Prática que cativou lentes de câmeras, binóculos, turistas e moradores evidencia uma cidade escondida sob nossos olhos
Texto: Carolina Toffanetto| Cássio Nantes |Júlia Ortega
Ilustração: Carolina Toffanetto

O sol nasceu, o dia começou, e enquanto muitos ainda ensaiam um acordar, nos parques e áreas verdes da capital do estado de Mato Grosso do Sul (MS), olhos e lentes se voltam para o céu e para as árvores. O birdwatching, aportuguesado pelos brasileiros para o termo passarinhar, é uma prática de observação de aves livres na natureza. “É uma atividade de contemplação, de conexão com a natureza”, explica a guia de turismo Manoela Bernardy, especialista em turismo de observação de aves.
Segundo ela, a observação de aves é uma prática crescente no Brasil e pode ser realizada por qualquer pessoa, inclusive com adaptações para maior acessibilidade. “Hoje já existe observação de aves para pessoas cegas, que na verdade os guias conduzem através dos sons”, afirma.

Manoela é turismóloga e trabalha há 20 anos com turismo de observação de aves e vida selvagem, participou por dois anos consecutivos (2024-2025) da BirdFair, feira internacional de birdwatching, que acontece no Reino Unido. Segundo ela, a cultura das passarinhadas é uma prática antiga em regiões da Europa e da América do Norte, tendo a pouco tempo se tornando mais difundida no Brasil.

Jean Philippe Siblet, ornitólogo, pesquisador e especialista que representou a França na Conferência das Partes (COP15) da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS), passarinha desde 1971. O que começou como um hobby se tornou sua profissão, hoje aposentado do Muséum National d’Histoire Naturelle (Museu Nacional de História Natural Francês), ele dedica seu tempo a viajar, observar e registrar diferentes aves. Segundo o pesquisador, o Brasil possui cerca de 10% da população mundial de aves, o que torna o país um ponto alto para passarinhar. Jean Philippe chegou uma semana antes do evento, ficou por mais sete dias após a sua finalização e avistou cerca de 300 aves nesse período.
Para Manoela, Campo Grande é um lugar propício para o turismo de observação de aves, principalmente por ser uma das cidades mais arborizadas do país. A capital sul-mato-grossense foi reconhecida por lei, em 2025, como a Capital do Turismo de Observação de Aves, além da criação de uma data oficial dedicada à prática, celebrada em 28 de abril.

Ao falar sobre Campo Grande, a bióloga, pesquisadora, professora e fundadora do Instituto Mamede, Simone Mamede, que esteve presente em centenas de passarinhadas na capital e em outros estados, destaca que o título não veio apenas pela quantidade de espécies presentes no município. O reconhecimento, segundo ela, está ligado ao movimento de pessoas envolvidas com a prática, à gestão voltada para um turismo de baixo impacto e à construção de uma cultura de observação na cidade. “A gente está falando de um movimento de pessoas que têm a cultura da observação de aves”.
Aparelhados para gostar de passarinhos
Sobre os impactos da atividade, Simone afirma que a observação de aves, em si, não causa danos ao meio ambiente. “A observação de aves não causa impacto direto nenhum à natureza”, explica. Ao contrário, segundo ela, a prática tende a formar agentes de conservação. Manoela Bernardy concorda e acrescenta. “Quanto mais você promove esse tipo de turismo, mais pessoas conhecem e se encantam. A gente só preserva aquilo que a gente conhece”.
Simone também relaciona a prática ao turismo sustentável. Para ela, a observação de aves representa um modelo diferente de relação com a natureza. “Você não vai retirar da natureza, você vai exigir que a natureza seja conservada para você ter o teu produto de consumo”, afirma. Nesse sentido, a atividade depende diretamente da preservação dos ambientes naturais. No entanto, ela alerta para o uso inadequado de recursos como drones, que podem interferir no comportamento das espécies se utilizados sem cuidado.
A atuação também envolve a formação de novos observadores e o incentivo à participação da população. Mesmo quem não é especialista pode colaborar com registros e observações. “Esse participar, essas pessoas, elas são cientistas, são cidadãos-cientistas contribuindo nesse grande mapeamento das diversas espécies”.
Vivências e experiências na passarinhada
Uma das pessoas presentes na Passarinhada da COP15, que aconteceu no Parque das Nações Indígenas de Campo Grande, foi a técnica da Secretaria de Estado de Fazenda de Mato Grosso do Sul (SEFAZ/MS), Sandra Mara Ferreira Ferro. Ela se formou em biologia há 30 anos e mora em Bonito. “Eu pude observar agora com o binóculo, coisa que eu fiz há muitos anos atrás. Como eu vou me aposentar, o meu sonho tá aqui. Eu tô correndo atrás do meu sonho”, relata.
Sandra conta que se aposenta em 2027, e que participou da passarinhada pela primeira vez a convite das pesquisadoras Simone Mamede e Maristela Benites. Para ela, a experiência é um passo importante na área da biologia. Mesmo com a graduação, Sandra conta que não teve muito contato prático com o meio ambiente e que busca retornar para a natureza após a aposentadoria, a observação de aves é uma forma de resgatar os conhecimentos anteriores. “Hoje é a primeira vez que eu abro os olhos, é a minha primeira passarinhada oficial. A minha experiência foi maravilhosa porque me remete aos tempos da faculdade”, conta.

Nações Indígenas| Foto: Júlia Ortega
Silêncio para os pássaros, vem passarinhar
Um passarinheiro pode nascer da curiosidade, de um convite ou de um jeito mais inesperado. Para Simone Mamede, o interesse pela observação de aves não surgiu no início da sua trajetória acadêmica. “Na graduação eu sempre trabalhei com mamíferos, eu sou mastozoóloga”, explica. O contato com as aves veio depois, a partir da convivência com a ornitóloga Maristela Benites, com quem passou a dividir pesquisas e projetos voltados à conservação da natureza.
Simone, ao relatar sua trajetória nas passarinhadas, conta a aproximação da sua companheira de projeto, Maristela Benites, à observação de aves. “Então, desde criança ela foi ornitóloga, aprendeu com a mãe na região de fronteira. A mãe dela falava com as aves em Guarani”. Seu interesse mudou a partir de uma experiência em campo. “Um dia, a gente estava no campo e ela falou ‘Vem aqui, você tem que ver essa espécie’. Era um bicho grande, rajado, lindo e ele ergueu assim o penacho. Ela falou ‘Gavião de penacho’. Aquele dia, eu falei “Cara, eu quero observar aves para o resto da minha vida”.
A partir desse momento, a observação de aves passou a fazer parte da rotina da pesquisadora, que tem mais de 20 anos de experiência na área. Ao longo desse percurso, ela também desenvolveu projetos que integram conservação, turismo e educação ambiental, utilizando a prática como ferramenta de sensibilização. Para Simone, um dos principais desafios enfrentados ao longo da trajetória é a falta de apoio financeiro para iniciativas na área ambiental.
No fim, as passarinhadas e revoadas ficam registradas nos cadernos de campo, nas fotografias e nas anotações feitas durante o percurso. As aves observadas são eternizadas de alguma forma, para além do vento e da memória. Como escreve o poeta Manoel de Barros, “os passarinhos precisam antes de belos ser eternos”. Assim, o que passa rápido pela paisagem e pelos olhos continua existindo ali.




Quem tem interesse em participar de passarinhadas em Campo Grande pode acompanhar o Clube Acadêmico de Observação de Aves da UFMS (CAOA), pelo perfil @caoa_ufmscg. O grupo reúne pessoas de diferentes áreas e níveis de experiência para atividades de observação de aves e contato com a natureza. Outra iniciativa é o perfil @vempassarinharms, que divulga ações e eventos ligados à observação de aves no estado, reunindo coletivos, pesquisadores e projetos da área. As atividades são abertas ao público e não exigem experiência prévia, sendo uma forma acessível de começar a passarinhar.
