassos, a conexão com o mundo passou a depender da energia de baterias recarregadas pelos poucos painéis solares que resistiram aos ataques.

O colapso de todos esses sistemas não são apenas danos colaterais da guerra, configuram o que Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, chama de ecocídio, conceituado como a destruição premeditada e intencional de ecossistemas. São danos muitas vezes irreversíveis, como a destruição de florestas para impedir o abrigo de oponentes ou o bombardeio de fontes de água.

Para além da destruição imediata, os conflitos armados deixam cicatrizes na terra que comprometem gerações. Bocuhy explica que as emissões de carbono resultantes de explosões permanecem na atmosfera por centenas de anos, tornando o rastro da guerra um fardo climático permanente. Além disso, quando indústrias tornam-se alvos, ocorre uma contaminação química intensa e imediata, esse envenenamento de solos e recursos hídricos gera danos tóxicos agudos que desafiam qualquer tentativa de remediação.

Essa “arma climática” manifesta-se de forma cruel no continente africano, para além da tragédia presenciada por Enas, ao sul do Egito, o Sudão enfrenta uma nova guerra civil, pouco vista pela grande mídia. Envolvendo duas facções: as Forças de Apoio Rápido (RSF) e as Forças Armadas do Sudão (SAF), os conflitos armados se somam à seca e causam um estado de acelerada deterioração do solo. O evento é considerado a maior crise humanitária da atualidade, há constante privação sistemática de alimentos, água e energia, focados em grupos étnicos específicos.

O relatório publicado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) em junho de 2025, confirma a tendência global: a degradação ambiental e os conflitos armados estão fortemente relacionados. Um quarto das crises globais entre 2014 e 2018 teve os recursos naturais como pivô da discórdia. Essa estatística revela um ciclo vicioso ,alimentado por uma inversão de prioridades financeiras gritante: enquanto a escassez de recursos gera guerra, o mundo opta por financiar o combate em vez da preservação.

Enquanto é gasto anualmente três trilhões de dólares em armamentos sob o pretexto da “segurança nacional”, estima-se que apenas 200 bilhões seriam necessários para resolver os principais riscos climáticos globais, de acordo com pesquisas feitas pelo Conflict and Environment Observatory (CEOBS). Essa prioridade bélica é uma confissão de culpa das nações, o foco na “segurança nacional” impede que as nações colaborem na solução de problemas humanos urgentes, priorizando o investimento bélico em detrimento da sobrevivência da espécie.

A história de Enas Hamdan nos revela que a imigração forçada é o reflexo de um caos que a escala global insiste em ignorar. Em 2024, já somavam 123 milhões de refugiados por guerras e perseguições, um contingente que, ao buscar abrigo com cerca de 170 conflitos ativos no mundo, os números pressionam os sistemas de saúde e emprego em países receptores e transferem o “reflexo do caos” para a escala global. A vinda de Enas ao Brasil personifica essa busca por terra firme em meio à incerteza. A escolha pelo solo brasileiro não foi um plano de vida anterior, mas uma oportunidade de resistência intelectual viabilizada pelo Grupo Coimbra de Universidades Brasileiras (GCUB), que oferece bolsas de mestrado e doutorado.

Ao trocar o horizonte da Europa ou do Golfo por uma bolsa de Doutorado no Brasil, Enas demonstra que o refúgio, para além da fuga, é uma tentativa deliberada de não permitir que a guerra aniquile também sua autonomia de pensamento e de decidir seu futuro. Em contextos de vulnerabilidade, migrar torna-se a única forma possível de garantir a sobrevivência, especialmente para populações que dependem diretamente da agricultura, pesca ou da integridade climática de seu território.

A guerra contra a terra é, em última instância, uma guerra contra nós mesmos. Enquanto o rastro de carbono e o envenenamento químico silenciam o futuro de territórios inteiros, a resiliência de refugiados como Enas nos lembra do que realmente está em jogo. Não se trata apenas de migrações ou estatísticas do Acnur, mas da urgência de escolhermos entre financiar o fim do mundo ou investir na continuidade da vida. Afinal, para quem busca terra firme, a maior fronteira a ser derrubada é a da indiferença global.