Em A Melhor Mãe do Mundo, a personagem de Shirley Cruz vê na coleta de resíduos recicláveis uma saída para escapar da violência doméstica
Texto: Emelyn Gomes | Kamilly Fernandes | Wandril Martins
Ilustração: Wandril Martins
“A Melhor Mãe do Mundo” é um longa-metragem brasileiro de 2025, dirigido por Anna Muylaert, focado na história de Gal (Shirley Cruz), uma mulher preta e catadora de resíduos recicláveis, que decide fugir, ao lado dos filhos, da violência doméstica infringida pelo marido Leandro (Seu Jorge). O filme traz aos holofotes a forma com que a vulnerabilidade social e econômica podem ser um obstáculo à superação de ciclos de violência doméstica.
Gal, protagonista da narrativa, é o reflexo da realidade de milhares de mulheres que retiram seu sustento da coleta de resíduos sólidos. Os dados referentes à porcentagem exata de catadoras em atividade ainda carecem de investigação adequada, mas existem planos do Ministério das Mulheres em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) para desenvolver uma pesquisa nacional inédita com a intenção de mapear o perfil dos catadores do país por gênero, raça e território, o que promete expandir o debate.
A atriz Shirley Cruz enfatiza o perfil dos catadores. “É o corpo negro”. Ao explicar a preparação para o papel, onde Cruz passou dias com as catadoras locais para entender suas rotinas, ela afirma ter vivido como essas mulheres, destacando que existem “milhares de Gals” espalhadas pelo Brasil. “No estado de São Paulo, na ocasião do filme, elas eram responsáveis por 70% do recolhimento do lixo e o poder público por 30%. Por que elas não ganham bem?”, questiona.
A atividade exercida de forma autônoma, geralmente é realizada em condições inadequadas, sem o uso de Equipamento de Proteção Individual (EPI) e vulnerável aos riscos do tráfego de veículos. Afinal, quem nunca viu uma carroça de reciclagem em meio ao mar de carros? Ainda existe a desvalorização da mão de obra: sem um salário fixo, as catadoras dependem do que coletam no dia.
No contexto da violência doméstica, de acordo com um levantamento realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, cerca de 62,6% das vítimas de feminicídio entre 2021 e 2024 no país correspondem a mulheres negras, concluindo que a incidência do crime é maior em cenários de vulnerabilidades sociais e econômicas. Estes contextos reduzem significativamente o acesso a serviços públicos de proteção. As desigualdades são mais severas em mulheres marginalizadas (pretas, periféricas e/ou com baixa escolaridade), como é a realidade de Gal retratada no filme.
Um fator relevante para a personagem e para outras mulheres vítimas de violência doméstica é a independência financeira. No filme, essa conquista representa à Gal um sopro de esperança em direção à uma realidade mais segura para ela e os filhos, que é alcançada apesar dos diversos obstáculos infringidos pelo contexto socioeconômico da personagem.
Outra vulnerabilidade abordada pelo longa é a naturalização da violência dentro dos ambientes familiares. Na trama, quando Gal consegue fugir para a casa de uma prima, seus familiares menosprezam a violência sofrida por ela e incentivam uma reconciliação com o abusador, demonstrando a força do pacto social em proteger abusadores em prol de garantir a manutenção da instituição da família.
A realidade social das catadoras é indissociável em sua essência da questão ambiental brasileira. O descaso que a população emprega no descarte de resíduos – se recusando a fazer a separação correta ou no descarte em lugares inadequados – é um reflexo direto sobre como as trabalhadoras são enxergadas. Essas mulheres são vistas com o mesmo desdém que é reservado ao próprio lixo: descartáveis e jogadas às margens da sociedade, indignas de um olhar atento às suas realidades. “Eu não entendo a desvalorização, o descaso, o nojo. A sociedade tem nojo daquelas mulheres”, conclui Shirley Cruz.

