Enquanto amplia sua produção e o impacto ambiental, setores do agronegócio sul-mato-grossense buscam se adaptar a práticas sustentáveis, mas ainda há dúvidas sobre a efetividade dessas mudanças
Texto: Allan Klinsmann | Anna Bruschi | Sophia Lescano
Fotos: Divulgação Famasul
A agricultura brasileira há muito deixou de ser apenas um espaço de produção para se tornar também um território de embates econômicos, ambientais e simbólicos. Em meio à expansão do agronegócio (Agro) e à crescente pressão global por sustentabilidade, o Brasil se posiciona em um cenário de contrastes: ao mesmo tempo em que se consolida como potência agrícola, enfrenta questionamentos sobre os impactos ambientais associados a esse crescimento. Essa dualidade não se limita aos números, se expressa também na forma como o próprio setor se apresenta ao mercado e à sociedade. É nesse contexto que o país passa a projetar, para dentro e para fora, uma imagem que nem sempre se sustenta de forma homogênea: a de um segmento produtivo em transição para a sustentabilidade.
Nos últimos quatro anos, essa tensão ganhou maior visibilidade em eventos internacionais realizados no próprio território brasileiro: a Conferência das Partes (COP30), em Belém do Pará, em novembro de 2025 e a Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), em março de 2026 em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. O agro esteve no centro das discussões, sendo apresentado, ao mesmo tempo, como parte do problema e potencial parte da solução. Essa dualidade, longe de ser pontual, reflete uma característica estrutural do setor no Brasil.
Os números ajudam a compreender essa complexidade. Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, entre 2022 e 2025, o setor apresentou crescimento na produção de 5,8%, além de expansão significativa da área plantada em 2024 em relação ao ano anterior. Esse avanço consolida o país como um dos principais exportadores globais de commodities agrícolas. Ao mesmo tempo, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), em 2024, a Agropecuária foi responsável por mais de 25% das emissões no Brasil, em função do desmatamento associado à abertura de novas áreas para cultivo e pastagem e com destaque para a criação bovina, responsável pela liberação de gás metano. A relação entre produção e impacto ambiental também se evidencia no uso da terra. De acordo com o MapBiomas, cerca de 90% do desmatamento registrado no Brasil em 2024 está associado ao setor, principalmente pela conversão de áreas naturais em pasto e lavouras. Esse processo ocorre de forma desigual entre os biomas, mas mantém uma característica comum, a expansão territorial como estratégia de crescimento.
No paralelo, o Agro também é responsável pelo consumo considerável de recursos hídricos. Segundo dados apresentados por André Luiz Siqueira, diretor de Programas e Projetos da ONG Ecologia e Ação (ECOA), o setor consome mais de 50% da água no país. “E você tem, inclusive, o desrespeito completo das Áreas de Preservação Permanente (APPs) – são áreas da natureza protegidas por legislação específica, cujo objetivo é garantir a manutenção de ecossistemas essenciais para o equilíbrio ambiental –, onde tem soja e cana chegando até o espelho d’água”. Isso amplia o debate sobre a gestão de recursos naturais em larga escala.
Dentro do campo
Em termos de legislação, na percepção de quem vive no campo, o Brasil aparece como um dos principais instrumentos e também um dos principais pontos de tensão desse processo. Produtor rural no Pantanal de Aquidauana, Mauro Ribeiro Corrêa, afirma que a preservação ambiental faz parte da rotina produtiva há gerações. Sua família atua na pecuária desde 1840, e, segundo ele, o cumprimento das normas ambientais é uma exigência constante da atividade. “O Pantanal é um dos biomas mais preservados do país e, por lei, temos que manter entre 20% e 30% de reserva dentro de cada propriedade”, explica Mauro Ribeiro Corrêa.
“O Pantanal é um dos biomas mais preservados do país e, por lei, temos que manter entre 20% e 30% de reserva dentro de cada propriedade”, explica Mauro Ribeiro Corrêa
As práticas adotadas, como a manutenção dessas áreas e a proibição de caça, seguem diretamente o que determinam as regras. Apesar disso, Corrêa reconhece que a adoção dessas medidas não ocorreu por iniciativa própria, mas por imposição legal. Ele avalia que o Brasil possui “uma das legislações mais restritivas do planeta”. Para ele, embora o cumprimento das normas ambientais seja obrigatório, o apoio governamental ainda é limitado. “O nosso estado começou, há pouco tempo, a remunerar por serviços ambientais, e é o primeiro no país. Não temos incentivo federal algum e nem crédito nessa área”, afirma.
A fala do produtor se relaciona com a implementação do PSA Bioma Pantanal (2025), considerado o maior programa de conservação ambiental do país, que surgiu como uma inovação por remunerar produtores que mantêm vegetação nativa excedente ao exigido por lei e prevenir incêndios, utilizando recursos do Fundo Clima Pantanal. O Mato Grosso do Sul compra licenças já emitidas de produtores que preservam, consolidando o entendimento de que “preservar compensa”, unindo conservação ambiental à renda no campo. Apesar desse avanço em nível estadual, a ausência de políticas federais mais abrangentes de incentivo, como linhas de crédito específicas ou subsídios diretos vinculados à conservação, é vista como um dos desafios à ampliação dessas práticas. Em comparação com modelos adotados em outras regiões do mundo, onde a sustentabilidade é fortemente apoiada por investimentos econômicos, o caso brasileiro se divide entre o rigor das exigências legais e a oferta de mecanismos de apoio financeiro.
Nos Estados Unidos, a legislação ambiental agrícola é estruturada de forma distinta. Programas como o Conservation Reserve Program (CRP), administrado pelo Departamento de Agricultura, incentivam a preservação espontânea por meio de compensação financeira aos produtores que retiram áreas de produção para recuperação ambiental. No Canadá, políticas como o Environmental Farm Plan (EFP) funcionam com base em adesão voluntária e incentivos técnicos e financeiros, priorizando a adequação progressiva das propriedades. Em ambos os casos, a proteção ambiental tende a estar mais associada a políticas públicas de incentivo do que a obrigações diretas sobre o uso da terra privada.
O professor da Faculdade de Engenharias, Arquitetura, Urbanismo e Geografia (FAENG) da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) Ariel Ortiz Gomes afirma que a existência de leis e normas técnicas é fundamental, mas não suficiente. Segundo ele, projetos ambientais vinculados ao agronegócio precisam seguir parâmetros internacionais, como a série de normas ISO 14000, que correspondem a um Sistema de Gestão Ambiental (SGA) editado pela ISO, sigla em inglês para Organização Internacional de Padronização. “A certificação exige que a empresa comprove, por meio de indicadores, que suas práticas ambientais são reais e acompanhadas ao longo do tempo”, explica.




Bola em campo
A distância entre norma e prática fica mais evidente quando se observa a rotina das propriedades rurais. O engenheiro agrimensor e técnico em agropecuária Márcio Sales Palmeira acompanha processos de regularização ambiental e destaca que a busca pela regularização ambiental ainda acontece, em muitos casos, de forma reativa. “Na maioria das vezes, o produtor nos procura quando há a notificação de algum ilícito pelo órgão fiscalizador”, explica. Ele aponta que esse comportamento começa a mudar, impulsionado por maior conscientização e pela exigência de instrumentos como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), que se tornou obrigatório para a regularização das propriedades. “Existe uma evolução na percepção, mas ela ainda não é homogênea”, afirma.
Uma iniciativa que surgiu a partir das obrigações ambientais se vê na propriedade do produtor rural Fábio Reis, o projeto de proteção das nascentes do Guariroba, responsável por parte do abastecimento de água de Campo Grande. Ele afirma que o debate sobre práticas de menor impacto ambiental ganhou força a partir de ações locais, como essa. “Foi quando começaram a exigir mais cuidado com as fontes. Ali, a gente viu que precisava preservar mesmo”, relata. Segundo Reis, medidas como o cercamento de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e a restrição do acesso do gado às nascentes passaram a fazer parte da rotina produtiva. “Hoje, a gente também faz curva de nível nas invernadas para evitar erosão”, explica.
Entre os principais desafios enfrentados pelos produtores está a recomposição de áreas de reserva legal. “A maior dificuldade é compatibilizar o desenvolvimento econômico com os conceitos de sustentabilidade ambiental”, destaca o engenheiro agrimensor.
“A maior dificuldade é compatibilizar o desenvolvimento econômico com os conceitos de sustentabilidade ambiental”, destaca o engenheiro agrimensor
Ele aponta que práticas sustentáveis já vêm sendo adotadas, especialmente em biomas como o Pantanal, onde há maior atuação do poder público na regulamentação do uso sustentável. E ainda ressalta que essas atividades precisam ser ampliadas. “Existem ações em andamento, mas é necessária maior integração do produtor rural nessas políticas”, afirma Márcio Palmeira. Ele também observa uma mudança gradual na forma como o tema é percebido no campo. Se antes a regularização ambiental era vista predominantemente como uma obrigação, hoje começa a ser associada a ganhos econômicos e valorização da propriedade. “Atualmente, muitos produtores já entendem que estar regularizado agrega valor à atividade e cumpre a função social da propriedade”, explica.
Seguindo esse raciocínio, o produtor Mauro Corrêa acrescenta que o rigor da fiscalização e das penalidades pode impactar diretamente a continuidade da produção, o descumprimento das normas pode resultar em multas que chegam a milhares de reais por hectare, além de sanções como embargo da propriedade, impedindo qualquer atividade produtiva. “Sem produção, como o produtor vai arcar com essas penalidades?”, questiona. A situação evidencia como a aplicação das normas, ao mesmo tempo em que busca garantir a preservação, também interfere na dinâmica econômica das propriedades rurais.
Com forte presença da pecuária e da produção de grãos, o estado se consolidou como um dos principais polos do Agronegócio nacional. Dados do IBGE, compilados pela Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação de MS (Semadesc), indicam que a produção agrícola sul-mato-grossense passou de cerca de 70 milhões de toneladas, em 2023, para uma estimativa superior a 75 milhões, em 2025, acompanhada pela expansão da área plantada, que já ultrapassa 7 milhões de hectares. Esse crescimento reforça a importância econômica do setor e evidencia o avanço contínuo sobre o território. A ampliação da produção ocorre, em parte, sobre áreas já abertas, mas ainda levanta questionamentos sobre os limites ambientais dessa expansão, especialmente em biomas sensíveis como o Cerrado e o Pantanal.
Entre as alternativas em discussão, o mercado de carbono se apresenta como uma possibilidade de alinhar interesses econômicos e ambientais “O produtor rural tem de ser reconhecido não apenas como parte da solução, mas como protagonista na transição para uma economia de baixo carbono”, opina Lucas Galvan, superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MS) e membro da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul (Famasul). Nesse sistema de negociação, empresas e países compram e vendem “créditos de carbono” para compensar suas emissões de gases de efeito estufa. É importante considerar que não há consenso em relação ao tema. Para André Luiz, diretor do ECOA, o mecanismo funciona mais como vitrine do que como ferramenta real de conservação. “É uma grande bancada de negócios para que empresas consigam se eximir de outras responsabilidades”, critica André Luiz
“É uma grande bancada de negócios para que empresas consigam se eximir de outras responsabilidades”, critica André Luiz
Ao observar esse conjunto de fatores, crescimento econômico, legislação rigorosa, desafios de implementação e impactos ambientais, torna-se evidente que o agronegócio brasileiro opera em um cenário de múltiplos caminhos e tensões. A sustentabilidade, nesse contexto, não se apresenta como um conceito único, mas como um campo em construção, permeado por interesses, limites e possibilidades.
O campo segue dividido. Não apenas entre áreas produtivas e de preservação; também entre diferentes formas de entender o que significa produzir, de maneira sustentável, em um país que combina protagonismo agrícola e desafios ambientais de grande escala.
