Texto: Juliana Garcia | Querem Hapuque | Victor Kawano
Ilustração: Pedro Paulo Geraldi

Assim como no poema Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, onde vida e morte andam lado a lado, o turismo em Mato Grosso do Sul parece seguir esse mesmo caminho. Ao mesmo tempo em que depende da preservação das áreas naturais para existir, práticas irregulares e falhas na fiscalização colocam em risco os próprios recursos que sustentam a atividade.
O turismo virou vitrine no estado. Destinos como Bonito, Bodoquena, Rio Verde e São Gabriel do Oeste, são constantemente exaltados como referência de ecoturismo, onde preservação ambiental e desenvolvimento econômico coexistem supostamente em perfeita harmonia.
A narrativa é sedutora e amplamente reproduzida, mas esconde falhas que raramente ganham espaço nos noticiários, especialmente quanto à fiscalização frente aos limites ambientais do modelo. Pesquisas da Embrapa Pantanal, realizadas em 2022, apontam que o acúmulo de terra no fundo dos rios e a perda da transparência da água afetam diretamente a qualidade ambiental dos principais atrativos naturais de Bonito. Isso demonstra que o sistema do ecoturismo não é tão equilibrado quanto se vende nas propagandas.
Em feriados, Bonito enfrenta superlotação, se aproximando do chamado overtourism, ou turismo excessivo, fenômeno em que o fluxo ultrapassa a capacidade de um local se manter equilibrado, e afeta a infraestrutura e a natureza. De acordo com diretrizes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em áreas naturais frágeis, o aumento de visitantes pode comprometer a qualidade da água, afetar a fauna e acelerar processos de degradação difíceis de reverter.
Casos recentes demonstram que o avanço do turismo ocorre junto a ausência do cumprimento de normas ambientais e a devida fiscalização. Por exemplo, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), investigou um episódio de uma fazenda em Bonito que construiu decks e operou atividades turísticas sem autorização local, além de outras denúncias de poluição e degradação ligadas à atividade na região.
Esses episódios indicam que o problema está também na forma como as ações são conduzidas e fiscalizadas. Quando as regulamentações ecológicas não são cumpridas, os impactos deixam de ser isolados e passam a atingir áreas sensíveis, como ocorre com a degradação do solo e da vegetação causada pelo uso intensivo de trilhas e pelo descarte inadequado de resíduos. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Ecoturismo aponta a presença de lixo associada à atividades turísticas em áreas naturais, e evidencia como a ausência de controle favorece a expansão de práticas poluentes.
Sem o cumprimento rigoroso das leis, há uma contradição evidente: o que deveria ser exemplo de preservação, se torna agente de prejuízos ambientais. Segundo o Anuário da Fundtur-MS em 2025, o estado recebe cada vez mais turistas, inclusive estrangeiros. Esse aumento, no entanto, não ocorre de forma equilibrada. De forma complementar, um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) mostrou que Bonito concentra cerca de 4,7 mil leitos de hospedagem, enquanto cidades próximas, como Bodoquena, têm pouco mais de 170. Esse modelo não apenas sobrecarrega o ecossistema local, como também impede a distribuição mais equilibrada dos benefícios do turismo.
Nesse cenário, as consequências não são apenas ambientais, mas também sócio econômicas. À medida que os preços sobem, o turismo deixa de ser uma experiência acessível e se transforma em um produto cada vez mais elitizado. Com passeios em Bonito que passam de R$300,00 por pessoa, os valores elevados afastam visitantes de menor poder aquisitivo, e também a própria população local, que passa a ocupar uma posição periférica dentro do próprio território que ajuda a sustentar.
Ao redor dos núcleos turísticos, os impactos se acumulam. Para além das devastações ambientais, o aumento do custo de vida, a pressão sobre o uso da terra e a perda de acesso a espaços antes comuns são vivenciados pela população. A problemática traz desafios: é necessário estabelecer limites, ampliar a fiscalização e garantir que os benefícios da atividade sejam distribuídos de forma mais equilibrada. Sem esse compromisso, o crescimento do setor tende a intensificar danos na natureza e ampliar desigualdades, em vez de contribuir para a conservação e integração.
Sustentabilidade não pode ser apenas discurso ou estratégia de promoção, precisa ser vista e vivida na prática cotidiana. Caso contrário, o estado corre o risco de transformar seus patrimônios naturais em um produto cada vez mais explorado, restrito, e sobretudo, insustentável. Esse é o retrato paradoxal de uma natureza que sustenta o turismo enquanto luta para sobreviver a ele.

