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Reportagem 106

Maior planície alagável em chamas

Com a COP15 em Campo Grande, o Pantanal ganhou visibilidade em meio a uma das maiores crises climáticas dos últimos anos

Texto: Juliana Garcia | Querem Hapuque | Victor Kawano
Fotos: Luiz Felipe Mendes


A escolha de Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul (MS), para sediar a Conferência sobre Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), em março de 2026, reforçou a importância do Pantanal no cenário ambiental global. Apesar disso, o bioma considerado pela Constituição Federal de 1988 patrimônio nacional e reconhecido internacionalmente como patrimônio natural da humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), enfrenta o agravamento das secas e das queimadas que ameaçam diretamente sua biodiversidade

De acordo com um dos representantes do Ministério do Meio Ambiente, presente no evento, Roberto Ribas Gallucci, o ano de 2026 alerta para um dos cenários mais alarmantes dos últimos anos. Até março deste ano, o Pantanal já registrou um aumento de 323% nas áreas queimadas, cenário que compromete a sobrevivência de diversos animais. O bioma, de acordo com Gallucci, funciona como ponto de parada, descanso e alimentação para cerca de 190 espécies de aves migratórias, incluindo Maçaricos, Batuíras, Talha-mar, Papa-moscas entre outras variedades, que percorrem rotas entre o Hemisfério Norte e o extremo sul da América do Sul. 
O biólogo e diretor de sustentabilidade da Associação Angá, Gustavo Malacco, participante da COP15, explicou que essas mudanças afetam toda a cadeia alimentar. Segundo ele, os incêndios já registrados no Pantanal evidenciam esse impacto, com a morte de milhões de animais, desde pequenos insetos até espécies dominantes. 

Raízes da árvore Piúva garantem a sobrevivência de diversas espécies em períodos de seca intensa no Pantanal.

Gustavo também afirmou que a redução no volume de chuvas, aliada ao aumento das temperaturas, tem contribuído para períodos de seca mais longos e severos, favorecendo a propagação de incêndios de grandes proporções. Além da destruição imediata da fauna e da flora, o fogo deixa consequências prolongadas que comprometem a regeneração ambiental. Outro impacto preocupante é que o Pantanal depende diretamente das cheias sazonais para manter seu equilíbrio ecológico.

 Falta de água desequilibra o fluxo dos animais que dependem da planície para sobreviver.

De acordo com o pesquisador do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) e analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Alexandre de Matos Martins Pereira, a frequência e a intensidade desses eventos indicam que o bioma enfrenta um processo contínuo de degradação ambiental. Segundo ele, as instituições estão mais capacitadas para enfrentar novas emergências. “O poder público hoje está mais equipado e preparado. Em 2020, enfrentamos uma situação sem precedentes. Já em 2024, embora o cenário climático tenha sido pior, a resposta foi muito mais coordenada, resultando em uma área queimada 30% menor do que em 2020”, destacou o pesquisador. Ele também afirmou que a fiscalização no bioma foi intensificada, o que pode contribuir para o combate a novos focos de incêndio.

Alexandre ressaltou que a maior parte dessas ocorrências tem origem na ação humana, seja de forma intencional ou por uso inadequado do fogo, o que agrava ainda mais os danos ao meio ambiente, e prejudica diretamente a rotina e até mesmo a permanência de ribeirinhos, indígenas e quilombolas no território.

Comunidades em meio à crise

Em meio ao agravamento das mudanças climáticas no Pantanal, as populações locais são as primeiras a sentir os efeitos em seu cotidiano. A redução do nível dos rios, por exemplo, tem comprometido atividades essenciais de subsistência como a pesca. A quilombola Adriana Silva Soares relatou que em algumas regiões, mesmo durante períodos autorizados, não é possível realizar a atividade. “Não tinha como colocar os barcos na água, porque o rio não subiu o suficiente”. Em comunidades que dependem da pesca e da agricultura familiar, a rotina começa ainda de madrugada, por volta das duas ou três horas da manhã e se divide entre o trabalho nos rios e nas hortas agroecológicas. Sem água suficiente, essas atividades não podem ser realizadas, afetando diretamente a renda e a segurança alimentar.

Não tinha como colocar os barcos na água, porque o rio não subiu o suficiente
Aldeia Uberaba, localizada na ilha Ínsua, em Corumbá MS, abriga a comunidade indígena da etnia Guató.

A instabilidade ambiental também altera os ciclos produtivos. Em períodos de seca, a diminuição das águas abre espaço para o plantio, mas a cheia repentina pode destruir lavouras inteiras. “Quando o rio seca, a gente consegue plantar. Mas quando a água volta, muitas vezes leva tudo”, relatou a presidente da Associação de Mulheres Produtoras da (APA) Baía Negra, Virgínia Paz. Essa dinâmica, cada vez mais irregular, intensifica a insegurança econômica e impacta diretamente a saúde mental das famílias que passam a conviver com incertezas constantes sobre produção e sobrevivência.

Quando o rio seca, a gente consegue plantar. Mas quando a água volta, muitas vezes leva tudo

A saúde, por sua vez, também entra nesse ciclo de vulnerabilidade. Com às condições ambientais precárias e o acesso limitado a serviços públicos, os saberes tradicionais assumem papel fundamental. O uso de ervas medicinais e preparações conhecidas como “garrafadas” (misturas artesanais de plantas, geralmente imersas em uma base alcoólica) foram essenciais durante a pandemia de Covid-19. Produzidas coletivamente por mulheres da comunidade, essa combinação ajudou a enfrentar a doença e atender não apenas os moradores locais, mas também demandas da cidade. “A gente não perdeu ninguém na Covid com o uso das garrafadas”, afirmou Virgínia.

Lida Pantaneira é marcada pelo profundo respeito à natureza e pelo domínio das técnicas necessárias para enfrentar os ciclos de cheias e secas da região.

Um dos principais pontos levantados por ela foi o reconhecimento do manejo tradicional do fogo, prática utilizada de forma controlada para prevenir incêndios de grandes proporções. Devida a ausência desses saberes essa exclusão pode agravar o problema. “Enquanto não deixar o fogo tradicional acontecer, ainda vai ter grandes incêndios”. Adriana também contestou a associação frequente entre comunidades tradicionais e queimadas ilegais, afirmando que a maior parte desses acontecimentos estão ligados a grandes propriedades rurais, e não às práticas comunitárias.

O debate sobre o Pantanal não pode se limitar ao fogo, mas deve considerar, sobretudo, a questão hídrica. “O Pantanal está ficando deserto. A gente precisa pensar na água”, ela alertou. O funcionamento do bioma depende de um sistema interligado que envolve outros territórios, como o Cerrado e a Amazônia, responsáveis pelo abastecimento dos rios.

Mesmo diante das dificuldades, são essas comunidades que frequentemente estão na linha de frente da proteção do território. Organizadas em grupos, monitoram diariamente as condições climáticas e possíveis sinais de fogo. O protagonismo feminino se destaca nesse processo. Em diversas comunidades, são as mulheres que lideram tanto a organização social quanto o combate direto aos incêndios. Com uso de equipamentos como bombas costais, abafadores e ferramentas manuais, elas enfrentam jornadas exaustivas, que podem se estender por dias seguidos. Em situações mais graves, o apoio de brigadas especializadas é acionado, mas a resposta inicial, na maioria das vezes, parte dos próprios moradores. “A gente é o primeiro a chegar”, relatou Virgínia.

Adriana Silva Soares também destacou a necessidade de integrar o conhecimento tradicional às políticas ambientais, defendendo que comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas não apenas convivem com o bioma, mas atuam historicamente em sua proteção (para saber mais veja a reportagem “Não é apenas terra, é território”, escrita por Maria Eduarda Amorim, Paloma Rainho e Vitória Santos). Segundo Adriana, os povos tradicionais desenvolveram, ao longo de gerações, formas próprias de manejo que contribuem diretamente para a manutenção do equilíbrio ecológico. “A academia sabe, mas nós também sabemos cuidar”.

Apesar de avanços em políticas públicas e do apoio pontual de instituições, as comunidades ainda enfrentam desafios que dificultam a permanência e a proteção do território. Para Adriana, a garantia do território é central para qualquer solução. “Território é saúde, é educação, é cultura e é resistência”, afirmou. A permanência dessas populações no bioma, segundo ela, é essencial não apenas para sua sobrevivência, mas também para a conservação do próprio Pantanal.

“Território é saúde, é educação, é cultura e é resistência”

O Olhar de quem vive no Pantanal

As fotos desta reportagem foram captadas pelo fotógrafo Luiz Felipe Mendes, que construiu sua relação com o Pantanal desde cedo: primeiro pelo encantamento, depois pela vontade de compreender. “Eu quis entender por que existiam tantas belezas ali. “Sempre admirei o Pantanal”.

A fotografia, presente desde a infância por influência do avô, começou como ferramenta acadêmica, mas rapidamente ganhou outro significado, quando ele percebeu a força do que produzia. “As imagens tinham um impacto muito grande”, afirmou.

Hoje, seu trabalho vai além da estética da paisagem. Para ele, fotografar o Pantanal é tornar visível tudo o que sustenta o bioma: culturas, histórias e modos de vida.

Um dos principais incômodos do fotógrafo está na forma como o bioma é retratado fora dali. “As pessoas se importam só com a natureza”, critica. Segundo ele, isso gera leituras superficiais e, muitas vezes, equivocadas sobre o que é de fato o Pantanal. 

Após as queimadas de 2021, esse posicionamento se intensificou. Para ele, há um desvio entre discurso e realidade: “O Pantanal é mais de 90% privado e mais de 80% preservado. Na avaliação de Luiz,esses dados indicam que a conservação está diretamente ligada ao modo de vida de quem ocupa o território.

Mais do que defender, ele propõe uma mudança de perspectiva. O Pantanal,de acordo com o fotógrafo,é prova de que produção e conservação podem coexistir. “É um ambiente onde o homem consegue viver em harmonia com a natureza.”

Ao mesmo tempo, faz um alerta. A cultura pantaneira, baseada no conhecimento experimental da natureza, está ameaçada. “A gente tem essa cultura com os dias contados”. A entrada de novos atores econômicos, as mudanças climáticas e a falta de políticas públicas são, para ele, fatores que colocam esse modo de vida em risco.


COP15: Principais discussões e medidas para o Pantanal

O maior felino das américas se tornou símbolo da COP15 por desempenhar um papel essencial no equilíbrio dos ecossistemas.

A realização da COP15 em Campo Grande reforçou a urgência de ampliar o debate e discutir soluções para a preservação do bioma. O encontro reuniu representantes de mais de 130 países, incluindo pesquisadores e autoridades.

Durante a conferência, a representante das Nações Unidas e Secretária Executiva da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), Amy Fraenkel, destacou que, apesar das negociações ocorrerem em espaços institucionais, os efeitos das decisões dependem diretamente de ações fora dessas salas. Ao citar a expressão “pensar globalmente e agir localmente”, a especialista reforçou que a efetividade das políticas ambientais está ligada à sua aplicação na realidade cotidiana.

Amy Fraenkel também chamou atenção para o papel da sociedade na preservação ambiental. Para ela, escolhas rotineiras como o consumo, o uso de recursos naturais e o cuidado com o meio ambiente, influenciam diretamente na proteção das espécies e dos ecossistemas.

A perda acelerada das áreas alagadas nos últimos anos mostra que o bioma está secando rápido, o que exige ações muito mais urgentes, como alerta a Associação Angá. Eventos internacionais como a COP15 ajudam a centralizar o foco mundial para discussões como a preservação do Pantanal, entretanto dependem diretamente de como essas discussões e acordos serão de fato inseridos na prática.

Para auxiliar no monitoramento de espécies, a secretária comentou uma iniciativa inovadora: o uso da tecnologia para transformar cidadãos em aliados ativos da conservação, a partir do lançamento de uma nova ferramenta, semelhante a um aplicativo, onde qualquer pessoa que esteja observando aves pode registrar esses dados pelo celular. “Essa informação que você coloca no seu aplicativo está sendo usada agora por formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão”, explicou. O exemplo reforça que o monitoramento do bioma deixou de ser uma tarefa exclusiva de cientistas, permitindo que pequenos registros locais guiem grandes estratégias de proteção ambiental.

Espécie de ave migratória, Talha Mar, aproveita períodos de secas no pantanal para descansar, formar colônias e se reproduzir.

Além do engajamento individual, a conferência também evidenciou a necessidade de articulação entre diferentes países para enfrentar os prejuízos ao meio ambiente. Isso porque as espécies migratórias não reconhecem fronteiras, tornando a cooperação internacional um elemento essencial para conservação.


De acordo com o biólogo Gustavo Malacco, a proteção dessas espécies depende de ações coordenadas ao longo de todo o trajeto percorrido por elas. Isso inclui desde a preservação de áreas naturais até o controle de atividades que impactam diretamente os ecossistemas, como o desmatamento e a poluição dos recursos hídricos.

A consolidação de políticas públicas consistentes foi outro pilar importante das discussões institucionais. Medidas como a criação de unidades de preservação, o monitoramento das espécies e o manejo adequado do fogo foram apontadas como estratégias essenciais.

Para Roberto Ribas Gallucci, o enfrentamento da crise climática no Brasil exige focar na raiz do problema, o que torna o combate ao desmatamento uma preocupação central. Segundo o coordenador, a proteção governamental precisa garantir que o bioma continue cumprindo seu papel no ecossistema. “Manter a floresta em pé, com as matas preservadas, com as nascentes e os rios livres de assoreamento e de poluição, é uma medida fundamental”, ressaltou.


Balanço geral da COP15:

A COP-15 e Convenção sobre Espécies Migratórias aprovou 69 propostas, focadas na conservação e proteção de espécies com risco de extinção.

A conferência reuniu líderes do mundo inteiro | Foto: Equipe Projétil.

Alcance global: O evento reuniu mais de 2.000 delegados de 132 países.

Proteção de 40 novas espécies: Inclusão da ariranha, do peixe pintado e de aves como o caboclinho-do-pantanal nos apêndices I e II, que são ferramentas de orientação e conservação dessas espécies a nível internacional. Foram 15 propostas lideradas pelo Brasil.

Plano de ação dos bagres migratórios: Estratégia regional para garantir a proteção das rotas migratórias dos bagres amazônicos, essenciais para a economia e ecossistema da bacia.

Atlas das Rotas Migratórias das Américas: nova ferramenta que reúne dados de mais de 600 espécies e mostra onde esses animais se reproduzem, descansam e se alimentam ao longo de suas rotas.

Também foram aprovadas ações conjuntas para espécies que enfrentam riscos como pesca acidental e perda de habitat, como: toninha (franciscana), tubarão-mangona e tubarão-peregrino, raias-manta e raias-diabo.

Fontes: Ministério do Meio Ambiente (MMA), Convenção sobre Espécies Migratórias e COP30 Brasil (2026).

Criação do Bosque da COP15: Instituição de área de preservação permanente em Campo Grande com plantio de espécies nativas como símbolo de conectividade urbana.
Fonte: Prefeitura de Campo Grande/G1 MS.

Presidência Brasileira (2026-2029): O Brasil assume o comando da Convenção pelos próximos três anos para monitorar a implementação dessas metas.
Fonte: Itamaraty / Ministério das Relações Exteriores.


Segundo o secretário de meio ambiente, Jaime Verruck, o estado tem investido em uma combinação de desenvolvimento sustentável e proteção ambiental. O principal passo nesse sentido foi a criação da Lei do Pantanal, sancionada em 2024. Na prática, a nova legislação impõe regras mais rígidas para frear o desmatamento, proíbe o cultivo de lavouras em áreas sensíveis e regulamenta o manejo integrado do fogo.

Para compensar as restrições e incentivar a conservação, a lei também viabilizou programas de pagamento por serviços ambientais, como o PSA Bioma Pantanal. O projeto remunera financeiramente os proprietários de terras que decidem manter a floresta em pé, buscando um equilíbrio entre a economia local e a sobrevivência da natureza. Além disso, há investimentos em infraestrutura para combate a incêndios.