Texto: Clara Dias Garcia | Júlia de Cássia | Júlia Ortega

Na edição 105 do Projétil o foco de atenção foram as mulheres. Um tema urgente: denunciar e evidenciar o que ainda precisa ser nomeado, a violência de gênero. Elaborado em uma época em que a misoginia é um dos problemas mais crônicos e recorrentes na sociedade, a edição 105 contou com matérias fortes, que desafiavam o público a, ainda que por um tempo, usar um outro ponto de vista. O leitor, em especial homem, era positivamente forçado a olhar o mundo pelos olhos das mulheres. Queremos pensar que a partir dessa mirada, ele pode entender um pouco mais sobre as diversas lutas vividas no dia a dia feminino.
Na edição 104 o tema guarda-chuva foi um Brasil, com S, diverso e sincrético, abraçando as mais complexas formas de existir em nosso território. Traçou uma narrativa entre a religião, a política e o futebol, esses famosos assuntos indiscutíveis. As brasilidades foram enaltecidas na visualidade, no cinema e na literatura. Edição boa de lembrar quem somos, de Chuí ao Oiapoque.
Queremos nos debruçar, contudo, com um pouco mais de atenção, no Projétil 105. Composto por imagens atrevidas e provocativas, as representações visuais podem chocar ou divertir quem passa os olhos pela página. Os textos, em sua maioria, não ficam para trás, com discussões sobre prostitutas e masturbação embaixo do nariz de eleitores da bala, bíblia e boi.
Escrito e publicado no ano em que uma colega de profissão e egressa do curso, Vanessa Ricarte, foi vítima de feminicídio, o caderno especial, “Entre rótulos e silêncios”, trata das limitações impostas às mulheres, tanto em roupas quanto em caixões. A reportagem das folhas centrais do jornal coloca a caneta na ferida aberta do MS, o estado com a terceira maior taxa de feminicídio no Brasil. E desata nós que nos sufocam em espartilhos cada vez mais apertados, buscando onde foi parar a nossa liberdade feminina.
Apesar do cuidado e atenção à tema tão importante, o Projétil 105 teve de ser tirado de circulação. Uma – apenas uma – informação imprecisa gerada por um prompt foi o bastante para o jornal sair de uma edição primorosa para uma que foi tirada de circulação. O uso indevido da Inteligência Artificial (IA) e a proliferação de Fake News na produção jornalística é inadmissível e avesso à natureza crítica, reflexiva e, acima de tudo, humana da profissão.
Uma acusação a alguém que não matou uma mulher, um falso caso inserido sorrateiramente em uma produção feita em um dos estados que mais mata parece até inacreditável. Um erro quase impensável de apuração, que deveria ter sido feita pelas autoras e autores, teve a “mãozinha” de uma IA que replica o que já existe (ou inventa o que não existe).
Vivemos uma época onde o jornalismo tradicional goza de pouco prestígio, a rapidez em acessar a realidade com imensa prontidão ficou mais fácil do que esperar a construção embasada e densa da notícia. A simplificação do conteúdo jornalístico em sua forma, consequentemente, acarreta em uma perda do conteúdo. Consumos cada vez mais imediatistas exigem processos produtivos rápidos, que muitas vezes acabam empobrecidos.
Com o Projétil não poderia ser diferente. O uso de IA generativa já está inserido no fazer jornalístico, não podemos negar, e invade os ambientes de ensino. Tanto que a própria UFMS publicou sua Política de Inteligência Artificial, que se pauta pela ética, responsabilidade, transparência e supervisão humana.
Profissionais e estudantes submetidos a deadlines imediatos deixam passar incongruências despercebidas. Mas e quando o prazo é longo e a necessidade é de aprendizagem, qual a desculpa?
Tentamos realizar, aqui, um momento de reflexão acompanhado de um pedido de desculpas, afinal o ambiente universitário é um meio de experimentação, onde o tempo e a dedicação dizem respeito à qualidade do nosso trabalho. Um erro de checagem é inaceitável, mas ele não define nem uma vírgula sequer do Projétil. Nosso jornal segue transbordando de pautas necessárias, e nossas equipes sustentam compromissos sérios com a verdade. Assumimos os erros para aprender com eles e criar novas perspectivas para o Projétil continuar representando o Jornalismo: laboratorial, experimental e necessário.
O Projétil é um espaço de aprendizado em que as/os estudantes praticam o que aprendem ao longo do curso. O esforço da turma de produzir um jornal do zero foi afetado justamente por isso. A produção segue critérios jornalísticos e visa manter acima de tudo a verdade, a credibilidade e a ética. Por isso, todas as medidas necessárias foram tomadas pela diretoria executiva responsável pela edição.
