Escolhida para sediar a 15ª Conferência sobre Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres, Campo Grande se revela um paradoxo
Texto: Emilenne Queiroz | Evelyn Fernandes | Milena Hashimoto
Foto: Evelyn Fernandes

Em Campo Grande, o verde não é apenas cor, é discurso. A cidade, escolhida para sediar a 15ª Conferência sobre Conservação de Espécies Migratórias de Animais Silvestres (COP15), se apresenta ao mundo como vitrine ambiental: próxima ao Pantanal, atravessada pelo Cerrado e marcada pela promessa de equilíbrio entre desenvolvimento e natureza. Nos materiais institucionais, há árvores. Há aves. Há futuro.
Ao sair da rota oficial da conferência, nos bairros periféricos, o verde é ausência. A água quando chega, não é paisagem, vira problema. Escorre pelas ruas sem drenagem, invade casas, interrompe rotinas. Ali, a crise não é tema de conferência. É cotidiano.
Há algo de incômodo nessa sobreposição de representações.
Enquanto delegações internacionais discutem compromissos ambientais, a cidade que as recebe ainda negocia o básico: infraestrutura, planejamento urbano e acesso. O discurso sobe aos palcos, a realidade insiste em permanecer no chão.
“Certamente a realização da COP é uma etapa, um início”, afirma o presidente da COP 15 e atual ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco. “O que se espera é que ela deixe um legado, mas isso depende de decisões posteriores”, continua.
Essa distância entre o que se diz e o que se vive não é exceção, é parte de um cenário mais amplo. Para Áurea Garcia, diretora-geral da Organização Mulheres no Pantanal e coordenadora de políticas da Wetlands International Brasil, as contradições são estruturais. “O mundo é feito de contradições. É a partir delas, muitas vezes, que surgem os debates e os caminhos possíveis”.
O conflito entre produção e preservação ainda atravessa decisões políticas e econômicas, tanto no Brasil quanto em outros países. “Existe uma dicotomia constante entre economia e conservação. E o papel da sociedade civil é justamente colaborar na construção de políticas públicas que consigam equilibrar essas forças”, afirma Áurea.
A máquina verde do discurso ambiental
No evento, a sustentabilidade ganhou forma em pequenos gestos. Embalagens biodegradáveis, exigidas nos food trucks da conferência, circulam como símbolos de um compromisso ambiental. Mas até que ponto são solução? Ou seriam apenas poeira na superfície? Uma camada visível de compromisso ambiental que não alcança as estruturas mais profundas da cidade. Em meio a iniciativas pontuais e símbolos sustentáveis, permanece a questão central: o que, de fato, se transforma quando as discussões deixam os auditórios e retornam ao território?
O greenwashing é uma estratégia de comunicação que promove uma imagem ambiental positiva sem que haja, de fato, mudanças estruturais que a sustentem. A prática se apoia na valorização de ações pontuais, simbólicas ou pouco transparentes, como campanhas, selos ou medidas isoladas, enquanto problemas mais profundos permanecem sem enfrentamento ou sequer são mencionados. Nesse processo, constrói-se uma narrativa ambiental que funciona mais como vitrine do que como transformação (veja na página 21).
Segundo a secretária nacional de biodiversidade, florestas e direitos animais, Rita Mesquita, o termo também se aplica quando se anuncia algo que, na prática, não acontece ou não pode ser verificado, seja pela ausência de implementação real, seja pela falta de mecanismos de transparência e cobrança. Em escala global, o fenômeno não é pontual: levantamento da Comissão Europeia indica que 53% das alegações ambientais feitas por organizações são vagas, enganosas ou infundadas, e 40% não apresentam qualquer tipo de comprovação.
Mais do que um problema de comunicação, o greenwashing revela um descompasso entre discurso e prática. Ao destacar iniciativas superficiais enquanto questões estruturais seguem sem solução, ele desloca o foco do debate e dificulta a percepção dos impactos reais, especialmente em contextos onde a imagem de sustentabilidade ganha visibilidade, mas não se traduz, necessariamente, em mudanças concretas no território.
Entre o avanço econômico e os limites do território
Enquanto isso, Mato Grosso do Sul (MS) cresce. E cresce rápido. O agronegócio avança, estrutura o estado, movimenta bilhões e redefine paisagens inteiras. Em 2025, de acordo com a Resenha Regional do Banco do Brasil, o Produto Interno Bruto (PIB) do agro sul-mato-grossense registrou crescimento de 18,6%, o maior do país, consolidando o estado como uma das principais potências agrícolas nacionais. Além disso, o valor bruto da produção agropecuária ultrapassou R$76 bilhões, reforçando a centralidade do campo na economia regional. Esse avanço é impulsionado por safras recordes e expansão territorial, apenas soja e milho somaram cerca de 28 milhões de toneladas na safra 2024/25, colocando o estado entre os maiores produtores do Brasil. (veja na página 32)
Crescer aqui não é neutro. O avanço econômico pressiona o solo, reorganiza cursos d’água, fragmenta áreas naturais e altera dinâmicas que, por muito tempo, sustentaram o equilíbrio ambiental. Uma pesquisa feita em 2024 pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) evidenciou que o estado possuía 4,3 milhões de hectares com algum nível de degradação no solo, 5,4% do volume de terras degradadas no País (veja na página 31).
Enquanto o ministro Capobianco afirma ser “possível conciliar produção e preservação”, e defende que a legislação já prevê “instrumentos importantes para não impactar recursos hídricos e garantir a conectividade das áreas”, Áurea chama a atenção para esse processo como parte de uma transformação mais ampla. “A mudança do uso do solo, seja com a urbanização, com a produção ou com o transporte, causa impactos e transforma completamente a paisagem”. Ela cita o próprio Pantanal como exemplo dessas transformações acumuladas ao longo do tempo. “São alterações que acontecem às vezes de forma imediata, mas muitas vezes ao longo de décadas, mudando cursos de rios, dinâmicas naturais e serviços ecossistêmicos”, afirma a coordenadora do Mupan (veja na página 14).
O desafio permanece. “É uma questão de planejamento, de vontade de fazer as coisas corretamente, integrando natureza e produção”, completa o ministro. A afirmação aponta para um caminho possível, mas, no território, essa integração não se distribui de forma igualitária. É nesse ponto que a desigualdade ambiental deixa de ser abstração e passa a ter endereço, rosto e rotina (veja na página 35).

O endereço da desigualdade
Nas áreas mais vulneráveis, são as populações periféricas que convivem com a ausência de saneamento, com a precariedade da infraestrutura e com os impactos mais imediatos da degradação ambiental. Ali, o meio ambiente não sobe o palco, não é projeção futura; é urgência doméstica imediata, é a água que invade, o calor que se acumula, o verde que não se vê. (veja na página 10)
De acordo com a Defesa Civil de estado, no mês de fevereiro de 2026, apenas um dia de chuva, causou o isolamento de cerca de 700 pessoas nas regiões de Rio Negro, Coxim e Corguinho, evidenciando como eventos climáticos intensos atingem de forma mais severa territórios com menor estrutura de drenagem e resposta. Em Campo Grande, episódios semelhantes se repetem em bairros periféricos, onde a ausência de planejamento urbano adequado amplia os efeitos das chuvas e expõe moradores a perdas materiais, interrupções na rotina e riscos à saúde. Nesse cenário, a degradação ambiental deixa de ser um dado abstrato e passa a ser vivida no cotidiano, revelando uma cidade onde os impactos não se distribuem de forma igual, e onde a vulnerabilidade tem endereço certo.
Talvez, nenhuma imagem sintetize melhor esse conflito do que a presença das aves (veja na edição 107).
Campo Grande abriga cerca de 400 espécies de aves, muitas delas migratórias, que atravessam continentes guiadas por rotas invisíveis e dependem, para sobreviver, de algo simples e essencial: a continuidade. Precisam de áreas verdes conectadas, de água preservada, de equilíbrio ambiental. Mas o que acontece quando esse caminho é interrompido? Quando córregos são degradados, quando o crescimento urbano avança sem considerar a paisagem e quando o planejamento falha? O voo falha também. E, com ele, algo maior se rompe, a rede que ultrapassa fronteiras e conecta ecossistemas inteiros. A continuidade.
Ao afirmar que trazer a COP para Campo Grande é uma forma de evidenciar a riqueza e a importância dos biomas brasileiros, Capobianco aponta para o reconhecimento internacional do papel estratégico da cidade, especialmente como área de passagem de espécies migratórias. Sua fala reforça a visibilidade ambiental do território, mas também evidencia um limite: esse destaque, por si só, não garante preservação. O equilíbrio que ele menciona depende de decisões que vão além do evento, exigindo continuidade, planejamento e ações concretas no cotidiano.
A COP15 chega, então, como possibilidade. Um ponto de partida mais do que de chegada. “Há potencial para deixar um legado”, afirma a secretária Rita. Mas a sociedade precisa estar atenta. É um processo que não se resolve nos dias de conferência, nem se encerra nos compromissos assinados. Ele se desdobra no cotidiano. De forma cambiante, adaptada e constante.
Esse caminho passa, necessariamente, pelo diálogo. Um espaço de construção coletiva. Áurea ressalta que enquanto não houver um espaço legítimo de diálogo entre governo, setor privado, academia, sociedade civil e comunidades, não há como alcançar sustentabilidade nas ações. É nesse encontro de interesses, muitas vezes conflitantes, que se desenha uma possibilidade de equilíbrio.
Ela resume o desafio em uma ideia central, a coexistência. Diferentes usos, diferentes populações e diferentes prioridades precisam ocupar o mesmo território sem que um anule o outro. Não há solução simples, nem resposta única. Há, sim, um processo contínuo de construção.

A realização da COP mobilizou universidades, abriu espaços de debate, incentivou a participação social, envolvendo mais de 2.500 pessoas em menos de uma semana. Há sinais de articulação, de tentativa, de construção. Mas ainda há, sobretudo, incerteza.
Qual Campo Grande foi apresentada ao mundo? E, mais importante, qual cidade se apresenta no dia a dia para quem a habita?
Entre o verde que se mostra e o verde que falta, entre o discurso que ganha visibilidade internacional e a realidade que se impõe no cotidiano, a contradição permanece. Não como exceção, mas como parte do próprio processo. Os dados locais reforçam: em Mato Grosso do Sul, mais de 400 mil pessoas ainda vivem sem acesso à coleta de esgoto, e cerca de metade dos efluentes gerados não recebe tratamento adequado, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), um contraste direto com a imagem de sustentabilidade projetada.
É nesse espaço que esta história acontece.
E que este Projétil se apresenta.
