Seca, fumaça, enchente e fome não atingem todos da mesma forma, revelam como gênero, raça e território definem quem mais sofre com a crise climática
Texto: Clara Dias | Evelyn Fernandes| Helena Fuzineli
Quando o ar se torna intoxicante e idosos e crianças adoecem, são as mulheres que assumem o cuidado. Quando o acesso ao alimento falha, são elas que reorganizam a subsistência familiar. Quando temporais e enchentes impactam as cidades, são elas que precisam garantir a segurança do núcleo.
Segundo o relatório Gender Snapshot 2024, estima-se que até 2050, 158 milhões de mulheres e meninas podem ser levadas para a pobreza decorrente das mudanças climáticas. O mesmo documento indica que há 47,8 milhões de mulheres a mais do que homens enfrentando insegurança alimentar e fome.
Essa estatística ganha rosto e território na Barra do São Lourenço, em Corumbá. Considerada uma das regiões mais preservadas da planície pantaneira, a comunidade vive em um isolamento que a protege, mas também a deixa vulnerável. Ali, onde o acesso é restrito a barcos ou pequenos aviões, a alimentação depende diretamente da terra e, sobretudo, das mãos femininas. São as mulheres as responsáveis pelos quintais produtivos e pelos armazéns de sementes que garantem a subsistência local.
No entanto, essa autonomia foi devastada pelas queimadas de 2019, 2020 e 2021. Segundo Nathália Ziolkowski, Diretora Presidenta da Organização não Governamental Ecologia e Ação (Ecoa), o impacto foi profundo. As camadas de cinza eram tão espessas que impediram qualquer novo plantio por um grande período. Para essas mulheres o fogo não destruiu apenas a vegetação, mas o futuro da alimentação de suas famílias. Sem a produção própria, a crise climática passou a ser sentida diretamente no prato. O transporte de alimentos de fora, além de levar dias, encarece um custo de vida que antes era simples.
A sobrecarga recai sobre as mulheres. São elas, muitas vezes, que assumem o papel da liderança, que precisam buscar alternativas para alimentar suas famílias, que precisam lidar com a inconsistência do clima e, ao mesmo tempo, manter o cuidado com crianças, idosos, da casa e do próprio território. A crise não apenas destrói os recursos naturais, mas reorganiza toda a dinâmica social dessas comunidades.

Diferentes cenários, a mesma sobrecarga
Embora as paisagens de Mato Grosso do Sul mudem drasticamente entre a imensidão das águas pantaneiras e o asfalto das periferias urbanas, o impacto da crise climática segue um padrão, sendo mais severo onde a infraestrutura é escassa e o trabalho de cuidado recai sobre as mulheres. A comparação entre os dados da Rede de Mulheres Produtoras do Cerrado e Pantanal (CerraPan), fornecidos pela Ecoa em primeira mão para o Projétil, e o cotidiano das favelas em Campo Grande revela uma emergência ambiental que ataca a autonomia feminina em diferentes frentes.
No campo, essa vulnerabilidade manifesta-se no silenciamento da renda e da própria terra. O diagnóstico CerraPan, que ouviu mulheres de 12 comunidades, aponta que a totalidade das entrevistadas já percebe mudanças drásticas no clima: 100% delas notam o aumento das secas, o calor mais intenso e, consequentemente, queimadas mais severas com presença constante de fumaça. Além disso, 75% das produtoras observam que os períodos de chuva foram alterados, o que dificulta o plantio de alimentos de onde tiram sua subsistência. As entrevistadas destacam que as principais áreas atingidas em suas vidas são a saúde das crianças, a produção de alimentos e a própria saúde física. Embora toda a comunidade seja afetada pelas mudanças climáticas, elas reforçam que o impacto as atinge de forma diferente, já que a gestão da escassez no dia a dia é uma tarefa majoritariamente feminina.
“Para essas mulheres o fogo não destruiu apenas a vegetação, mas o futuro da alimentação de suas famílias. Sem a produção própria, a crise climática passou a ser sentida diretamente no prato”
Essa realidade de sobrecarga atravessa a fronteira rural e chega aos centros urbanos. Nas favelas da capital sul-mato-grossense, onde o asfalto e a vegetação são precários, a vulnerabilidade climática é moldada pela arquitetura da exclusão. Segundo relatos de voluntárias colhidos na Central Única das Favelas de Mato Grosso do Sul (Cufa-MS), a maioria dos barracos é construída com materiais que absorvem calor, como latão, plástico e madeira, o que torna o interior das casas extremamente quente.
Essa combinação de calor extremo e infraestrutura precária culminou no caso emblemático da favela do Mandela, em 2023. Tratava-se de um ano muito quente, com ventanias intensas. Começou ali um incêndio que devastou as habitações, onde a causa provável foi um curto circuito devido aos problemas na fiação elétrica, frequentemente sobrecarregada em comunidades. Nesses momentos, as mulheres tornam-se a linha de frente, lidando com a perda de eletrodomésticos e cuidando de filhos que desenvolvem doenças e alergias crônicas pela seca e exposição a fumaça intensa.
A violência do clima, porém, não escolhe estação. Leticia Nunes Silva, presidente da Cufa, relata o caso de Lina, que veio para Campo Grande sozinha, e na madrugada em que deu à luz, uma enxurrada assolou seu barraco. A chuva não perdoou o nascimento de seu filho, e quando Lina chegou em casa, as roupas do bebe haviam sido contaminadas pela água poluída que arrastou a favela abaixo. O relato reforça que, seja na planície pantaneira ou no barraco de madeira, a crise climática não é neutra; ela tem endereço e gênero.
Do Corpo ao território
Se, por um lado, a crise climática se manifesta no ambiente, por outro, seus efeitos atravessam diretamente corpos e consciências, especialmente a das mulheres. São elas que sentem o peso das consequências das mudanças climáticas. Essas experiências não se limitam apenas ao espaço doméstico, mas também se expandem para o território, para as relações sociais e na busca por direitos.
A professora aposentada de Geografia da UFMS e doutora em meio ambiente e desenvolvimento, Icléia Albuquerque de Vargas destaca que, para sobreviver, os seres humanos e não humanos necessitam de um ambiente saudável. Com as mudanças climáticas acelerando e ameaçando sistematicamente o meio ambiente, a manutenção da vida no planeta torna-se inviável. Isso se traduz na fragilidade do atendimento aos direitos básicos da vida, caracterizando-se em violação sistêmica de direitos humanos, acentuando as desigualdades sociais, transformando o meio ambiente saudável em um privilégio, em vez de um direito universal.
É nesse ponto que a justiça climática feminista é impulsionada. O ecofeminismo se trata de uma cosmovisão que entende os seres humanos como parte da natureza, não uma entidade separada dela. Icléia ressalta que natureza e mulheres são seres vivos e autônomos, não objetos inertes passivos, explorados e violados pelo poder masculino. A professora evidencia que o movimento destaca que a criatividade e a produtividade da natureza e das mulheres são os fundamentos de todos os sistemas de conhecimento e de todas as economias. A visão de mundo da sociedade brasileira contemporânea, como sistema de conhecimento e forma de organização da economia foi constituída por séculos sob o efeito do colonialismo, do industrialismo, do uso da violência, da cobiça e da destruição da natureza e culturas.
“Ao mesmo tempo em que enfrentam os impactos da crise climática, essas mulheres constroem alternativas para resistir a ela“
Mais do que apenas um conceito, esse movimento é revelado na organização cotidiana dessas mulheres. Em diversas comunidades do Cerrado e do Pantanal, o combate à crise climática tem impulsionado a criação de associações femininas. Embora surjam focadas na produção, essas frentes rapidamente ganham contornos políticos, como é o caso da CerraPan. A rede articula o trabalho coletivo de mulheres que aliam o extrativismo sustentável à proteção de seus territórios ancestrais.
Essas associações passam a atuar não apenas na geração de renda, mas também na defesa do território, no acesso à água, na segurança alimentar e na garantia de direitos básicos. Ao mesmo tempo em que enfrentam os impactos da crise climática, essas mulheres constroem alternativas para resistir a ela.
Dura indiferença
No Brasil, o debate sobre ecofeminismo ainda é tratado como secundário ou banal. Frequentemente, setores da extrema direita empenham-se em retroceder tanto nos direitos das mulheres quanto nas políticas ambientais. Nathália Ziolkowski, que integra o movimento feminista e ambientalista em organizações mistas e femininas há alguns anos, esclarece que, em sua visão, a pauta de gênero ainda caminha a passos lentos e enfrenta resistência, sendo muitas vezes estigmatizada como “radicalismo”.
Outro ponto que chama atenção é a origem dos recursos destinados a iniciativas que articulam clima e gênero. Na prática, grande parte dos financiamentos ainda vem de fora do país para a Ecoa e outras instituições. Fundos internacionais e organismos multilaterais têm assumido protagonismo no incentivo a projetos que colocam as mulheres no centro das ações climáticas, muitas vezes exigindo, inclusive, a inclusão da perspectiva de gênero como critério obrigatório.
Um exemplo prático é o recente aporte do governo do Canadá que chegou a Ecoa via Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF) para o Cerrado. Ao financiar esse hotspot (bioma com mais de 50% de degradação), o fundo não apenas supre a falta de investimento estatal no país, mas exerce uma pressão positiva ao exigir a inclusão da perspectiva de gênero como critério obrigatório para os projetos ambientais.
Com essa pressão externa é visível um avanço nacional importante. Por exemplo, o Plano Clima 2024–2035, que pela primeira vez incorpora a Estratégia Transversal para Ação Climática Mulheres e Clima (ETMC) como um de seus eixos. Um marco histórico ao reconhecer, de forma institucional, que a crise climática precisa ser enfrentada também a partir da perspectiva de gênero.

Em entrevista com a presidente da Cufa, Leticia Nunes da Silva, ela falou sobre como o poder público se demonstra omisso e distante da situação de vulnerabilidade das moradoras periféricas. Em Campo Grande, ainda há resistência em reconhecer as favelas, o que inviabiliza e exclui seus moradores, que são em sua maioria mulheres.
A proposta adota uma abordagem interseccional, considerando fatores como raça, classe e território na formulação de políticas públicas, além de prever ações como a criação de protocolos de proteção para mulheres em situações de desastres ambientais, a capacitação de agentes comunitários em territórios vulneráveis e a produção de dados desagregados por gênero, fundamentais para orientar decisões mais eficazes.
O desafio é garantir que esse avanço não permaneça apenas no campo do planejamento, mas que se traduza em políticas efetivas nos territórios onde os impactos já são realidade. Afinal, mais do que números ou diretrizes, a crise climática tem nome, rotina e corpo e, nesses locais, são as mulheres que permanecem como as mais afetadas.
Resistência semeia o futuro
O cenário de Mato Grosso do Sul reflete uma tendência global alarmante. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), as mulheres representam hoje cerca de 80% dos deslocados por catástrofes climáticas. Seja no interior do estado ou nas periferias da capital, elas são as primeiras a sentir o impacto quando o equilíbrio se rompe. Mas não são apenas as mais afetadas, são as primeiras que se levantam diante do desafio.
“Seja na planície pantaneira ou no barraco de madeira, a crise climática não é neutra; ela tem endereço e gênero”
Nas comunidades rurais e indígenas, essa resistência se manifesta na proteção das sementes crioulas e no domínio de técnicas ancestrais de regeneração do solo. Mesmo quando o clima altera o ciclo das águas, são elas que insistem em manter vivos os saberes tradicionais, garantindo que a biodiversidade do Cerrado e do Pantanal não se perca sob as cinzas. Já nas favelas de Campo Grande, a resiliência assume a face da reconstrução imediata. Após incêndios ou enchentes que invadem os barracos, são em maioria as mulheres que limpam a lama, reorganizam o cotidiano em meio aos escombros e garantem a proteção dos filhos onde a infraestrutura pública insiste em falhar.
A força que move essas mulheres nasce da experiência coletiva e da necessidade imperativa de sustentar a vida, seja na terra ou no asfalto. Mais do que vítimas de uma crise que não criaram, elas aparecem como as arquitetas de novas formas de existir. Afinal, se o clima pesa nelas, é por meio de suas organizações e capacidades inesgotáveis de resistir que reside a única semente possível de futuro.

