Texto: João Pedro Zequini | Maria Edite Vendas | Maria Fernanda Moura
Ilustração: Camila Zanin

“O Brasil é um exemplo para o mundo na questão ambiental”, afirmou Jair Bolsonaro durante a Cúpula do Clima de 2021, evento que reuniu líderes globais em prol da preservação ambiental. No mesmo período, o Pantanal teve 261,8 mil hectares consumidos pelo fogo, enquanto a região Sudeste enfrentava a maior crise hídrica do século XXI.
Engana-se quem pensa que o negacionismo se manifesta apenas de forma explícita; ele se camufla sob a retórica do “progresso e desenvolvimento”. Um discurso que vende a falsa necessidade de explorar recursos naturais como único caminho para a prosperidade econômica.
A lógica que trata preservação como um ‘obstáculo’ ao crescimento da nação, encontra sustentação institucional no Congresso Nacional, especialmente na Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), conhecida como bancada ruralista, composta por 341 parlamentares. Liderada por Pedro Lupion (PP-PR), a bancada encontra no Mato Grosso do Sul (MS) um de seus braços mais fortes. Parlamentares como a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura durante o governo Bolsonaro, e o deputado federal Marcos Pollon (PL-MS), personificam a defesa desse modelo de produção que colide com a urgência climática.
Em março de 2026, a agenda do Congresso contava com mais de 50 projetos de lei que facilitam a exploração e enfraquecem a fiscalização ambiental, o conhecido “Pacote da Destruição”. De acordo com o consórcio Climate Action Tracker (CAT – Rastreador de Ação Climática), mesmo após a saída de Bolsonaro, seus discursos e políticas continuam contribuindo para afastar a população brasileira da compreensão da urgência climática.
O dossiê “Contra o negacionismo da ciência: a importância do conhecimento científico” publicado por pesquisadores da PUC Minas, em 2022, explica que esse movimento une a extrema direita em torno de uma agenda comum. A retórica, marcada pela descredibilização da ciência e pela promoção de narrativas de progresso, opera como catalisador de conteúdos que combinam negacionismo, moralismo e interesses econômicos.
Esse movimento também se evidencia no ambiente digital. A pesquisa de Francisca Marli Rodrigues de Andrade, da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisou 375 mil tweets sobre as chuvas no Rio de Janeiro em 2019, e mostrou que menos de 0,01% das postagens relacionavam o evento ao aquecimento global.
O levantamento do Climate Action Against Disinformation (CAAD – Ação Climática contra a Desinformação), de 2025, indicou um crescimento expressivo nas postagens com conteúdo de negação climática na rede social X (antigo twitter) a partir de 2022, momento da aquisição pelo Elon Musk, outra figura do movimento negacionista.
No plano político, essa lógica aparece no PL 2.159/2021, conhecido como “PL da Devastação”, que flexibiliza o licenciamento ambiental no Brasil. Proposto pelo deputado Zé Vitor (PL-MG), o projeto foi aprovado em 2025, apesar dos vetos do presidente Lula, comprovando a força desses interesses no Legislativo.
Análises do Observatório do Clima e do Instituto Socioambiental (ISA), de 2025, apontam um padrão entre parlamentares que votam contra medidas ambientais: alinhamento à direita política, proximidade com o agronegócio e adesão a pautas conservadoras. Nesse contexto, o negacionismo climático passa a ser um projeto articulado.
A direita não criou o anti-ambientalismo, mas serviu como mensageira de uma estrutura pré-existente: o extrativismo colonialista, que segue um modelo de poder historicamente localizado, marcado por recortes de gênero, raça e classe. Composto pela FPA, lobbies de mineradoras e latifundiários que veem na desregulamentação ambiental a chance de expansão desenfreada, pautam o Estado brasileiro contra o próprio equilíbrio do meio ambiente.
Diante desse cenário, a questão é ambiental e sobretudo política. Até quando as decisões sobre o uso da terra e os impactos climáticos (que afetam primeiro e com maior impacto os vulneráveis) continuarão concentradas nas mãos de um grupo específico: homens, brancos, e heteronormativos da elite, cujos interesses entram em choque com nossa própria sobrevivência?
