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Opinião 106

Você, jovem, têm “servido” no enfrentamento à crise climática?


Fingir que a juventude está salvando o mundo pode ser uma forma conveniente de adiar o enfrentamento ao problema. Enquanto enchentes, desmatamentos, ondas de calor e secas extremas, evidenciam o avanço do aquecimento global no Brasil, a população já sofre com esses impactos no cotidiano. A juventude, contudo, tende a ser a mais impactada, pois herdará um planeta em crise como resultado das escolhas de agora. Mas afinal, os jovens estão conscientes desses impactos e possuem condições reais de se engajar no enfrentamento às mudanças climáticas?

Embora pesquisas como a Juventudes, Meio Ambiente e Mudanças Climáticas (JUMA), de 2023, apontem que a juventude é uma grande aliada na recuperação dos biomas brasileiros, diversos fatores ainda limitam sua participação ativa. Entre eles, estão a desinformação, o desconhecimento dos impactos e a exclusão dos espaços de decisão. Nesse contexto, a ideia de que jovens podem salvar o planeta funciona bem no discurso, mas não se sustenta na prática. Mesmo quando participam de convenções internacionais como a COP30 e a COP15, sua presença raramente se traduz em poder real de decisão.

A juventude acaba ocupando, assim, um lugar simbólico nos espaços de tomada de decisão e com pouca influência na formulação de políticas climáticas. De acordo com o relatório Try Harder! (Esforce-se mais!), de 2023, realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), sete em cada dez jovens ativistas da América Latina e do Caribe nunca foram consultados na elaboração de políticas e planos climáticos e ambientais em seus países. As Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), por exemplo, estão entre os documentos menos abertos à participação juvenil, com apenas 5%.

Segundo o professor de Geografia e Educação Ambiental da Universidade Federal de Mato do Sul (UFMS), Marcos Campos, essa exclusão decorre de estruturas hierárquicas e adultocêntricas, que ainda valorizam o tempo de vida como marcador de legitimidade. “Quando o jovem toma consciência do seu lugar na sociedade, ele vai receber retaliação e preconceito. Por conta daquela sociedade que enxerga que o marcador tempo é importante. É necessário considerar que o jovem, no seu lugar de fala, vai conseguir apontar elementos que o adulto, dentro da sua perspectiva de vida, não vai conseguir considerar, porque ele não viveu o que o jovem está vivendo hoje”.

A presença de ativistas como Greta Thunberg nesses espaços, por exemplo, evidencia que há consciência e potencial na juventude, mas muitos jovens não possuem conhecimento sobre o que são as mudanças climáticas ou como elas se manifestam no dia a dia. Nesse cenário, a educação ambiental surge como uma ferramenta essencial para formar jovens conscientes, críticos e engajados. No entanto, embora prevista como tema transversal, ela ainda aparece de forma superficial nas escolas, restrita muitas vezes a ações pontuais como o Dia da Árvore ou do Meio Ambiente. Sem aprofundar causas estruturais ou estimular o pensamento crítico. Quando esse debate se aprofunda, costuma ocorrer em espaços elitizados, distantes das parcelas mais vulneráveis da população, desconsiderando que as mudanças climáticas também intensificam desigualdades sociais.

Marcadores sociais como raça, gênero, etnia e território influenciam diretamente na forma com que esses impactos são vividos. Jovens de periferias expostos à vulnerabilidade, por exemplo, enfrentam com mais intensidade o calor extremo, enchentes, insegurança alimentar e a falta de acesso à água potável, enquanto aqueles em contextos privilegiados tendem a estar mais distantes desses efeitos. Essas diferenças também moldam o tipo e o nível de engajamento. Quem luta diariamente para sobreviver, apesar de muitas vezes viver os desastres com mais intensidade, dificilmente dispõe de tempo ou recursos para lutar pelo planeta. Ao serem excluídos dos espaços de debate, seja por falta de acesso, informação ou oportunidades, os jovens acabam reforçando estruturas de poder que silenciam suas vozes.

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