Texto: Iasmin Rodrigues | Pietro Vargas | Theoangelo Cruz
Ilustração: Ághata Francelino

Um tamanduá-bandeira em uma conversa com outros de sua espécie, ouviu histórias de lugares distantes. As árvores eram cinzentas, abrigavam estrelas no topo e o verde do chão era repartido ao meio por uma longa reta de pedra com faixas amarelas. A história dizia ainda que os animais que vivem lá andam em máquinas de metal que soltam fumaça, andam por grandes caixas, e não só isso, como também às vezes dizem morar dentro delas. Ouviu também que aquilo era o futuro e que, em breve, as árvores ao redor deles e o mundo como conheciam iam se acabar. Teriam de ser colocados em jaulas ou migrar para bem longe de tudo que chamaram de lar.
Interrompendo quem falava, outro tamanduá se prontificou a dizer que já esteve lá, que viu o futuro de perto, e que se quisessem ver também, teriam que caminhar por um tempo em direção ao fim da floresta. Ele contou que viu as faixas amarelas e as seguiu até encontrar uma grande caixa de vidro, onde os animais entravam com pequenos plásticos em mãos e saiam com papéis coloridos usados para trocas comerciais diversas. Porém, a curiosidade o fez chegar perto demais. Os animais do lado de lá gritavam e usavam pequenas coisas com telas brilhantes para conversar com alguém, e não muito depois, ele foi recolhido e levado de volta para casa em uma das máquinas de metal.
A história parecia boa demais para ser verdade. O primeiro tamanduá passou a noite olhando para as estrelas e refletindo sobre o futuro, sobre o mundo que avançava para dentro da floresta em que agora ele dormia. Pensou em si mesmo dentro de uma máquina de metal, com papéis coloridos e plásticos em mãos, que usaria para trocar por coisas novas e bonitas que talvez nem teriam uso. Pensou tanto que decidiu tomar uma atitude. Se levantou e começou a vagar em direção ao fim da floresta, olhando ao seu redor e pensando em como era ultrapassado todo esse verde, e seguiu sonhando com o futuro.
Para sua surpresa, a caminhada foi mais curta do que imaginava. Na direção em que seguia, aos poucos começava a ouvir os barulhos da vida desses animais futurísticos tão enigmáticos, e que trariam a ele este mesmo futuro. Começou a sentir aos poucos o conhecido cheiro da mata ser substituído pelo moderno odor da fumaça. Notou o frescor monótono da brisa entre as árvores e o mormaço do progresso. Aos poucos, as árvores iam acabando. Logo à sua frente podia enxergar as ruas de pedra com faixas amarelas, seus olhos eram cegados pelo brilho das estrelas em grandes postes de metal. Ali estava o futuro.
As caixas eram lindas, exuberantes e brilhantes, guiando o caminho. A cada quadra, o tamanduá encontrava uma nova curva, um novo horizonte de possibilidades que poderia seguir. Aos poucos, as caixas começaram a ficar iguais demais, o cheiro de fumaça começou a causar náuseas, as luzes dos postes começaram a cegar, e quando o sol começava a nascer e tudo parecia se tornar igual e repetitivo, ele encontrou a maior caixa de todas.
Era uma caixa tão grande que tinha outras caixas dentro. O tamanduá recolheu algumas plantas que pensou que poderiam servir como papel colorido e valioso para trocas e partiu para dentro. Lá, ele sentiu perfumes que imitavam o odor da madeira, e se perguntou por que derrubam as árvores se querem sentir o cheiro delas. Sentiu o gelado do ar-condicionado e se perguntou por que não apenas apreciar a brisa da floresta. Viu pessoas comendo e gastando o papel, sendo que lá na floresta ele conseguia comida sem isso. Tudo parecia estranho. Por que o futuro parecia imitar o passado?
Ele foi recolhido por alguns homens que se vestiam iguais. Agora na máquina de metal, entendia que o único animal ali era ele, afinal, em uma terra tão cinza, não poderia existir algo tão colorido quanto um tamanduá.
