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Opinião 107

Agro é o dono da verdade?


“Mas se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento”. O trecho do livro 1984, escrito por George Orwell, foi publicado pela primeira vez em 1949. A obra é considerada profética: o protagonista Winston Smith trabalha no Ministério da Verdade, cumprindo a função de controlar e falsificar as informações transmitidas à nação.

Assim como na obra de Orwell, a Organização Não Governamental (ONG) De Olho No Material Escolar (Donme) segue o mesmo intuito de controlar a narrativa ao substituir os termos relacionados ao agronegócio para palavras com conotação menos nociva nos livros didáticos. A ONG tem o objetivo de tornar o agro mais positivo aos olhos dos estudantes e disponibiliza em seu site uma “agroteca”, que contém desde artigos a gibis com narrativas suavizadas.

Assuntos sobre pecuária e agricultura estão presentes na vida das alunas e alunos desde o Ensino Fundamental 2, com questões de economia e trabalho em espaços rurais. Em fevereiro de 2026, a agência de checagem Aos Fatos revelou uma página de um livro de Ciências do Ensino Médio da editora Scipione que substituiu o termo “agrotóxicos” por “defensivos agrícolas” por pressão da Donme. Os pedidos de adulteração feitos pelo lobby do agro afetam outros assuntos relacionados à expansão agrícola, como o desmatamento e as queimadas, que são práticas comuns para a conversão de biomas em pastos e lavouras.

Um dos financiadores da Donme é Christian Lohbauer, ex-diretor da Associação Brasileira dos Exportadores de Frango (ABPA) e do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg). Lohbauer defende um revisionismo histórico, alegando que o conteúdo nos livros didáticos escolares sobre a história do agro, incluindo trabalho escravo nas plantações de cana-de-açúcar, estão errados e transmitem desinformações às crianças e adolescentes. Segundo o artigo sobre agronegócio e educação de Andressa Pellanda e Marcele Frossard, de 2025, a ONG possui outros financiadores além de Lohbauer, como a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) e a Croplife Brasil, representante das maiores fabricantes multinacionais de agrotóxicos, presidida por Lohbauer até 2023.

Um vídeo publicado no site da Donme, em 2023, defende que a pecuária seria a solução para a diminuição dos gases de efeito estufa, mesmo que a realidade mostre o contrário. Segundo o Observatório do Clima, o gás metano é responsável por mais de 25% do aquecimento global, sendo o agro o setor responsável pelo maior número de emissões de gás metano. Em 2023, o Brasil foi o quinto maior emissor de metano do mundo, com 21,1 milhões de toneladas, sendo 75,6% resultado das atividades de agropecuária.

Dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 2021, mostram que foram usadas719,5 mil toneladas de agrotóxicos nas plantações brasileiras. O número é quase três vezes maior do que o da China, principal produtor de agrotóxicos mundial, com 244 mil toneladas. A União Europeia é um dos principais exportadores de agrotóxicos para o Brasil. Entre os produtos mais usados no país, cinco são proibidos de serem aplicados nos países europeus devido aos danos cerebrais causados em crianças e ao câncer de tireoide. A promoção do agro é frequente nas mídias e veículos de comunicação. Entre as mais famosas que exaltam o setor está o “Agro é pop”, frase conhecida desde 2016 quando a Rede Globo começou a transmiti-la nos intervalos da programação. A música sertaneja também é muito utilizada para unir o urbano com o rural e idealizar a vida narrada nas letras. Essa minimização dos danos causados pelo agronegócio, contudo, prejudica a educação. O papel das instituições de ensino é transmitir conhecimento técnico e com embasamento científico, mas isso se torna um desafio quando pretensos educadores tentam manipular os conceitos para mudar a narrativa e distorcer a realidade.