Texto e fotos: Cássio Nantes
Era bem cedo, no dia 27 de março. O sol ainda tímido. Mal raiava o dia e as pessoas já se posicionavam em um dos portões de entrada do Parque das Nações Indígenas, uma área verde inserida no espaço da cidade. Estavam presentes diversos públicos, de variadas idades, desde jovens universitários a senhoras aposentadas, pessoas experientes e pessoas que nunca participaram de uma passarinhada. Biólogos, fotógrafos, na companhia da equipe do Instituto Mamede, que organizou a atividade, além de mim, repórter do Projétil com a câmera em mãos, bloco de anotações e a missão de ser os olhos e ouvidos da redação do jornal naquele dia.
Logo nas primeiras horas, avistamos mais de 20 espécies de aves: curicacas, araras-canindé, corujas-buraqueiras e tucanos. O azul do céu e a luz suave detalhavam a paisagem e os animais. Aos poucos, o sol foi intensificando o calor e o comportamento das aves, que são mais ativas no início da manhã. Os sons do ambiente se misturavam ao canto de diferentes espécies e ao leve movimento do vento entre as árvores. Ao fundo, a presença constante de sons urbanos. As aves apresentaram comportamentos que eu nunca tinha presenciado tão de perto. Vocalizações intensas, deslocamentos rápidos, voos entre galhos e vários momentos de alimentação.

Algumas aves defendiam seus espaços, emitindo sons mais agudos ou realizando voos curtos de aproximação para afastar outros indivíduos. A convivência também foi motivo de atenção, especialmente entre aves da mesma espécie, que se deslocavam juntas ou compartilhavam a refeição.
Vi sabiás-laranjeiros, bem-te-vis, carcarás, e alguns tipos de gaviões, como o gavião-pega-macaco explorando diferentes camadas da vegetação em busca de comida, enquanto outras aves revoavam em árvores mais altas ou áreas abertas, para se posicionarem. Além das aves, recebemos de brinde a ilustre presença de uma jiboia em um galho de uma árvore alta. O animal aparentemente tinha acabado de se alimentar e aproveitava o sol para descansar, mal se importando com a nossa presença. Depois da cobra, nossos olhos acompanharam mais de 60 gaviões-caramujeiros que sobrevoavam o Bioparque Pantanal, ao lado do parque.

A experiência foi marcada por uma forte imersão sensorial. O contraste entre o silêncio relativo das áreas mais arborizadas e os sons pontuais das aves criava uma atmosfera de atenção constante. Cada canto diferente despertava a curiosidade e exigia concentração para localizar a origem do som. Essa escuta ativa se tornou parte fundamental da atividade, complementando a contemplação.
Foi justamente meu grande desafio: localizar as aves entre árvores, pelo som, ou melhor, pela sua melodia. A identificação de algumas delas exigiram ainda mais atenção, principalmente, devido à distância em que se encontravam, à movimentação rápida dos animais ou à semelhança entre determinadas aves e seus cantos. Em alguns casos, recorri a registros fotográficos na tentativa de conseguir identificar as espécies, fiz buscas na internet e aproveitei o conhecimento dos biólogos ali presentes. A experiência é rica e complexa ao mesmo tempo, ainda que em ambientes aparentemente acessíveis.

Binóculos, câmeras fotográficas e uma grande luneta foram ferramentas para melhorar o olhar; equipamentos próprios ou cedidos pelo grupo de observação possibilitaram registros com mais detalhes e precisão.
Mais do que um simples levantamento de espécies, passarinhar me mostrou como as áreas verdes urbanas são espaços fundamentais para a conservação da biodiversidade e para a promoção de experiências de contato com a natureza.

posando para a foto | Espécie: Trogon curucui
Ainda, as passarinhadas reforçam o valor científico da observação de aves. Para mim, mirar com os olhos atentos de passarinheiro revelou também o potencial educativo, sensorial e contemplativo, oferecendo uma nova forma de perceber e reinterpretar o ambiente urbano a partir de seus sons, movimentos e asas. Como o cantor e compositor sul-mato-grossense, Ney Matogrosso, interpreta na música “Pássaro”: pássaro posso ser, ir de asas abertas, coração em loca, vida em ar… a leveza lindeza em ‘v’ de voo, o plenar… o apenas passarinhar.

